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Livros e HQ's

Livros e HQ’s: Jeremias – Pele

Uma história bonita, sensível e, acima de tudo, necessária...

20 de junho de 2018 - 00:45 - Flávio Pizzol

A gente já falou mais de uma vez sobre as graphic novels da MSP aqui nesse site (incluindo até um podcast só pra elas), mas não custa repetir que a proposta de deixar outras pessoas inserem sua linguagem, seu toque e suas experiências nos personagens da Turma da Mônica é genial. É a chance perfeita para construir novos pontos de vista, caminhar além do que já foi feito e dar espaço para que personagens coadjuvantes estrelem histórias poderosas. Esse é exatamente o caso de Jeremias – Pele.

O tema que injeta tamanha força nessa edição da Graphic MSP é o preconceito que deixa a vida – até então tranquila e feliz – do pequeno Jeremias de cabeça pra baixo quando ele sente, pela primeira vez, o desprezo alheio por sua cor. Dividido entre escolhas veladas da professora e o bullying escancarado dos colegas de sala, o racismo chega de fininho e desmorona os alicerces do garoto, levando-o para uma jornada de autoconhecimento movida pelo orgulho de ser negro e pela infeliz necessidade de conviver com vários formatos e estilos do tal preconceito no dia-a-dia.

O roteiro de Rafael Calça (Crônicas da Terra da Garoa) acerta em cheio na maneira sensível como escolhe lançar o personagem nessa trama tão brutal e desenvolvê-lo dentro de um arco perfeitamente amarrado, seguindo à risca até mesmo a cartilha de que bons personagens não terminam suas histórias do mesmo jeito que começaram. Jeremias aprende com seus erros e cresce muito em meio a uma montanha russa de emoções que mexe com leitores de qualquer idade ou raça quando decide intercalar os momentos mais fofos com as sequências de preconceito mais dolorosas. Tudo o que você precisa fazer é preencher o coração com algumas boas doses de empatia.

Qualidade essa que também é peça-chave na compreensão do que o roteiro tem de melhor: os discursos motivacionais que saem da boca tanto de adultos cuja missão é ensinar, quando do interior do próprio Jeremias. São momentos inspiradores que falam sobre a vida, a sociedade, o racismo e a necessidade de ver o mundo de forma mais bonita e igualitária. Mais do que isso, são momentos pesados que, junto com vários elementos da história em si, evidenciam o caráter autobiográfico ou, no mínimo, realista da narrativa. Um pouco disso é explicitado no final do livro, mas não é difícil perceber que a apresentação das profissões possui alguma inspiração no caso da escola que fantasiou seus alunos de vendedores e empregadas para mostrar um futuro onde “nada deu certo”.

Ao mesmo tempo, a maneira como essa identidade pessoal está inserida na história escancara a importância de ter negros no comando dessa empreitada. O roteirista, como eu já disse, entrega diálogos brilhantes e dita o tom com precisão e sensibilidade, enquanto o ilustrador Jefferson Costa (Fim do Mundo em Quadrinhos) conquista qualquer coração com sua arte hiper estilizada, fluída e cheia de cores vivas. Sem esquecer de pensar fora da caixinha e se divertir, Jefferson preenche os quadrinhos (ou a ausência deles, como tem sido frequente na Graphic MSP) com muita habilidade, facilitando a leitura e aproveitando qualquer espaço para incluir algumas mensagens puramente visuais. São metáforas e frases que ultrapassam o poder das palavras na hora de explicar, por exemplo, o que está acontecendo no íntimo do protagonista.

A conexão entre texto e imagem, nas figuras de Rafael e Jefferson, é essencial para que uma história tão crua como essa não perca sua força na hora de ser embrulhada em uma trama cheia de referências, super-heróis e mensagens positivas voltadas para o público mais amplo possível. Eles sabem disso e, mesmo assim, fazem com que Jeremias – Pele seja um conto sobre racismo, igualdade e empatia que, assim como Emicida faz questão de ressaltar na contra-capa, foi desenvolvido e lançado na hora certa para inspirar jovens negros e ainda transformar a vida de todos aqueles que estiverem dispostos a abrir seu coração para acolher o próximo.


OBS 1: O texto do Emicida na parte de trás do livro vale o valor da compra e do frete. Sem nenhuma dúvida!

OBS 2: Falando no caso da escola que separou as “profissões de pobre”, o discurso de Jeremias teve fortes influências daquele post onde um pai falava do orgulho de trabalhar nessas profissões ou é impressão minha?

OBS 3: Essa deve ser a HQ com mais referências a outros personagens da MSP de todos os tempos…