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Filmes

Meu Amigo Enzo – Uma corrida funcional e emotiva

Uma mistura de animais e esportes que emociona sem precisar inovar.


10 de agosto de 2019 - 04:04 - Flávio Pizzol

Sem reinventar a roda, Meu Amigo Enzo reúne cachorros, famílias e corridas numa produção funcional e emocionante.


O “filme de cachorro” é um dos subgêneros tradicionais do cinema. Mesmo sem contar com grandes orçamentos, já teve lugar cativo em inúmeras Sessões da Tarde, virou franquia, viajou para os pólos gelados dos planeta e até alcançou status de grande produção com Marley & Eu. Um percurso cinematográfico que evoluiu e, nos últimos anos, ganhou uma nova fórmula: animais que narram suas próprias histórias. Meu Amigo Enzo segue essa mesma fórmula sem assumir nenhum risco, mas aproveita alguns diferenciais bem executados para cativar e emocionar.

A Largada

Sabendo que muitas corridas podem ser perdidas por erros na primeira curva, Meu Amigo Enzo (ou The Art of Racing in the Rain em inglês) escolhe largar pelo caminho mais seguro. Isso significa apostar alto numa versão de uma das tramas mais clichês e recorrentes da história do cinema: a vida em família e suas dificuldades mais comuns. Nesse caso específico, acompanhamos um corredor em busca do sucesso que adota um cachorrinho como companhia, constrói uma família quase perfeita e decide enfrentar todos os desafios com o máximo de resiliência possível.

O Primeiro Pit Stop

Dentro disso, a narrativa do longa acaba se dividindo entre as subtramas da própria família e do cachorro que dá nome ao filme. É lógico que elas se cruzam constantemente, mas a presença de arcos narrativos distintos confere uma espécie de independência para os personagens. Uma autonomia que, mesmo sendo mínima, me permite falar sobre cada um desses elementos com mais facilidade.

Dito isso, a história de Danny, Eve, Zoe e os “Gêmeos” só pode ser classificada como a versão pocket de uma novela que acompanha seus protagonistas por vitórias, derrotas, romances, doenças e até acusações judiciais cheias de injustiça. Um combo muito comum que, apesar do maniqueísmo exagerado e bastante incômodo, encontra maneiras eficientes de ultrapassar as adversidades e mexer com o espectador. Não tem nenhuma surpresa ou reviravolta que não possa ser facilmente antecipada, mas faz o suficiente para cativar quem entra no cinema sabendo o que vai assistir.

Um tiro certeiro que passa, acima de tudo, por um elenco humano que sabe traduzir as características da história com precisão. Milo Ventimiglia (Creed 2), por exemplo, interpreta uma versão esportista de seu personagem em This is Us, reunindo tudo que o transformou nesse exemplo de super-herói da vida real para se encaixar perfeitamente naquilo que a história precisava. E, enquanto ele usa seus conhecimentos novelescos para conduzir o tom do filme, Amanda Seyfried (Mamma Mia! Lá Vamos Nós de Novo) entra na história como um carro de segurança e aproveita seu papel como coadjuvante de luxo para emocionar sem sair do piloto automático. O resultado é uma dinâmica eficiente – a palavra que, na minha opinião define o filme – que só ganha com a simpatia de Ryan Kiera Armstrong (Anne with an E) e as vilanias caricatas de Martin Donovan (Big Little Lies).

Segundo Pit Stop

Assim como acontece com a família, Enzo é um personagem típico dentro desse tipo de produção: o “cachorro-narrador” que reúne todos os clichês do mundo nessa saga cujo objetivo principal é compreender e aceitar as mudanças naturais da vida. Um conceito similar ao de outros personagens caninos que já ganharam o cinema, mas que esconde, para surpresa geral da nação, alguns detalhes que merecem ser destacados.

Em primeiro lugar, o longa acerta ao permitir que Enzo seja um cachorro em sua forma mais simples e pura. Nada de aventuras em florestas, encontros perigosos com animais selvagens ou atitudes mirabolantes que só existem para dar ares heroicos para a trama. Ele age como um cachorro de verdade e isso faz com que todo ser humano possa se relacionar com sua jornada, seja por conta da convivência (passada ou presente) com um animal ou do mero encontro com um vídeo fofo no Twitter. Todo mundo já viu cachorros tomarem aquelas atitudes e vai acabar sendo, inevitavelmente, cativado pelo protagonista com força suficiente até mesmo pra ignorar certas escolhas questionáveis.

Isso pode ser considerado decisivo em filmes que flertam tanto assim com a obviedade, visto que a proximidade com um personagem consegue desviar a atenção do público. No entanto, o maior truque desse longa está no fato de que as atitudes naturalmente caninas de Enzo são permeadas por sentimentos muito humanos. Ou seja, toda atitude fofinha que arranca suspiros vem acompanhada por uma carga emotiva que é ainda mais relacionável do que o próprio animal. Afinal de contas, todos nós já precisamos lidar com o amor, o luto, a tristeza ou a amizade de uma maneira muito parecida.

Com isso em mente, enquanto o roteiro de Mark Bomback (Planeta dos Macacos: A Guerra) acerta na escolha das palavras usadas para traduzir as atitudes do Enzo, a direção de Simon Curtis (Sete Dias com Marilyn) também mostra sua importância no meio de tantas soluções comuns. Isso não significa que seu trabalho foge dos padrões estéticos que constituem os melodramas melosos e cafonas que tomaram conta do subgênero, mas revela que o diretor (seguindo o filme como um todo) consegue se equilibrar entre as soluções batidas e algumas boas ideias relacionadas a condução certeira dos momentos mais tocantes e ao uso inteligente do ponto de vista do cachorro.

E, sim, eu entendo que muitos críticos não passariam por esses aspectos novelescos com tanta aceitação, porém decidi levar em conta que Meu Amigo Enzo compreende seus clichês e escancara que escolheu abraça-los quando o próprio cachorro antecipa os pontos de virada da narrativa. Inclusive, um desses momentos mistura a autoparódia com uma característica que muitos especialistas dizem ser naturais dos cachorros, refletindo novamente como a produção acerta na construção da personalidade do seu protagonista. Tudo feito com uma honestidade que faz com essa esteja tranquilamente entre as melhores representações caninas do cinema.

Terceiro Pit Stop

Por fim, o filme coloca seus pneus de chuva antes da primeira gota cair e acerta naquele que talvez seja seu maior diferencial: misturar o “filme de cachorro” com os filmes de esporte através de metáforas e referências que permeiam Meu Amigo Enzo do começo ao fim. Nesse caso, pode colocar na conta inúmeras citações a Ayrton Senna e outros pilotos, ensinamentos morais que acompanham a maioria dos esportistas e muitos ditados populares do universo das corridas ganhando novos significados.

É como se estivemos presenciando a união de dois mundos tradicionais do cinema em um pacote que substitui os clássicos “cachorros-atletas” por um animal que entende e transmite lições de motivação, força de vontade e superação típicas dos filmes de esporte. E por mais que isso signifique sugar todos os clichês dos filmes de esporte, a união dos subgêneros disfarça as saídas narrativas mais óbvias enquanto deixa claro como o título original era simplesmente perfeito.

A Reta Final

No final das contas, o resultado é um filme que, mesmo sem inovar, encontra as maneiras mais eficientes e honestas de emocionar. Algo que muitas vezes pode ser muito mais importante do que reinventar a roda ou sair da casinha, principalmente quando se trata de um filme que não esconde sua verdadeira face em nenhum momento. Em outras palavras: Meu Amigo Enzo é um longa fofo e divertido que acerta em cheio quem tem bichos de estimação ou um coração mole (como é o meu caso). E eu até poderia dizer que essas são as únicas pessoas que vão se emocionar, mas qualquer coração pode ser amolecido diante de uma produção que posiciona as lágrimas nas últimas curvas para ter certeza que vai sair vencedora.