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Jojo Rabbit: Uma sátira mais do que necessária

Diga não ao ódio e ao fanatismo!


2 de fevereiro de 2020 - 19:36 - Flávio Pizzol

Forte candidato ao Oscar, Jojo Rabbit é uma sátira política divertida, emocional e absurdamente necessária nos dias atuais.


O mundo está passando por um período de fanatismo que atinge diversas áreas da sociedade, começando na religião e chegando de maneira muito preocupante num sistema político onde candidatos possuem seus próprios fã-clubes. Um movimento que nos obriga a ver pessoas aplaudindo qualquer coisa boa ou ruim (principalmente ruim) que sai da boca dos políticos e seus “filósofos” de bolso. Algo bastante bizarro e assustador que já foi comprovado como perigoso em diversos momentos que marcaram a história do nosso pequeno planeta azul.

Mas calma: se você não reconhece isso porque se perdeu em livros preenchidos por “um montão de amontoado de muita coisa escrita“, assista Jojo Rabbit sabendo que ele foi preparado especialmente para você. Afinal, estamos falando de uma brilhante sátira anti-ódio que também pode ser vista como uma aula cheia de criatividade e versatilidade contra o fanatismo.

 

 

A história – que foi adaptada do livro de Christine Leunens pelo ator, roteirista e diretor Taika Waititi (O que Fazemos nas Sombras) – acompanha um garotinho apaixonado pelo nazismo que acredita tanto em Hitler e sua doutrina odiosa que chega ao ponto de transformar uma versão do ditador alemão em seu amigo imaginário. As coisas começam a mudar quando suas convicções são colocadas a prova pelas consequências da guerra, incluindo a descoberta de uma garota judia que havia sido escondida por sua própria mãe.

É uma trama bem simples e direta em relação as suas pretensões, mas isso não significa que o texto escolhe apenas os caminhos mais óbvios e esperados. Na verdade, Jojo Rabbit apresenta um número tão grande de camadas que eu achei justo dividir o texto entre alguns elementos principais para abraçar quase tudo que compõe essa obra fantástica e necessária.


Primeiro Ato

A Sátira Política


Esse é o melhor ponto para começar nossa viagem pelo mundo criado por Taika, porque, em sua essência, Jojo Rabbit é uma sátira política clássica. Daquelas que fariam gregos e romanos terem orgulho do legado que deixaram para trás. Isso significa que o longa, acima de tudo, cumpre seu papel de criticar as instituições políticas através de boas doses de ironia e sarcasmo, se aproximando da comédia como forma de ridicularizar os costumes que marcaram o período da Segunda Guerra Mundial. Tudo que faz parte desse estilo literário (ou subgênero quando transposto para o cinema) que percorre caminhos completamente diferentes da ofensa ou do “bullying“.

Em outras palavras, o longa tira sarro do nazismo, das suas diretrizes e do fanatismo que tomou posse daqueles que apoiavam tal regime. Ataca uma ideia (não uma pessoa, como aconteceria no bullying) ao mesmo tempo em que cria reflexões que podem ser facilmente transportadas para os dias de hoje. Exatamente como faziam os gregos nas peças estreladas pelos sátiros, os trovadores responsáveis pelas cantigas de escárnio e maldizer, o baiano Gregório de Matos em seus poemas e até mesmo os especiais de Natal do Porta dos Fundos.

 

jojo rabbit

 

No entanto, apesar de ser válido usar essa proximidade criada pelo estilo narrativo para explicar como funciona a sátira, o objetivo desse texto não é defender o Porta dos Fundos. Até mesmo porque o que Taika Waititi faz aqui é trezentas vezes mais engraçado. A ironia de ver Hitler como um amigo imaginário criado – inofensivamente – pela maneira como o garoto enxerga seu líder está entre uma das coisas mais hilárias e brilhantes dos últimos anos. Um humor pontual, ácido e certeiro que, através dos diálogos cheios de sarcasmo, molda essa fábula atemporal sobre as odiosas consequências do fanatismo.

Mas convenhamos que isso não é nenhuma surpresa para quem acompanha a filmografia do diretor e roteirista, afinal de contas estamos falando de algo que domina com perfeição. Estamos falando de um terreno onde seu texto e sua direção encontram espaço para brilhar. Não por se tratar exclusivamente de comédia, e sim por ser um lugar onde a criatividade alcança um nível onde é permitido mostrar até mesmo Hitler comendo um unicórnio assado. Não existem barreiras quando uma sátira desse tipo transforma a imaginação num tema importante e, como já era esperado, Taika usa isso a seu favor de forma precisa.


Segundo Ato

Atenção! Estamos em Guerra!


No entanto, é muito importante deixar claro que o filme não é apenas uma comédia. Eu mesmo esperava, de acordo com os trailers e a própria filmografia do diretor, que o alívio cômico ocupasse uma porcentagem ainda maior da trama. Então, apesar do tom satírico nunca ser abandonado, o que pode surpreender as pessoas é que uma parte substancial de Jojo Rabbit funciona como um filme de guerra.

É claro que tudo é explorado com muito mais sutileza e bom humor do que os dramas biográficos que costumam fazer parte do gênero, mas continua o longa continua sendo sobre a guerra. Não posso afirmar se tal tratamento saiu da mente do diretor ou do livro que originou a produção, mas, nesse ponto, vale pontuar justamente a maneira como o texto encontra seu equilíbrio graças a coragem, a ternura e ao lirismo que tomam conta da produção. Inclusive, considerando esse lado mais lúdico e imaginativo da trama, é possível que Jojo Rabbit faça muita gente recordar do ótimo A Vida é Bela.

 

jojo rabbit

 

Porém, assim como acontece no clássico italiano, a guerra continua sendo a guerra. Isso significa que mesmo tendo um protagonista infantil que explora todo esse universo com certa delicadeza, o longa entende que precisa da batalha em sua forma mais dolorosa para completar a mensagem proposta inicialmente pela sátira. E essa percepção resulta em um filme que sabe a hora de caminhar por terrenos cheios de tensão, abraçar consequências que deixam um nó no estômago do espectador e entregar sequências realmente pesadas.

Tudo feito de maneira intencional, já que essa dor causada pela guerra assume o papel da chave que mexe com os pensamentos de Jojo. Então não é à toa que a guerra se torna o auge do filme durante uma sequência de suspense que poderia muito bem substituir o primeiro capítulo de Bastardos Inglórios. Não é a toa que esse é o momento em que o Taika escancara sua desenvoltura e versatilidade como criador, elevando a tensão do filme sem perder o controle de um tom que continua sendo essencialmente cômico.

Mesmo assim, pode se ser um tanto quanto surpreendente ver o diretor usar a empatia bem desenvolvida para nos colocar dentro da guerra, chocando sem apelar para o excesso de sangue e deixando o espectador agoniado pela próxima cena. Afinal de contas, na hora que as bombas explodem, ser o maior apoiador dos culpados não garante sua salvação. E perceber isso pode ser bastante chocante para quem estava cego de ódio.


Terceiro Ato

Emoções são obrigatórias na terra de Jojo Rabbit…


E para completar esse pacote quase perfeito, Taika também deixa claro que sabe a hora exata de fazer o público gargalhar, roer as unhas e (finalmente) chorar. Um ápice emocional que toma conta da tela na hora exata graças a esse sentimentalismo controlado de maneira admirável pela direção. Pode até ser que as lágrimas escorram antes dependendo de cada experiência, mas a ideia é que elas venham depois das dificuldades para aproveitar a carga de esperança que chega após os dias sombrios.

 

jojo rabbit

 

Mas, antes de falar mais sobre isso, preciso afirmar uma coisa: seria injusto falar de emoção sem citar o elenco brilhante que acompanha Taika nessa jornada abstrata pela Segunda Guerra Mundial. A direção não conseguiria alcançar todos os seus objetivos sem a inocência dos novatos Roman Griffin Davis e Archie Yates; sem as aparições caricatas e absurdamente carismática de Sam Rockwell (Vice); sem o tocante instinto materno de Scarlett Johansson (História de um Casamento); sem a carga emocional injetada por Thomasin McKenzie (Sem Rastros); ou sem o jeito bobo como o próprio Taika constrói sua versão de Hitler.

Mas também é necessário ressaltar como o diretor domina tudo o que tenta fazer, porque é de fato incrível ver o filme passar pelo desespero e pela alegria com a mesma força. Vê-lo seguir sua frase de encerramento, mostrando o valor de todos os sentimentos. E ver, acima de tudo, Jojo Rabbit coroar essa jornada tão criativa e emocionante com a comprovação de que, independente dos limões entregues pela vida, o fanatismo ou o ódio não devem ser escolhidos como uma solução. Algo que o mundo está precisando reaprender para que todos possamos celebrar a verdadeira liberdade com uma grande dança.