Mar de Dentro | Uma realidade de águas controladas

Mar de Dentro
Foto: Divulgação / Califórnia Filmes

Mar de Dentro usa a melancolia para falar sobre maternidade, mas às vezes peca pelo excesso de artificialidade.


Em World of Warcraft – sim, o jogo – existe um feitiço chamado caos controlado. Segundo o site WowHead, esse poder consiste em uma série de explosões que atingem todos os jogadores de um raio específico.

Sei que parece estranho usar essa informação como ponto de partida de um texto sobre Mar de Dentro, um filme brasileiro sobre maternidade estrelado pela Mônica Iozzi (em um dos seus primeiros papéis dramáticos de destaque). No entanto, apesar de estarmos falando de universos completamente diferentes, esse foi o conceito que ocupou minha mente durante boa parte da exibição.

Mas, antes de explicar, é importante falar sobre o filme em si…

Qual é a história de Mar de Dentro?

Manuela (Mônica Iozzi) é uma publicitária de sucesso que, de repente, descobre estar grávida de um colega de trabalho. A partir daí, ela precisa lidar tanto com a transformação de seu corpo, quanto com as mudanças de vida geradas por uma fatalidade ainda mais inesperada.

Em meio a tantos desafios pessoais e profissionais, ela tem de aprender a ser mãe mesmo sem gostar de diversos conceitos e dilemas que cercam a maternidade.

Mar de Dentro
Foto: Divulgação / Califórnia Filmes

O que achamos de Mar de Dentro?

Em diversos aspectos textuais, Mar de Dentro sugere que seu propósito (ou parte dele) é abordar os dilemas da maternidade com certa intensidade e uma boa dose de realismo. Uma decisão que, desde o princípio, coloca o longa nesse lugar que gira em torno do desejo de desvelar e “desglamourizar” situações cotidianas que costumam ser adaptadas através de visões simplificadas e/ou atenuadas.

A própria Manuela, atuando como chefe de criação em uma agência, leva esse mesmo movimento para dentro da trama, quando defende a criação de uma campanha de fraldas com personagens reais, abolindo as famílias de margarina que não passam nenhuma dificuldade na criação de seus filhos.

É justamente por isso que acaba sendo curioso e um pouco frustrante ver o trabalho de Dainara Toffoli (Manhãs de Setembro) caminhar no sentido quase oposto. E ressalto a palavra quase porque o problema de Mar de Dentro não está em qualquer sugestão fantasiosa, e sim na predominância de escolhas artificiais que não conversam com a narrativa.

Os diálogos forçados de médicos e professores, as atuações parcialmente robóticas e outras decisões de Toffoli impedem os dilemas maternos de sair do papel e encontrar a dimensão estética. O texto fala incessantemente sobre isso, enquanto a imagem insiste nessa abordagem hermética e distante do espectador.

Mar de Dentro
Foto: Divulgação / Califórnia Filmes

Inclusive, a primeira despedida entre Manuela e a babá me chamou atenção justamente por resumir essa articulação. Nesta cena, que passaria despercebida em outros cenários, você sente que existe um sentimento de liberdade muito poderoso, porém faz isso muito mais por conta de acontecimentos anteriores do que por qualquer questão estética. Afinal, a diretora filma toda a sequência em um plano médio que não aproveita as emoções do elenco ou do texto.

Esse tratamento retraído não deixa o caos e os sentimentos conflitantes ganharem as telas em todos os sentidos, mantendo a experiência de assistir Mar de Dentro presa em um lugar que pode ser classificado como monótono.

Claro que isso não invalida o filme, principalmente quando a diretora muda a chavinha para focar nos pequenos detalhes que cercam as descobertas e as rotinas cada vez mais solitárias e melancólicas de Manuela. São pequenos flashes onde direção de arte e fotografia trabalham juntos para nos aproximarem, por fim, da proposta não romantizada do longa.

O homem é um animal marinho que carrega seu mar em seu interior.

– André Bazin –

Pena que esses bons momentos – excessivamente pontuais – não conseguem vencer a artificialidade para conectar texto e imagem de maneira satisfatória. Infelizmente, é como se estivéssemos vendo dois barcos, carregados com boas intenções, que permanecem à deriva em oceanos diferentes, ficando mais e mais distantes de espectadores sedentos por mergulhar nesse mar interior dolorosamente real.


Mar de Dentro chega aos cinemas no dia 07 de abril

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