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Séries

Kingdom – Reis, tronos e zumbis

Dorama sul-coreano é recheado de sangue e disputas pelo poder


9 de abril de 2019 - 21:49 - Tiago Soares

Chegando de forma tímida e sem nenhum alarde na Netflix, “Kingdom” é uma daquelas séries que despertam nossa curiosidade pelo enredo nonsense e inusitado. Inserir zumbis numa trama de poder e disputa pelo trono já é algo normal em Game of Thrones, a diferença agora é ter como pano de fundo um dorama sul-coreano, país que vem se mostrando cada vez mais amante dos mortos descerebrados vide o excelente Invasão Zumbi.

Com 6 episódios em sua primeira parte, a série se passa na Dinastia Joseon (1392-1897), quando o príncipe herdeiro e bastardo Chang (Ji-Hoon Ju) começa a suspeitar que o seu pai esteja morto e é acusado de alta traição ao rei. Paralelo a isso uma vila necessitada aguarda ansiosamente pela chegada do melhor médico local, que traz consigo um jovem infectado com uma doença misteriosa, que foi causada pela “flor da ressurreição”– planta local e mística responsável por trazer os mortos de volta à vida. A desconhecida planta foi usada no rei a fim de aguardar o nascimento de seu outro filho, desta vez legítimo, enquanto usurpadores e a rainha tomam o poder para si.

Envolto a toda esta trama política, a doença começa a se espalhar por todas as regiões do reino, e pessoas começam a atacar as outras como animais. A inocência perante a situação é um atrativo, mas algo que pode afastar os fãs mais ferrenhos deste sub-gênero do terror, contudo, não se deve esquecer que não existem zumbis naquele mundo. Fora isso, os mortos-vivos seguem a cartilha tão utilizada em outras produções (como a morte por golpes fatais na cabeça ou fogo), mas com uma rara exceção: os monstros só atacam a noite. Na luz do sol eles são ineficazes e vão quase que literalmente tirar uma soneca.

Sendo assim o dia fica reservado exclusivamente para o a guerra política, enquanto a noite fica resguardada para a guerra contra os zumbis. É claro que em dado momento as coisas se alinham, e não há pior monstro do que o ser humano, que usa do caos para tirar proveito de suas ambições. Eles são rápidos, ágeis, cheios de fome e rendem as melhores sequências da série. O terceiro episódio por exemplo, mostra uma longa noite combatendo as criaturas e é o ponto de virada para que a narrativa engate. Infelizmente, o cuidado e primor que se vê na trama zumbi, não é o mesmo dado a parte burocrática da série, que muitas vezes entra em subtramas desnecessárias que acabam deixando um ou outro episódio mais longo.

Fato que não tira a beleza da série, com seus planos abertos e um figurino e direção de arte que contrastam com toda a carnificina apresentada. Ao lado do príncipe está seu corajoso e fiel escudeiro Cho Hak-ju (Seung-ryong Ryu), o plebeu com um passado sombrio Yeong-Shin (Kim Sung-gyu) e a enfermeira atenciosa Seo Bi (vivida por Doona Bae, a Sun de Sense 8). Além destes, a atuação dos outros personagens (principalmente dos nobres, sempre querendo deixar os plebeus para trás) não chega a comprometer a obra, mas parecem forçadas na maioria das vezes.

Misturando guerra hierárquica com guerra zumbi, além de um plot twist daqueles, a série mantém a pegada arcaica (pela ausência de fortificações e armas de fogo em demasia), o que acaba sendo mais um atrativo e empecilho para lutar contra tais criaturas. Sendo uma surpresa dentro do catálogo da Netflix, Kingdom é um ótimo ponto de partida para uma série que já estabeleceu seu estilo, cenário e personagens, e pode alçar voos maiores em sua já confirmada segunda temporada.