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Com uma narrativa poderosa. Mestre das Chamas comprova a principal teoria das histórias apocalípticas: o maior vilão do mundo é o ser humano.


Há alguns meses atrás, eu comprei diversos livros em uma daquelas lojas de saldão que vendem qualquer obra por dez reais. Alguns dos exemplares já faziam parte dos meus sonhos de consumo, enquanto outros eu comprei simplesmente pelo fato de ter achado barato. Os que faziam parte do primeiro grupo foram devorados integralmente em pouquíssimo tempo, enquanto os outros ficaram esperando seu momento. Mestre das Chamas – escrito pelo sempre ótimo Joe Hill – fazia parte desse segundo grupo e, por uma coincidência bizarra do destino, saiu da minha prateleira no mesmo dia em que a quarentena foi instaurada.

E me permito chamar isso de coincidência bizarra, porque, depois de tanta espera, esse foi o momento em que eu decidi ler um livro que se passa num EUA destruído por uma doença popularmente conhecida como Escama de Dragão. Nesse cenário, acompanhamos Harper, uma mulher contaminada que precisa enfrentar homens escrotos, seitas piradas e o desespero em sua sua forma mais pura numa jornada cujo o ponto final ideal seria um repouso seguro para dar à luz ao seu filho.

Mas, antes de se assustar com a premissa do livro em tempos movidos pela luta contra o COVID-19, vale deixar uma coisa muito clara: como a sinopse sugere, o agente infeccioso (seja um vírus ou fungo, com acontece no livro) passa bem longe de ser o vilão de Mestre das Chamas. Ele é um problema bem grande, considerando que transmite uma doença que tem como consequência a combustão total do corpo humano, mas não passa disso. Pessoas pegando fogo do nada é apenas um elemento que Joe Hill usa como pontapé para uma história que, sob certo ponto de vista, segue os mesmos caminhos que a maioria das histórias envolvendo zumbis.

Isso encaixa o romance dentro de uma caixinha cheia de outras histórias que abordam cenários pós-apocalípticos através de um prisma semelhante, mas nunca apaga as virtudes do trabalho de Hill. Assim como seu pai (pra quem não sabe, Joe Hill é filho de Stephen King), o autor usa esse “ponto comum” como um apoio para uma trama com contornos bastante inventivos. Um detalhe que pode ser percebido desde o conceito dessa doença que faz as pessoas pegarem fogo, levando consigo familiares, lojas e partes inflamáveis da natureza. Algo assustador que ainda tem o poder se alastrar como um verdadeiro incêndio por áreas que não são necessariamente físicas, como a política, a economia e a segurança pública.

O resultado são doentes marginalizados, isolados e até mesmo assassinados por pessoas dominadas por um outro vírus tão perigoso e contagioso quanto a Escama de Dragão: o medo. E é a partir desse ponto que os seres humanos entram em cena para assumir o papel de grandes vilões não só de Mestre das Chamas, como do planeta inteiro. É verdade que essa consequência pode não ser tão surpreendente se levarmos em conta as respostas da natureza ao nosso sumiço das ruas (vocês viram como estão as águas de Veneza), mas faz pleno sentido dentro da premissa e serve como combustível para vários paralelos entre o livro e a nossa sociedade.

Afinal de contas, a partir do ponto em que o vírus deixa ser o problema principal, a história acompanha a protagonista em versões potencializadas de diversos confrontos que poderiam acontecer agora, em qualquer esquina do Planeta Terra. Não é à toa que seu primeiro grande antagonista é um marido machista que viviam ao lado de sua esposa apenas pelo prazer de objetifica-la. A contaminação de Harper é o fator que serve como estopim para as ações violentas dele, mas a personalidade escrota sempre esteve ali presente e poderia estourar por qualquer outro motivo banal. É impossível culpar a doença, porque sua única culpa foi chegar antes de outros enfrentamentos.

É fácil descartar a religião como algo sangrento, cruel e tribal. Eu mesmo fiz isso. Mas não é a religião que tende a ser assim… é o próprio homem” – John Rookwood

Jakob representa um tipo de homem que existe em diversas casas espalhadas pelo mundo e Joe Hill sabe disso. Tanto que o escolhe como vilão com o propósito de criar uma aproximação entre Harper e o leitor. Uma construção de similaridades e aproximações que é propositalmente mantida quando entram em cena a Colônia Wyndham, o Homem de Marlboro e o Bonde da Cremação. Todos eles são versões afetadas pelo clima de pandemia de estratos sociais que já existem em nossa sociedade. Assim como o Brilho assume a função de Deus messa realidade, os outros antagonistas citados funcionam como alternativas levemente fictícias das pessoas cegas, extremistas e intolerantes que ocupam o poder em diversas partes do mundo.

E essa infecção gerada por uma mistura de medo e ignorância também abraça os princípios governamentais, mesmo sem Joe Hill colocar políticos como protagonistas de Mestre das Chamas. Isso significa que, apesar de não um Trump ou um Bolsonaro pronto pra dizer que as combustões são só uma “queimadurazinha”, a trama lida bastante com os conceitos de liderança e democracia, abrindo espaço para cada um dos “vilões” representem uma parte dessa raça.

E pode ter certeza que encarar isso dá mais medo do que o vírus em si, porque o autor faz questão de construir o terror da história em cima do que esse tipo de idiota (seja por desinformação, confiança cega ou estupidez) pode fazer com um mundo em colapso onde as amarras sociais deixaram de existir.

Mas o pior é que, além de existirem no mundo real, todos esses personagens possuem uma certa dose de carisma (tanto aqui, quanto no livro) que os torna “confiáveis”. Até o momento em que a podridão é revelada, o leitor acredita – à primeira vista – no amor de Jakob por Harper, nos planos revolucionários de Michael ou na possível coesão de Carol. Um toque assustador quando se pensa na nossa realidade, mas algo que conta pontos para Joe Hill quando o assunto é a criação de personagens complexos. Ele comprova que realmente puxou o pai no talento literário, já que conduz cada apresentação de personagem, cada diálogo e cada virada de lado da forma mais tensa e interessante possível.

Inclusive, eu acho que vai ser difícil encontrar uma personagem que traduz tão bem essa complexidade quanto Allie. Eu me apaixonei por ela no momento da sua primeira aparição, mas na metade do livro cheguei a torcer por sua morte antes do terceiro ato chegar com uma redenção impecável. No entanto, ela é somente um exemplo em meio a tanto personagens que passam longe de serem óbvios ou unidimensionais. Até mesmo Harper, Nick e John, que nunca abandonam o papéis de mocinhos, vão ganhando camadas questionáveis e poderosas no decorrer dessa narrativa brilhantemente recheada por ação, mistério e flashbacks reveladores.

Um combo de conflitos internos incrivelmente bem construído que, pra sorte do leitor, ganha vida numa dessas narrativas que transportam o espectador para dentro do universo. Conceitos científicos bem utilizados, espaço e tempo descritos na medida certa, metáforas e reflexões que realmente fazem pensar, ápices explosivos que fazem o leitor comemorar e uma tensão que não cessa até as últimas páginas. Tudo graças a uma escrita madura que, além de prender a atenção, brinca deliciosamente com referências a cultura pop e detalhes amedrontadores como a desativação do Google sendo marcada pelas palavras “que sorte nós tínhamos” ao invés do habitual “estou com sorte”.

Truques e escolhas narrativas que me fizeram devorar as páginas de Mestre das Chamas, varando as madrugadas até descobrir o final da história. Uma atitude que me deixou com a certeza que deveria ter lido o livro antes, apesar de saber que a ironia de encará-lo durante a quarentena gerou reflexões e paralelos que incentivaram a produção desse texto. É claro que um livro desse tipo pode não ser a melhor opção para quem está sofrendo de alguma forma com essa situação, porque pode reforçar ou ampliar um medo que tem feito parte de nossas vidas. Ainda assim, seria injustiçado não falar um pouquinho sobre essa preciosidade que certamente é o melhor trabalho de Joe Hill.


OBS 1: Adorei como a música é uma peça-chave de Mestre das Chamas.

OBS 2: Nesse link, é possível comprar a versão digital do livro.

OBS 3: A imagem da capa foi originalmente publicada nessa resenha bem legal do Confraria Cultural.

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Mestre das Chamas

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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