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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: Quem é o Pantera Negra?

Graphic Novel reintroduz herói de forma mais adulta.

20 de Janeiro de 2018 - 12:42 - Tiago Soares

Recontar a história de um herói é sempre um trabalho árduo, ainda mais de um herói criado por Stan Lee e Jack Kirby, dois dinossauros da 9ª arte. Frank Miller tinha feito isso com Demolidor, e nos entregou em “Daredevil: The Man Without Fear” a melhor HQ do herói na minha opinião. Desta vez, o trabalho de fazer isso com o Pantera Negra fica a cargo de Reginald Hudlin, um cineasta, escritor e produtor que fez algumas comédias nos anos 90, mas que não tinham sido tão interessantes.

Com exceção da pegada hip hop e da cultura negra abordada em seus filmes, levando em conta o fato de Reginald ser negro, pouco se tirava algo bom de seus trabalhos, pelo menos até aqui. O artista se uniu a  John Romita Jr., o quadrinista mais ame ou odeie de todos, para recontar a história de T’Challa e Wakanda.

Dividido em 6 capítulos, Quem É o Pantera Negra? reinventa o mundo apenas pincelado por Lee e Kirby, dando profundidade, e um passado que não imaginamos que queríamos ver. A começar pelo século 10 com uma tribo tentando invadir Wakanda, passando pela virada do século com colonizadores fazendo o mesmo e uma luta de T’Chaka com o Capitão América na 2ª Guerra Mundial, somos imergidos em flashbacks, mostrando diferentes Panteras ao longo do tempo, evidenciam o porque da nação africana nunca ter sido conquistada.

Hudlin dá um background necessário ao país, berço do Pantera Negra – tido como lenda na maioria das histórias – com religião, militarismo e política caminhando juntos para o bem da nação. Também conta como T’Challa, se tornou o líder, através de uma flashback contado por Everett Ross (interpretado por Martin Freeman em Guerra Civil e no filme do herói).

Ulysses Klaw, o Garra Sônica, também está de volta, mas não como um vilão saco de pancadas e sem objetivo. Klaw ganha motivação – agora como um vilão sul-africano que além do poder – busca vingança. Aliás, a história principal gira em torno dele e sua invasão a Wakanda, depois de recrutar outros vilões, incluindo Rino, Batroc, Homem Radioativo e Cavaleiro Negro.

A outra frente está no EUA tentando se aproveitar da situação e invadir Wakanda, com uma espécie de soldados zumbis, sem dúvida o ponto mais fraco da revista, apesar da trama política ser interessante. A parte mais curta e não menos importante está Canibal tentando persuadir o embaixador de Wakanda. As muitas batalhas que acontecem ao mesmo tempo e de forma dinâmica são o grande trunfo de Hudlin que passeia por elas sem demonstrar cansaço.

As duras críticas ao governo americano, por tentaram conquistar o vibranium e os poços de petróleo inativos do país, no caso – a forma como querem fazer isso – são postos à debate, além é claro da HQ condenar a Igreja por também querer se aproveitar da situação a ponto de doutrinar os wakandanos.

A ação é frenética e a arte de John Romita Jr. é essencial para fazer isso fluir. Com seus rabiscos, John sempre foi meio rústico e aqui não está diferente. O artista sabe como conduzir a história a favor dos seus traços, dando foco naquele que interessa, (apesar de uma violência em excesso), além de demonstrar a emoção de seus personagens com closes em seus rostos.

O epílogo da graphic novel lançada pela Salvat aqui no Brasil em 2013, sempre cita a importância do herói e da riqueza que Hudlin trouxe, ao apresentar Wakanda sempre como país desenvolvido e a frente das outras nações, até europeias. Ele sempre cita um provável futuro filme do Pantera Negra, querendo que sua história servisse como base.

Hudlin também criou Shuri, irmã mais nova de T’Challa, uma das melhores personagens que faria parte das futuras histórias do herói, querendo também o posto de Pantera Negra, numa espécie de competição sadia. Apesar de um olhar meio machista em certo ponto da trama e do envolvimento dos EUA, Quem É o Pantera Negra? é uma grande história por trazer traços de representatividade e uma origem – se não a definitiva – aquela que seria a mais importante para o herói.