AODISSEIA
Séries

Legion – Um fim no auge da criatividade

Terceira temporada mergulha na loucura sem perder o foco narrativo.


20 de agosto de 2019 - 02:03 - Flávio Pizzol

Última temporada de Legion viaja no tempo, mergulha na loucura dos mutantes e encerra sua jornada com boas doses de criatividade.


Em meados da semana passada, Jeph Loeb (o chefão do braço televisivo da Marvel) falou em uma entrevista que a junção entre Disney e Fox manteria o FX como a “casa das histórias visionárias” graças a uma porta escancarada por Legion. Uma série que, mesmo não sendo mais perfeita, nunca deixou de ser um poço de criatividade no meio de tantas produções televisivas (de super-heróis e em geral) que insistiam em entregar sempre a mesma coisa. Um produto ousado que usava a liberdade oferecida pelo canal como palco para explorar novas ideias, abordagens ou soluções narrativas, enquanto aproveitava as ideias mais loucas que já surgiram nos quadrinhos da Marvel. Um show de insanidades que terminou no seu auge, reunindo parte do universo dos mutantes num casamento perfeito entre cartunesco e espetacular.

Para isso, a história recomeça de um ponto muito próximo do final da segunda temporada: David Haller usando poderes cada vez maiores para garantir tanto sua liberdade, quanto a felicidade literal do seu projeto de seita hippie. Enquanto isso, seus antigos amigos tentam encontrá-lo com o objetivo de impedir sua já anunciada participação no fim do mundo. Tudo andando nos conformes até que a chegada de uma garota com poderes inéditos guia os planos do protagonista para um caminho composto por novos perigos e a possibilidade de paz mundial.

Um plot relativamente simples e típico de histórias em quadrinhos que se torna uma obra de pura criatividade graças a Noah Hawley (Fargo) e sua habilidade de explorar a trama de David e sua turma da maneira mais inventiva possível. Isso significa, desde o princípio, que Legion vai usar todas as cartas que tiver na manga para entregar algo narrativamente diferente, esbarrando em vários acertos descritos nos textos anteriores (aqui e aqui). É o caso das constantes mudanças no formato de tela, do uso extravagante de cores e formas estranhas nos cenários, dos movimentos de câmera incomuns, dos diálogos cheios de metáforas, da trilha sonora inspirada e outras soluções criativas que tiram a série da zona de conforto em todos os episódios.

No entanto, no meio dessa bagunça levemente organizada de elementos e sacadas narrativas, o que se destaca aqui (em relação, principalmente, ao questionável ano anterior) é a presença cativa de coerência e foco. Pra começar, Hawley comprova que planejou Legion como um show pirotécnico de três atos, escolhendo então a trama perfeita para amarrar tudo que vinha acontecendo no mundo, na vida dos personagens e na mente de David. Isso é importantíssimo, mas o que mais me agradou foi ver a série se aproximar do seu ano de estreia para contar uma história simples com ferramentas que moram fora da caixinha. Ou seja, o show de subtramas um tanto quanto inconsistentes da segunda temporada é substituído por que uma narrativa sabe onde quer chegar e dá passos em direção a isso de maneira mais clara e objetiva.

A principal consequência dessa escolha surge na apresentação de uma temporada mais linear e didática. Entretanto, ao contrário do que eu havia cogitado anteriormente, a série não faz isso para se adequar a simplicidade esperada pelo grande público, já que o fato dessa ser a última leva de episódios afasta qualquer necessidade desse tipo. Assim, a série foge das digressões narrativa e dos passeios aleatórios pelo multiverso para o seu próprio bem, trocando o excesso de brincadeiras com o tempo narrativo por ideias novas que entram em cena sem tirar o que Legion tem de melhor. Dentro disso, vale destacar: a apresentação da viajante no tempo quase como protagonista do episódio de abertura com o objetivo de apresentar o conceito do poder sem demora; a expansão da mitologia através da adição desse elemento novo e todos os monstros que o acompanham; a inusitada batalha de rap comandada por Oliver Bird; e o desenvolvimento do passado com a participação de um Charles Xavier muito bem interpretado por Harry Lloyd (Game of Thrones).

Ao mesmo tempo, o aspecto visual de Legion continua dando aquele show que já tornou mais do que esperado. Os efeitos visuais são usados de maneira certeira, os movimentos de câmera inventivos mexem com a percepção do espectador, as citadas mudanças de formato de tela adicionam camadas a história central. Tudo isso no meio de inúmeras outras soluções narrativas que usam a criatividade para dar luz a uma série visualmente impressionante sem gastar rios de dinheiro. Tudo voltado pra essa fixação deliciosa em contar histórias com recursos inéditos, criando consequências incríveis para os monstros do tempo, transformando o plano astral em um jardim de janela ou apostando em um universo paralelo que é basicamente um curta em stopmotion criado a partir de fotos dos anos 30.

Um mundo de coisas bizarras que, especialmente nessa temporada,  também se destaca nas diversas demonstrações de poder dos seus personagens. Um quesito onde David garante o primeiro lugar com folga, já que essa é a primeira vez que o vemos livre para alcançar seu potencial máximo como Legião (confira seus poderes e outras curiosidades aqui). Em outras palavras, usar suas personalidades múltiplas e as habilidades subjacentes  como uma arma que apaga memórias, evapora motoqueiros e dopa seguidores das maneiras mais bonitas e impactantes que podem ser imaginadas. Mesmo assim, seria injusto ignorar algumas boas ideias que acompanham os poderes de Switch, Xavier, Kerry, Lenny, Sid e Oliver.

No entanto, apesar da participação decisiva de quase todos os personagens, David permanece com o título de melhor mutante graças a maneira como a série transforma a simples exploração da sua ambiguidade no fio condutor da temporada. A transição entre o bem e o mal, a justificativa de suas intenções aparentemente justas e a construção desse passado que afetou sua moralidade são os elementos responsáveis por conectar os episódios e adicionar camadas ao final de um personagem que realmente mexe com as expectativas – e torcidas – do público. Tudo no meio de um jogo complexo e maravilhoso que Dan Stevens (A Bela e a Fera) carrega nas costas com doses perfeitas de plenitude, confusão, carisma e vilania.

Algo que, por fim, se revela como a alma da série em um último episódio que balanceia tudo que o público sempre quis ver com inúmeras metáforas, momentos de ação grandiosos e cenas de pura intimidade. Temos resoluções que amarram pontas, personagens amados sofrendo consequências brutais, uma espécie de evolução do tempo, o embate final de David com Amahl Farouk e até mesmo uma cena no escuro que explora com brilhantismo os sentimentos do protagonista ao som de Mother do Pink Floyd. Um combo preparado daquele jeito inventivo e emocionante que se tornou a identidade dessa obra-prima que sabe como é importante usar todas as ferramentas disponíveis para criar a melhor história. Um combo extremamente criativo que tem a cara indiscutível de Legion.