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Confira nossa entrevista com Liu Ze, diretor do ótimo Apenas Mortais


Por um lado não tão legal, a pandemia dificultou a realização de entrevistas presenciais. Mas, pelo lado bom, a entrada da Mostra de São Pulo no mundo online aproximou os jornalistas do país inteiro de filmes e diretores que certamente estariam fora dos seus radares.

Essa é uma parte muito foda de festivais desse tipo, e nós mergulhamos com tudo na oportunidade. Assistimos vários filmes de estreia, longas internacionais e produções independentes que (infelizmente) talvez nem chegassem perto dos cinemas brasileiros.

E, pra completar esse novo leque de possibilidades, a Mostra de São Paulo ainda possibilitou que entrevistássemos diretores de todos os cantos do mundo. Essa entrevista com Liu Ze, por exemplo, enfrentou oceanos, fusos horários e diversas traduções para chegar até aqui.


+++ Entrevista com Bahman Tavoosi, diretor de Os Nomes das Flores
+++ Entrevista com Siamak Etemadi, diretor de Pari
+++ Conferida todos os textos publicados durante a Mostra de São Paulo

A missão

Conversar com artistas que estavam exibindo seus primeiros filmes na Mostra de São Paulo, aproveitando alguns destaques da Competição de Novos diretores.


O filme

Liu Ze

Foto cedida por Liu Ze e equipe

Triste e pessoal, Apenas Mortais é um drama chinês que acompanha o cotidiano de quem enfrenta uma perda gradativa. Sem nenhuma dúvida um dos filmes mais bonitos e emocionantes dessa edição.

Não é à toa que ele entrou na minha lista de favoritos do festival.

Confira a crítica completa


O diretor

Liu Ze nasceu em Yuncheng, na China, em 1983. Começou a fazer filmes quando ainda estava na faculdade. Dirigiu curtas-metragens, como The Other Side of the Mountain (2006) e River (2018), além do documentário The Third Uncle (2017). Apenas Mortais é o seu primeiro longa-metragem.

Descrição retirada do perfil de Liu Ze no site da 44ª Mostra de São Paulo


A entrevista com Liu Ze

A Odisseia:

Uma das razões que me fizeram amar tanto Apenas Mortais é o fato do meu bisavô ter sofrido com o Mal de Alzheimer. Tenho certeza de que o filme tocou muita gente, mas eu vi minha família na tela em diversos momentos.

Dito isso: sei que o filme é uma adaptação, mas tive a impressão de que você também possui uma relação pessoal com a história. Isso faz sentido ou é tudo resultado das escolhas estéticas?

Liu Ze:

Eu realmente tenho uma relação pessoal com a história. Por exemplo, o pai no filme é, na verdade, a avó da minha esposa. Ela teve Alzheimer pelos últimos oito anos e o marido cuidou dela nesse tempo todo. Quando os visitamos durante cada festival, posso sentir sua vida vividamente. E aí penso: se eu fosse ele, como iria encarar esse tipo de vida? Conseguiria cuidar dela por oito anos? Eu acho que é muito difícil.

A avó, às vezes, tem incontinência, e não tem ideia do que está acontecendo ao seu redor, como uma criança inocente. Cada vez que a visito, ela agarra minha mão, diz “Você está aqui” e sorri para mim (seu sorriso é mais exagerado do que o das pessoas comuns). Então ela vai vagando pela sala; o cômodo não é grande, a casa é muito velha. Depois de vagar por um tempo, ela vem até mim novamente, pega minha mão e repete o que tinha dito outra vez. Quanto à incontinência, ela agarra o excremento e espalha pela casa toda. Mesmo assim, o marido persistiu nesta situação por oito anos.

Liu Ze

Diretor Liu Ze no 4ª Festival Internacional de Pingyao / Foto: China Daily

Embora, no filme, o personagem se transforme em um homem, eu coloquei esses pensamentos na produção. Será que você realmente conseguiria enfrentar as incontinências e bagunças? Ainda que, a cada visita, o avô deixe a casa limpa e arrumada (assim como a avó), eu sei que, quando estão sozinhos, o dia-a-dia pode ser doloroso. Ele me disse que fica “quebrado” às vezes. Ele não sabe quando aquilo vai acabar, e ninguém está lá para ajudá-lo.

Naquele momento, eu estava pensando em como mostrar essa “quebra” para o público. A personagem da mãe persiste por mais de dez anos, mas chega o momento em que ela finalmente dá um tapa na mesa e diz: “não me torture mais”. Eu penso que esse é o meu verdadeiro estado de espírito.

A Odisseia:

E por que você quis adaptar esse romance?

Liu Ze:

Quando me atraiu, eu não percebi o quanto ele estava conectado com a minha vida. Mas quando escrevi o roteiro, acabei percebendo como cada personagem se tornava vivo para mim. Incluindo Qin Mu e o relacionamento com seu pai: eles não são muito próximos, e isso também é um reflexo da minha relação com meu pai. Ele não expressa muito o que sente. Eu saí de casa há tanto tempo, e estou ansioso para voltar para casa durante o ano novo chinês, mas, ao mesmo tempo, tenho medo de voltar porque não sei como me comunicar com ele. Me sinto longe mas também perto dele, então exteriorizei esse sentimento em Qin Mu.

As pessoas podem não entender, achar que não há necessidade de descrever Qin Mu e sua família na trama, mas eu quis colocar minha situação aqui. E, na verdade, a ideia que coloquei aqui é: Qin Mu odeia seu pai, porque seu pai foi muito inútil em toda a sua vida. Mas, no filme, há um momento em que Qin Mu é mais inútil que seu pai, então eu acho que ele o odeia porque odeia a si mesmo, mas não percebe isso.

Faz muito tempo que eu acho que sou um fracasso. Tenho uma família e também sou pai, mas não fazia as coisas muito bem. Eu usava minha carreira como desculpa, mas minha carreira foi muito ruim em um momento. Então muitas vezes eu olhei para Qin Mu porque estava olhando para mim mesmo. Meu pai é de aldeia, mas neste momento eu acho que esta é a cura pra minha alma. Eu tentei voltar mais em casa nesses últimos dois anos, e tentei me aproximar do coração do meu pai. Eu quero que ele venha morar comigo, em nome de cuidar do meu filho.

Claro que existem algumas deficiências (em Apenas Mortais). Como eu fazia documentários, sei o que é real e acho que o que retratei agora não é real o suficiente. Tentei usar a linguagem da câmera de documentário para filmar
de forma objetiva, e isso enfraqueceu o lado dramático. Algumas críticas disseram que a atuação dos atores é exagerada demais, mas essa é uma forma de dirigir uma emoção, diminuindo a distância. Mas eu estou não estou dando uma desculpa, só estou me perguntando se é assim.

A Odisseia:

Eu também gostaria de falar (sem revelar nada, é claro) sobre o final do filme, porque acho que ele tem a melhor última cena do ano. Ele existia desde o início? Como foi a criação desse momento tão impactante?

Liu Ze:

Obrigado por gostar do final do filme. Eu pensei nele quando escrevi o roteiro. Queria que ele fosse desta forma, mas é bastante controverso. Algumas pessoas gostam muito, e outras pensam que Xia Tian voltar para casa é completamente redundante. Na verdade toda aquela cena surrealista após o funeral é um espaço dentro de Xia Tian. Ela se sente como uma ruína em seu coração; ele está vazio, e ela não sabe para onde ir. Então eu encontrei um espaço em ruínas para mostrá-la profundamente morta dentro de seu coração.

Liu ze

Foto cedida por Liu Ze e equipe

É um sentimento chocante que eu exteriorizei por meio de imagens na cena em que ela está deitada na água. Talvez esse seja o momento em que nasce uma nova Xia Tian, mas ela não sabe para onde deve ir, então você pode ver duas dela no reflexo do chão. Eu também adicionei coisas pessoais nessa cena, e é por isso que as pessoas acham que mostro muito. Porque coloco muitas coisas pessoais que quero contar para o público.

Eu cresci em uma vila, e raramente volto para minha cidade natal desde quando estava no colégio e me mudei para outra cidade. Já moro na cidade há décadas, mas ainda não consigo encontrar um senso de pertencimento aqui, Acho que não sou uma pessoa da cidade, o verdadeiro lar em meu coração é sempre aquele quintal da minha aldeia. É onde estão minhas raízes, então coloquei essa trama no pai. Dele estar sempre procurando por sua cidade natal. No final, ele caminha sobre aquela ruína, que é a aldeia onde morava. Ele vagava no beco, entre vizinhos jogando Mahjong, tricotando, lavando. São comportamentos do dia a dia.

O público pode considerar como se essas pessoas não existissem, como se elas costumassem viver ali ou como um reflexo do coração de andarilhos distantes. Pode ser uma interpretação exagerada, mas essa é a raiz do meu filme.

Eu insisto em colocar Xia Tian retornando ao lar no final, porque, no começo do filme, tem uma cena na funerária em que o chefe Mr. Wang diz: “A morte é uma liberação, você precisa estar puro e bonito quando você vai para a próxima fase”. Mas será que é realmente uma liberação?

Todo mundo está esperando a morte do pai, mas a filha tem esperança. Ela acha que acontecerá um milagre e que seu pai vai ser curado. O momento mais doloroso é quando ela está na frente dele, mas ele não sabe que ela é sua filha. Xia Tian ansiava em ver seu pai sem dor, ansiava por ver ele reconhecê-la, mas, quando começa a enfrentar esta vida, ela entra em colapso e passa a concordar que talvez a morte seja uma libertação.

Liu Ze

Foto cedida por Liu Ze E equipe

Então ela mata o pai dentro do seu coração. Mas isso faz a libertação ser real? Quando seu pai morre, ela fica perdida e em choque. Eu precisava colocar meus pensamentos sobre Xia Tian aqui, e deixar as pessoas pensarem nessa questão cruel. Existe um famoso ditado na China que diz: “quando os pais estão vivos, você sabe de onde veio. Se eles morreram, o único caminho que sobrou em sua vida é em direção à morte (tradução livre)”.

A Odisseia:

Indo para uma questão mais ampla: a China ultrapassou os EUA e tornou-se o maior mercado quando o assunto é bilheteria. É verdade que a pandemia influenciou este número, mas continua sendo uma importante conquista para o mercado asiático. Como você, sendo um cineasta chinês, enxerga isso?

Liu Ze:

A prosperidade do mercado cinematográfico chinês é definitivamente uma coisa boa para os profissionais do cinema na China. Muitos fundos estão dispostos a investir neste setor, e isso aumenta as chances de mais diretores criarem seus filmes. Mas espero que o mercado de filmes possa prosperar em
em todos os lugares da Terra, porque filmes não têm fronteiras; um filme
precisa de público, não importa de qual país ele seja. Espero que as pessoas possam se comunicar melhor por meio dos filmes.

A Odisseia:

Por fim, como você se sente ao ver seu filme no festival? E como é acompanhar a recepção de tão longe?

Liu Ze:

Estou muito feliz que este filme possa ser exibido na Mostra de São Paulo. Como disse, filme precisa de público; a única coisa significativa para um filme é se comunicar com o público através da tela. Mas também é uma pena não poder estar presente aí, falar com o público cara a cara, para conhecer a emoção dele.

Claro que dessa forma também é bom. Embora nos comuniquemos somente por e-mail, ainda posso sentir a paixão da equipe, do público e do festival. A equipe, inclusive, nos envia as críticas do público brasileiro. Isso é muito doce e atencioso, eu realmente agradeço a todos pelo trabalho que fizeram.


OBS: As fotos usada na galeria foram cedidas por Liu Ze e sua assessoria.



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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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