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Estrelado por Anthony Hopkins em estado de graça, Meu Pai traduz os últimos estágios da demência de maneira enigmática, opressiva e dolorosa


Parece que adaptar peças de teatro é uma tendência dessa temporada. Só na edição do Oscar que acontece, se tudo der certo, daqui a algumas semanas, temos três candidatos muito fortes: A Voz Suprema do Blues (que eu já comentei aqui), Uma Noite em Miami…, e Meu Pai.

Tal presença foi tão forte que dificultou os comentários, afinal existe a possibilidade dos discursos esbarrarem em argumentos repetitivos. Querendo ou não, estamos falando de longas que se passam em cenários restritos, possuem uma quantidade reduzida de personagens e costumam dar mais peso aos diálogos do que as imagens.

Algo que, pra completar, ainda levanta uma série de questões sobre o bom uso da linguagem cinematográfica. Meu Pai abre espaço para todas essas discussões, porém possui um detalhe que, além de chamar a atenção como diferencial, influenciou minha experiência: ser escrito e dirigido por Florian Zeller, o autor da peça original. 

Meu Pai

Foto: Divulgação

Como isso não acontece nos outros exemplares, parece justo ressaltar que o comando da produção estava nas mãos de um diretor de teatro. Até mesmo porque essa informação oferece contornos surpreendentes para o fato de Meu Pai ser, entre as três adaptações indicadas ao Oscar, aquela que melhor aproveita a linguagem cinematográfica. Tanto que em diversos momentos, eu me vi fazendo o raciocínio inverso na esperança de entender como certas passagens haviam sido retratados nos palcos.

E de fato, apesar de algumas escolhas burocráticas, Zeller se esforça para apoiar sua trama enigmática em elementos que só poderiam ser utilizados em uma versão audiovisual. Ele explora os longos corredores vazios como se fossem sinapses sem utilidade, usa a profundidade de campo para explorar aqueles cômodos que parecem uma fixação de Anthony, e coloca os cantos da casa em primeiro plano com o intuito de diminuir ainda mais as dimensões do flat.

O resultado é a criação de um ambiente opressor e solitário onde o próprio espectador se enxerga como um prisioneiro cercado por espaços vazios e ângulos pontiagudos. Um cenário nada acolhedor que sufoca as memórias e vivências tanto de quem está dentro, quanto de quem está fora da mise-en-scène.

Meu Pai

Foto: Divulgação

O design de produção e a fotografia transmitem isso com muita eficiência, porém a montagem é o elemento que se destaca. Algo “natural” dentro de uma trama cujos alicerces estão em uma mente cuja principal característica é dissolver o tempo, obrigando as linhas temporais a seguirem uma rota de colisão propositalmente confusa.

Um detalhe que faz toda a diferença no quesito imersão. O bom trabalho de Zeller coloca o público dentro da mente daquele personagem, tentando entender junto com ele o que é real ou imaginário. E quanto menos você souber sobre as temáticas que preenchem o longa, mais poderosa e opressora tende a ser essa sensação.

E acreditem quando digo que não repeti a palavra opressão à toa…

Muita gente classificou Meu Pai como um filme bonito, mas eu preciso admitir que, apesar de aceitar a beleza, tive uma experiência um tanto quanto oposta. Me vi diante de uma produção extremamente opressora que mergulha na solidão do apartamento (que existe tanto em espaço físico, quanto metafórico) pra explorar a degradação da mente humana em seus últimos estágios.

Meu Pai

Foto: Divulgação

De certa forma, me lembrou muito a melancolia proposta por Michael Haneke em Amor. O que Florian Zeller entrega aqui não é um filme de finais felizes e simplificados. É uma jornada confusa e dolorosa onde todos se sentem perdidos ou incomodados. O flerte com esse nível de imersão – que também envolve o sofrimento dos familiares – nos permite acompanhar as etapas da degradação através do olhos de quem está no centro do processo.

Inclusive, essa dependência do trabalho do protagonista é a única característica teatral que Zeller insiste em manter. Por mais que Olivia Colman, Mark Gatiss e Imogen Poots entreguem trabalhos incríveis, Meu Pai é construído inteiramente em torno da figura de Anthony Hopkins.

E convenhamos: não existe um guia melhor do que ele. Um gênio que, tal qual um personagem de Shyamalan, passa por diversas personalidades em questão de minutos, incorporando o velhinho carismático, o senhor ranzinza, e o pai manipulador que escolhe uma filha favorita sem pestanejar.

Meu Pai

Foto: Divulgação

Ele reúne e contrasta todas essas facetas com uma facilidade assustadora, prendendo ainda mais o espectador nessa rede de dúvidas onde certo e errado, real e falso, sem misturam. Tudo numa preparação curiosa pro momento onde Anthony abandona as caricaturas e se entrega à emoção numa conclusão que se equilibra entre sentimentos positivos e negativos.

No meu caso, o clímax foi um momento de catarse que amarrou todo o desespero que demência impõe sobre o personagem. Um sentimento de impotência e dor acompanhado pelas memórias do meu bisavô.

Não consigo enxergar sinais explícitos de beleza, mas acho curioso o alcance emocional do filme. Me interesso pelas maneira distintas como ele atinge o público, e credito essa virtude ao trabalho de imersão. Você está inserido ali, vivendo junto com os personagens, e pode sentir coisas diferentes a partir de suas vivências e experiências particulares.

E por mais que a repetição tire um pouco da força do terceiro ato, o sentimento permanece. A alegria, a pena, a tristeza e a empatia propostas por Meu Pai extrapolam as dimensões reduzidas dos cenários e encontram conforto no cinema enigmático e sensível de Florian Zeller.


Meu Pai está disponível para aluguel nas plataformas Now, Itunes e Google Play


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Meu Pai (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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