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Magnatas do Crime é estiloso e razoavelmente divertido, mas se perde em entre estereótipos repetitivos e ideias derivadas.


Desde o início da sua divulgação, The Gentleman chamou atenção por conta de diversas similaridades visuais com Kingsman. Os pôsteres e trailers eram tão próximos do longa em questão que o novo filme de Guy Ritchie (Aladdin) parecia ser basicamente uma espécie de derivado bastardo e não-autorizado da franquia estrelada por Taron Egerton. No entanto, ainda que tais semelhanças existam nos ambientes grã-finos que preenchem as duas narrativas, elas logo são abandonadas por uma trama cujo objetivo é falar sobre criminosos de alta classe que assumem a função de lordes das drogas. Ou, de acordo com a tradução nacional, Magnatas do Crime.

Na história, Mickey Pearson é um americano que comanda uma operação muito bem-sucedida de produção e distribuição de maconha pela Inglaterra. Quando a notícia de sua aposentadoria antecipada se espalha pelas ruas, “gangsters” de todos os tipos, jornalistas e até mesmo investigadores particulares começam a conspirar na tentativa de roubar tal império, se vingar ou pelo menos enriquecer um pouquinho com a confusão.

magnatas do crime

Resumindo, uma trama definitivamente afastada de Kingsman em questões temáticas. Já em questão de estética, por outro lado, os trailers não mentiram sobre as maneiras como a narração, o uso da câmera lenta e as cenas de ação remetem ao trabalho hiper-estilizado que Mathew Vaughn popularizou há alguns anos. Entretanto, não dá pra dizer que isso é apenas um reflexo do sucesso de Kingsman, visto que o próprio Guy Ritchie já fazia escolhas parecidas no começo da sua carreira (um pouco disso pode ser visto na sua adaptação de Sherlock Holmes).

E isso me fez pensar em outra possibilidade, além de seguir o fluxo do sucesso: talvez Magnatas do Crime seja uma cópia-pirata da carreira de seu diretor. Afinal de contas, Ritchie não faz nada muito diferente de imitar seus longas de estréia, substituindo a sujeira das ruas pelos casarões da realeza num processo bizarro de gentrificação que vira piada no próprio roteiro.

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Eu escolhi apostar nessa segunda opção pelo bem dele. É verdade que isso cria uma sensação bastante amarga onde o diretor estaria criando cópias mais automatizadas de sua arte, porém continua sendo mais interessante pensar em alguém retornando as suas raízes mais autorais do que somente sugando as escolhas estéticas de algo que fez sucesso. Além disso, esse raciocínio nos permite colocar a culpa dos pôsteres similares na conta do marketing e analisar o filme de maneira mais isolada, por mais que isso afete muito pouco uma experiência que realmente insiste em ser repetitiva tanto em sua forma, quanto em seu conteúdo.

Em outras palavras: Magnatas do Crime é um filme sem personalidade.

Ele até tem alguns momentos legais graças a narrativa fragmentada ou ao narrador sarcástico que faz ótimas referências cinematográficas, mas nenhum desses elementos possui criatividade suficiente pra mexer de verdade com o público ou apagar os outros problemas narrativos que se acumulam no texto escrito pelo próprio Ritchie. Dessa forma, acaba sendo meio triste ver suas tentativas falhas de repetir o frescor de Snatch ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes se espalharem também pela ausência de personagens cativantes, histórias interessantes e catarse. E a verdade, nesse caso, é só uma: um filme pode até funcionar sem o fator novidade, mas é difícil fazer o mesmo sem os outros componentes citados acima.

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Mas isso significa que o longa é inassistível ou algo do tipo? Nem pensar, porque existem sim diversos acertos no fator diversão, no estilo, na capacidade de transportar o público pro universo da alta classe britânica. É um filme que prende a atenção, mas seria injusto com outros filmes ignorar o fato que o roteiro é muito ineficiente na construção de outros elementos primordiais. Incluindo personagens que são tão estereotipados quanto rasos, uma história simplória não usa seu diferencial alta classe pra fugir das repetições comuns e uma organização narrativa que complica a trama pra disfarçar essa simplicidade. E aí o resultado inevitável é esse produto pobre em termos de estilo e conteúdo.

Vou admitir que o terceiro ato chega perto de subverter as expectativas com algumas boas reviravoltas, mas no geral são as características listadas acima que dominam o filme, contaminando até mesmo o elenco cheio de estrelas. A maioria dos nomes – principalmente Matthew McConaughey (A Torre Negra), Charlie Hunnam (Operação Fronteira), Colin Farrell (As Viúvas), Henry Golding (Podres de Ricos) e Jeremy Strong (O Juiz) – possuem muito carisma, mas sofrem com a falta de um material rico em mãos e, como consequência, parecem optar por uma atuação mais automática.

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Michelle Dockery (Downton Abbey) até consegue se destacar no meio de grupo ultra masculinizado graças uma personagem forte e menos carregada de clichês, porém o único membro que realmente brilha é Hugh Grant (Paddington 2). Interpretando um detetive falastrão e metido a dramaturgo, Grant ri na cara do perigo, propõe dublagens bizarras e dialoga com o cinema de uma maneira metalinguística que me prendeu de verdade. Suas sacadas cinematográficas e seus trejeitos afetados estão entre as melhores coisas do filme justamente por injetarem um pouco de personalidade a esse todo tão óbvio e básico.

No entanto, repetindo pra reforçar e ter certeza, nada disso faz com que seja impossível assistir Magnatas do Crime. Só faz com que o espectador se sinta vendo uma reprise que não diverte, deixa tenso ou emociona depois de tantas visitas. É um filme correto que oferece vários sequências de deja vú enquanto sofre com a gentrificação¹ da carreira de Guy Ritchie, trocando a catarse das gangues de rua pelo marasmo da riqueza sem aproveitar isso narrativamente. Poderia até ser, nesse caso, um retorno interessante ao universo estilístico de Snatch e Dois Canos Fumegantes, mas acaba sendo somente algo mediano e esquecível.


OBS 1: Coloquei um link na primeira vez que usei a palavra, mas vou copiar abaixo o significado de gentrificação que retirei do site significados. com: “processo de transformação de centros urbanos através da mudança dos grupos sociais ali existentes, onde sai a comunidade de baixa renda e entram moradores das camadas mais ricas”¹. Daí pra entender o uso cômico dela em Magnatas do Crime, só assistindo…

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Magnatas do Crime (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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