AODISSEIA
Filmes

It – Capítulo 2 e o assustador medo das memórias

Apesar da maior quantidade de problemas, a saga dos Losers chega ao fim de maneira satisfatória.


7 de setembro de 2019 - 00:42 - Flávio Pizzol

It – Capítulo 2 acumula problemas narrativos, mas não deixa de ser uma conclusão satisfatória para a eterna luta contra o medo.


Stephen King é um dos autores mais prolíficos em relação a produção de novas obras e isso, ao lado de outros fatores criativos, o ajuda a também ser um dos escritores mais adaptados para outras mídias, incluindo televisão, teatro, quadrinhos e cinema. No entanto, depois de quase uma centena de seus trabalhos adaptados, It – A Coisa (ou o Capítulo 1) foi o responsável por bater alguns recordes de bilheteria de maneira um tanto quanto inesperada para um filme de terror para maiores. Com isso, não existia movimento mais justo do que colocar mais grana na ideia e permitir que traumas fossem encarados em uma conclusão que, apesar de seus escorregões, satisfaz os anseios dos fãs.

Dessa forma, a história de It – Capítulo 2 retoma, obviamente, o pacto de sangue que marca o final do primeiro longa como pretexto para reunir os membros do Clube dos Perdedores numa batalha definitiva contra o medo encarnado em forma de palhaço. A diferença é que, após 27 anos, eles não são mais crianças enfrentando uma espécie de rito de passagem pra vida adulta, logo toda a temática de perda da inocência é substituída por um embate metafórico contra os medos que se agarram às nossas lembranças ao ponto de se transformarem em traumas.

O roteiro de Gary Dauberman (Annabelle) segue exatamente esse caminho, aproveitando – de maneira simplificada, é claro – a estrutura da história original para brincar com passado e presente de uma maneira razoavelmente fiel. E, por mais que seu retrospecto não seja dos mais positivos, podemos dizer que ele acerta na construção dos diálogos, na metalinguagem que se destaca através de um dos protagonistas e no didatismo que se aproveita de sequências que reúnem diversas funções narrativas pra passar quase despercebido. É o que acontece, por exemplo, na cena em que Beverly visita seu antigo apartamento para enfrentar uma memória ruim e acaba esbarrando em um pedaço da mitologia do Pennywise que o longa não teria tempo de aprofundar de forma separada.

É um trabalho funcional que entrega boa parte do que It – Capítulo 2 precisa pra concluir sua jornada, porém não deixa de ser a principal fonte dos erros que colocam a continuação alguns degraus abaixo do seu antecessor. Na minha humilde opinião, entre tantas coisas que soam estranhas, a ausência daquele senso de aventura à la Conta Comigo (ou Stranger Things para os mais novos) é o que mais atrapalha o desenvolvimento da trama, porque afeta diretamente a união entre o núcleos e a transição sutil entre os tons. Em outras palavras: enquanto o primeiro longa permitia uma troca mais abrupta do terror para a comédia graças a relação entre as crianças, esse filme sofre com subtramas desnecessárias e algumas piadas bem deslocadas.

A direção, infelizmente, não consegue passar por esse texto sem nenhum arranhão e escorrega ao apostar em flashbacks que só servem para reaproveitar o sucesso dos atores-mirins, comprovar o aumento do orçamento através de monstros maiores e alongar o filme mais do que o necessário. Isso faz com que o segundo ato seja apenas uma repetição glamourosa e sem novidades do Capítulo 1. As sequências funcionam isoladamente como peças de horror e até mesmo ajudam a reforçar os traumas de cada protagonista, mas não passam de momentos vazios que, ao apostarem no que já foi visto, desperdiçam diversas chances de mergulhar de verdade nos traumas e suas consequências. Richie é o único personagem que foge a regra e ganha camadas extras quando tem seu verdadeiro medo revelado, se destacando com facilidade no meio de heróis básicos e unidimensionais.

Pra sorte do próprio filme e de quem está assistindo, na maior parte do tempo, a parceria de Andy Muschietti (Mama) com o diretor de fotografia peruano Checco Varese (Os 33) resulta em um trabalho vistoso, bonito e ainda mais ligado com a atmosfera do gênero. Os movimentos de câmera são realmente impressionantes, as transições – “super fluídas” – salvam o ritmo do filme quando certas peças divergentes precisam se conectar e o combo formado pela construção da tensão e os jumpscares funciona com muito mais eficiência dessa vez. Ou seja, assim como aconteceu no primeiro filme, Muschietti consegue usar a linguagem cinematográfica a seu favor e injetar “peso” no filme através do seu olhar artístico.

Entretanto, esse trabalho todo só funciona porque anda de mãos dadas com o grande trunfo de It – Capítulo 2: a escolha do elenco. Algo que merece ser destacado logo de cara, principalmente pela maneira como inverte a ordem mais comum da indústria, colocando atores mais experientes pra imitar os atores-mirins que tiveram a responsabilidade de criar os personagens no longa inicial. E, além de curioso, esse trabalho muito bem feito de resgate dos trejeitos é decisivo para a imersão do filme, visto que o público precisa acreditar que está vendo as versões crescidas dos seus personagens queridos para mergulhar na trama.

Dito isso, o elenco também merece destaque porque, apesar de sofrer com o pouco desenvolvimento dos personagens, entrega um trabalho primoroso quando o assunto é presença de cena e domínio dos traumas que movem as engrenagens do longa. No entanto, como é mais do que natural, alguns sentem mais falta de um texto sólido do que outros. James McAvoy (Vidro), Isaiah Mustafa (Quero Matar Meu Chefe) e Jay Ryan (Mary Kills People), por exemplo, formam esse trio que não consegue sair do piloto automático graças ao texto sem profundidade, mas se garantem em pelo menos dois bons momentos individuais de terror.

Ao mesmo tempo, Jessica Chastain (A Grande Jogada) e Bill Skarsgård (repetindo o ótimo trabalho do Capítulo 1 sem esforço) ficam uns degraus acima, apesar de não alcançarem o auge por falta de material. Já Bill Hader (Barry) e James Ransone (A Rebelião), por outro lado, aproveitam as pequenas adições feitas pelo roteiro para roubarem todos os holofotes possíveis como Richie e Eddie. O primeiro, inclusive, acerta o timing das piadas em 90% das oportunidades, carrega o drama do terceiro ato nas costas e transmite a quantidade exata de medo como “ator de terror”.

Mais do que isso, ele e seus companheiros de elenco são decisivos no processo de salvação de um filme que é, sem dúvida nenhuma, mais problemático que seu antecessor. Digo isso porque é difícil negar que It – Capítulo 2 traz de volta algumas coisas que já me incomodavam no primeiro filme em uma versão muito mais longa e repetitiva do que o necessário. Ainda assim, a direção, o elenco e momentos-chave do roteiro conseguiram ter fôlego suficiente pra assustar, divertir e emocionar tanto fãs da obra, quanto pessoas (eu!) que viram apenas o filme. E aí, no final das contas, o resultado acaba sendo uma experiência satisfatória que amarra o poder da amizade e da memória em um final merecido.


OBS 1: Palmas para as participações surpresas do icônico diretor Peter Bogdanovich e do mestre Stephen King.