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Dividido entre a nostalgia e a artificialidade, Mank usa Cidadão Kane e seu roteirista como porta de entrada pra falar da indústria nos anos 30


Em 1971, a crítica de cinema Pauline Kael escreveu “Raising Kane”, um ensaio sobre como Orson Welles não poderia ser considerado autor de Cidadão Kane, porque Herman J. Mankiewicz teria escrito tudo sozinho durante a recuperação de um acidente. Por mais que as teorias dela já tenham sido amplamente desmentidas, o fato de David Fincher e seu pai, Jack, se assumirem como “apoiadores” de tais ideias (um com certas ressalvas, outro nem tanto) fez com que diversas polêmicas acompanhassem Mank.

É verdade que a dúvida em torno da possibilidade de revelar ou não os detalhes da participação de Welles – um jovem prodígio de apenas 24 anos – permeia todo o longa. Não posso discordar disso. Porém, no fim das contas, esse flerte conspiracionista não passa de uma peça secundária dentro da viagem que David Fincher (A Rede Social) faz pela vida do protagonista, pela criação de Cidadão Kane, pela alta classe hollywoodiana e pela própria indústria do cinema.

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Foto: Divulgação/Netflix

Inclusive, na minha opinião, é nesse último aspecto que o filme foca de verdade. William Randolph Hearst, Louis B. Mayer, Marion Davies, Mank e todo o resto surgem em cena como meras peças de uma grande máquina alimentada por falsidade e opressão.

Uma realidade que Fincher reconstrói com precisão e boas doses de cinismo. A vilanização de certos personagens, os diálogos cheios de referências teatrais e até mesmo boa parte das referências visuais (como a descrição dos cenários remetendo a escrita de roteiros) estão completamente estregues e conectados essa recriação que se divide entre a beleza e a artificialidade.

Dois atributos que, não por acaso, podem ser encontrados em diversas personalidades e esquinas dessa Hollywood recriada com tanto cuidado (ponto para o trabalho de pesquisa realizado por Jack Fincher) e sarcasmo. O diretor brinca com toda a nostalgia que transborda em um projeto como esse, fazendo homenagens que chegam até mesmo a transformar Mank num filme da década de 30/40, mas sua ideia não é necessariamente celebrar. Na real, Fincher segue um caminho mais próximo de Crepúsculo dos Deuses com o objetivo de criticar certas engrenagens da indústria.

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Foto: Divulgação/Netflix

Uma indústria midiática que atacou Mank até transformá-lo na figura digna de pena que Gary Oldman (O Destino de uma Nação) domina com a dose perfeita de dubiedade. Seu Mank é um pobre coitado, mas também não deixa de ter certo charme; é um ser humano cínico que surge em cena destruído, ora por culpa de seus próprios vícios, ora por conta dos seus perseguidores “vilanescos”; é um sujeito mal visto por uma boa parcela dos seus pares, porém conhece os corredores do estúdios como poucos.

Em outras palavras; é a pessoa certa pra guiar o espectador nessa viagem cheia de sucessos, referências, farsas e artificialidades. Uma jornada que esbarra em homens poderosos que, apesar de cortarem salários dos funcionários, se reúnem como se a Grande Depressão não os afetasse; apoios políticos marcados por fake news; atores e atrizes  – principalmente a Marion Davies muito bem interpretada por Amanda Seyfried (Meu Amigo Enzo) – que se destacam pela beleza externa, enquanto a tristeza os consome por dentro.

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Foto: Divulgação/Netflix

Herman segue um caminho parecido, já que se divide entre a sabedoria e canalhice pra expor todas as farsas que Hollywood mantinha escondida sob seus cenários pintados a mão. Algo muito próximo do que o filme faz, se moldando como um roteiro clássico (com todas as artificialidades “auto-impostas”) que transita entre passado e presente na esperança de oferecer uma rápida visão das entranhas dessa máquina cinematográfica que nos acompanha até hoje.

Às vezes falha (principalmente como cinebiografia) e se deixa levar pelo drama comum, mas como o próprio protagonista diz: é impossível traduzir a vida inteira de um homem em apenas duas horas. Se considerarmos isso uma verdade, o longa acerta em cheio ao ser a rosquinha de canela que foge das linhas retas para entregar um vislumbre ironicamente revelador não só de Mank, mas também da indústria em uma época específica. Seja bem-vindo a falsa e magnífica Hollywood dos anos 30.


Mank está disponível no catálogo da Netflix


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Mank (2020)

8

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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