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Focado na retórica, Malmkrog é um estudo filosófico sobre a aristocracia europeia no final do século XIX


Malmkrog é o tipo de filme que ajuda a criar diversas reflexões sobre preconceitos cinematográficos. E é por isso que eu decidi começar esse texto com um pequeno exercício. Uma dinâmica de grupo, se você preferir…

Pense comigo: qual seria sua reação se eu disse que esse filme é composto por três horas e meia de discussões filosóficas filmadas de maneira extremamente lenta? E se eu dissesse que ele é baseado num livro filosófico (“Os Três Diálogos  e o Relato do Anticristo”) escrito por Vladimir Soloviov, o pai da filosofia moderna na Rússia?

Tendo como base a reação que as pessoas tiveram com O Irlandês (que, apesar do mesmo tempo, não chega nem perto de ter o mesmo ritmo lento de Malmkrog), imagino que a maioria dos espectadores fugiriam da sessão. Eu mesmo pensei em fugir, porque cogitei não estar preparado para uma experiência assim nesse exato momento.

No entanto, acabei me deixando levar e não me arrependi. Estaria mentindo se dissesse que foi uma sessão prazerosa ou simples, mas também não posso negar que fiquei inebriado e hipnotizado pelo longa escrito e dirigido pelo romeno Cristi Puiu (dono de filmes que são quase eventos). Uma obra de arte que surge como uma das coisas mais interessantes da Mostra desse ano.


I

Ópera Cômica

A sinopse de Malmkrog poderia ser facilmente o começo de uma piada daquelas bem clichês: “seis russos entram num bar; um general, um político, um filósofo e três senhoras aristocratas…”

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Se você trocar o bar por uma mansão clássica localizada em Malmkrog, uma região de origem alemã na antiga Transilvânia, encontra exatamente a história do longa. Afinal, a proposta foge das narrativas padrões a partir do momento em que decide ser uma espécie de ensaio teatral onde os personagens discutem sobre filosofia, guerra, ciência, dicotomia entre bem e mal, religião e outros conceitos bem mais complexos.

Nenhum deles resulta em alívios cômicos ou piadas, mas a situação em si existe dentro de uma bolha meio satírica. Um contexto que Puiu comprovou dominar em Sieranevada, chegando ao ponto quase metalinguístico de colocar na boca dos personagens essa ideia de “ópera cômica”.


II 

Retórica

Faz um tempo que eu venho tentando (com certo esforço) não dividir texto e direção nas críticas, porém acho que aqui vale fazer isso por puro exercício. Até porque meu objetivo não é traduzir ou explicar Malmkrog, mas sim discorrer sobre como o longa se desenvolve a partir desses diálogos.

Assim como em vários momentos onde a retórica é necessária, Malmkrog gira em torno de seis personagens de classes similares e ideais diferentes tentando convencer seus interlocutores de suas propostas. Para isso, eles precisam se basear em técnicas que ajudem na construção de uma argumentação sólida.

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Como todos fazem isso com maestria, Malmkrog se torna praticamente uma obra metalinguística onde a retórica protagoniza um filme sobre ela mesma. Afinal ela é o grande destaque desse jogo que envolve argumentos, contra argumentos, citações, dúvidas, questionamentos e discussões.

Claro que os protagonistas também roubam os holofotes, principalmente quando já tivemos acesso a opiniões suficientes dos mesmos. Todo e qualquer trabalho com os personagens aqui (não vou chamar de desenvolvimento, porque não existe a obrigação de evoluir) passa pelas suas opiniões e pela forma como eles escolhem expor tais argumentos.

Em resumo: se você gosta de filosofia e argumentação, Malmkrog é um prato cheio de conceitos complicados e retórica bem aplicada.


III

Mise-en-scène

“Ah, mas podia ser um podcast. É só diálogo mesmo…”, disse alguém no Letterboxd.

Não, não podia. Porque um podcast, por mais que eu ame o formato, precisaria abrir mão da melhor parte do filme: a forma como Cristi Puiu constrói essa encenação.

Uma série de planos longos organizados com o objetivo simples e puro de dar vida a essa retórica. A maioria dos ângulos e das movimentações escolhidas parte dessa proposta, buscando tanto mostrar quanto esconder a reação de cada personagem a retórica de seu compatriota.

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Ele quer colocar a retórica em primeiro plano e, por isso desloca o peso da sua mise-en-scène para a forma como aqueles personagens falam, sentam ou escutam. Detalhes físicos que não se sustentariam apenas com a voz.

Poderia ser teatro, talvez, mas nesse caso perderíamos a profundidade oferecida pela câmera de Puiu. Ele passeia pela casa, atravessa paredes (sem sair do lugar), troca de personagens e explora o segundo plano de uma maneira muito mais reveladora do que o texto em si.

É meio impessoal, mas são escolhas que visam expor as engrenagens da nobreza russa sem se misturar com eles. Ele se afasta daquele grupo para mostrar com eles se isolam tanto do mundo real, quando de suas próprias vidas privadas, quando começam a discutir.

Em entrevista ao jornal português Expresso durante o Festival de Berlim, Puiu deixou claro que esse isolamento da aristocracia o incomodava:

E isso é grave, porque a vida pessoal conta. Receio que o homem esteja condenado a refazer os mesmos erros. Ele comporta-se como se o céu fosse o limite. E está disposto a matar o seu próximo de um dia para o outro sem sequer refletir.”

E esse ponto de vista do diretor é decisivo na construção dessa aristocracia que discute sobre tudo e todos a partir de um ponto de vista propositalmente superior. Pessoas que descartam classes, se portam como homens superiores que criam colônias para oferecer civilidade aos povos não-europeus.

Uma aristocracia podre que se classifica como conquistadora com orgulho e discute sobre a guerra sem medo, por terem a certeza de que nada daquilo irá atingi-los.

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E são detalhes como esses, contidos nos pensamentos transferidos para a tela pelo diretor, que transformam Malmkrog em muito mais do que uma simples mesa redonda de filosofia. Muito pelo contrário, o longa trabalha de forma certeira com um retrato crítico dessa aristocracia que discute teoria sem colocar a mão na massa.


IV

Arte

Quando se pesa todos esses elementos entregues pelo texto e pelas câmeras, chegamos a conclusão de que a proposta ousada de Cristi Puiu é cinema em seu estado mais puro. Arte feita do melhor jeito possível.

Uma arte por vezes inútil, que não chega a lugar nenhum, mas arte. Afinal de contas, quem disse, se apropriando de uma frase do próprio longa, que a arte chegou na terra com uma função específica.

Regras absolutas foram criadas por quem nega a realidade”

A arte existe para mexer com o espectador, criar reflexões. Malmkrog não promete nada fora desse espectro e, com brilhantismo, se dedica a incluir a retórica na vida do espectador que estiver disposto a abandonar seus preconceitos e mergulhar na arte sem medo de viajar.


Malmkrog foi conferido nas cabines de imprensa da Mostra de São Paulo 2020

 

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Malmkrog (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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