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Séries

Jessica Jones (3ª Temporada) – A jornada da heroína

Um final incrível para a parceria entre Marvel e Netflix!


25 de junho de 2019 - 01:16 - Flávio Pizzol
[Aviso: Essa crítica tem spoilers!]

De 2015 pra cá, Marvel e Netflix deram vida a uma parceria que nos apresentou versões “pé no chão” (que provavelmente não teriam espaço nas telonas) de alguns dos seus heróis mais urbanos da Casa das Ideias. No entanto, algumas temporadas questionáveis, audiências baixas e a entrada da Disney no mundo dos serviços de streming virou o jogo e encaminhou um cancelamento em massa. Com isso, a terceira temporada de Jessica Jones já começa carregando o fardo de ser um encerramento para toda essa era, porém, ao contrário do eu esperava, cumpre sua última missão da melhor maneira possível.

Sabendo dessa função, a série constrói seu último ano como o passo final da transformação daquela detetive particular alcoólatra e relutante em uma verdadeira heroína. E, por mais que esse seja sempre um tema importante em todas as temporadas do show, saber o ponto de chegada dessa jornada ajuda bastante na organização de uma trama que envolve a própria Jessica, Trish Walker, Malcolm Ducasse, Jeri Hogarth e algumas caras novas na caçada a um serial killer cuja “missão” é matar as pessoas que venceram na vida sem passar pelo mesmo processo de sofrimento que ele.

Em outras palavras: temos uma história com muitas peças que os roteiristas conseguem, graças a certeza do fim, ordenar da maneira mais enxuta possível. Ao contrário de praticamente todas as temporadas dessa parceria entre Marvel e Netflix, o terceiro ano de Jessica Jones não peca pelo excesso ou pela existência daqueles quarto ou cinco episódios completamente desnecessários que arrastam o meio da temporada até cansar qualquer ser humano. E, sem meias palavras, é lógico que ver um produto tão próximo ser apresentado, desenvolvido e finalizado sem “barrigas narrativas” já conta como um enorme ponto positivo.

jessica jones trish

Pra não dizer que o trabalho de Melissa Rosenberg (Dexter) e companhia passa por 13 episódios sem nenhuma falha de ritmo, os episódios 10 e 11 assumem um pouquinho dessa função ao direcionar a série para a resolução de um caso paralelo e outras digressões. Ver tudo ser parcialmente destruído tão perto do final é bastante incômodo, mas não tira os méritos de uma temporada que sabe justamente onde precisa chegar e como vai cumprir tal missão. Dessa forma, até mesmo esses episódios arrastados e deslocados possuem sim alguma informação importante para a amarração da história de um personagem específico ou da trama como um todo.

Inclusive, esse é um elemento que também conta como um acerto dessa leva de episódios de Jessica Jones: todo mundo tem um arco evolutivo que abraça aquela ideia de levar a personalidade de alguém do ponto A até o ponto B. Um trabalho que, no caso dos veteranos, ainda respeita tudo o que foi feito nas temporadas anteriores com muito afinco, criando uma sensação de unidade que não depende de referências escancaradas ou conexões forçadas. A série simplesmente encontrou um jeito de aproveitar as sementes que foram plantadas desde 2015 e encerrar todas as jornadas com uma coerência mínima. Algo que, sejamos honestos, depende da tranquilidade oferecida por um final planejado pra funcionar.

jessica jones malcolm jeri

Jessica, por exemplo, segue o já citado caminho de transição para o heroísmo. Um caminho de autoconhecimento e aceitação que vai ganhando camadas – muito bem interpretadas por Krysten Ritter (Breaking Bad) – até encontrar seu clímax dentro do conceito de que um herói de verdade escolhe estar ali, ser altruísta ou tomar certas decisões em nome do bem-estar do próximo. Ao mesmo tempo, Trish enfrenta a mesma jornada acompanhada pelas deturpações que sempre marcaram sua vida sob os holofotes. Eu admito que demorei um pouco pra entender o que a série queria fazer com ela, mas, como a própria Jessica fala no final, aquele jeito binário de ver o mundo sempre fez parte da construção da personagem interpretada por Rachael Taylor (A Hora da Escuridão). É verdade que sua atuação como Felina podia ter mais tempo de tela, porém a construção de dois episódios inteiros sob seu ponto de vista impede que o processo de “vilanização” da personagem seja algo forçado ou apressado.

Malcolm (Eka Darville) e Jeri (Carrie-Anne Moss) também seguem o mesmo caminho, ganhando arcos finais que amarram muito bem tudo que cercou seus personagens desde o início. E, surpreendentemente, até mesmo os novatos recebem os mesmos cuidados. Um dos mais importantes dessa temporada é Erik Gelden, um malandro das ruas que usa seus poderes para chantagear as pessoas e sustentar seus vícios. Um personagem dúbio e carismático que, mesmo tendo alguns desaparecimentos estranhos dentro da narrativa, movimenta a trama e conquista o espectador com o carisma muito bem injetado pelo trabalho de Benjamin Walker (Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros).

jessica jones sallinger

Ele só perde essa disputa para o grande vilão da temporada, visto que o misterioso Gregory Sallinger acaba sendo o principal catalisador de tudo que acontece nesses últimos treze episódios de Jessica Jones. E, se considerarmos que um herói depende um pouco do seu antagonista pra funcionar, podemos dizer que a influência dele nos acertos da temporada são ainda maiores. Um serial killer sem poderes que usa a inteligência, um texto extremamente afiado, uma motivação crível dentro desse universo e uma atuação incrível de Jeremy Bobb (Boneca Russa e Escape at Dannemora) pra adicionar medo, tensão e algumas doses bem-vindas de ódio na trama.

E no final das contas, concordando ou não com a relação entre heróis e vilões que eu citei acima, temos que aceitar que o papel narrativo de Sallinger é realmente decisivo. Ele funciona como ponte para a história da Trish, mexe com as decisões éticas da nossa protagonista e cumpre seu papel em uma conclusão que merece ser vista. O incômodo com algumas subtramas e referências desnecessárias nos últimos minutos de jogo realmente me incomodam, mas passam longe de atrapalhar um final que captura a essência da série, amarra todas as pontas e encerra a jornada de Jessica Jones da maneira como uma verdadeira heroína escolheria terminar.


OBS 1: A terceira temporada de Jessica Jones é a melhor temporada da parceria entre Marvel e Netflix. Sem nenhuma dúvida…