AODISSEIA
Séries

Inacreditável – Uma história que faz jus ao seu título

Depois de Olhos que Condenam, Netflix aposta em mais uma minissérie chocante, impactante e necessária.


18 de setembro de 2019 - 13:59 - Flávio Pizzol

Chocante e necessária, a minissérie Inacreditável mostra como pequenos erros podem gerar consequências mais dolorosas do que um estupro.


Muita gente pensa que pequenos erros passam despercebidos e não fazem nenhuma diferença, mas a verdade é aquilo que pra você não passou de escorregão, pode mudar o rumo da vida de outras pessoas. No entanto, pior do que ver uma percepção tão simples ser ignorada por gerações que deixaram de lado a empatia, é assistir esse cenário tomar forma por conta do machismo e da estupidez de pessoas que ocupam posições de liderança na sociedade. Não é à toa que esse contexto doloroso seja exatamente aquilo que transforma Inacreditável nessa obra chocante e necessária que não só faz jus ao seu título, como reforça o potencial das minisséries da Netflix.

Baseada em fatos reais reunidos no livro-reportagem Falsa Acusação: Uma História Verdadeira (que rendeu o Prêmio Pulitzer aos autores T. Christian Miller & Ken Armstrong), a história se passa entre dois períodos distintos de tempo: 2008 e 2011. No primeiro, conhecemos uma jovem, chamada Marie Adler, que enfrenta um processo humilhante de descrença e difamação quando a polícia não acredita que ela foi realmente estuprada. Já no segundo, acompanhamos duas detetives que se reúnem com o objetivo de investigar um estuprador em série que aplica repetidamente seu modus operandi em mulheres “solitárias”.

Entre tantos acertos que acompanham a minissérie do início ao fim, a primeira coisa que se destaca nessa dinâmica assumida pela narrativa é a maneira como os roteiros comandados por Susannah Grant (Erin Brockovich) e Michael Chabon (Homem-Aranha 2) dividem o espaço entre as duas histórias com muita eficiência. Em outras palavras, isso significa que, mesmo preparando o terreno para uma provável união das tramas, ambos os lados carregam destaques individuais, prendem a atenção por conta de escolhas particulares e chegam ao ponto de levantar até mesmo questionamentos diferentes.

É como se Inacreditável fosse composta por duas séries distintas (porém complementares) que abraçam inclusive gêneros variados. A parte que acompanha a vida de Marie Adler, por exemplo, é um drama clássico, poderoso e sensível que discute sobre abuso de poder, imprudência e, principalmente, a injustiça que preenche a maior parte das investigações envolvendo denúncias sexuais. Enquanto isso, a perseguição ao criminoso no Colorado parece ser um longo e sóbrio episódio de CSI que ganha fôlego através da força de suas protagonistas, da construção de uma investigação mais responsável e da maneira certeira com que o texto trabalha alguns dados sobre violência doméstica envolvendo policiais.

Admito que esse último tópico pode soar deslocado para uma grande parte do público, afinal não influencia de fato na resolução do crime. No entanto, a verdade (comprovada pela eventual integração das linhas temporais) é Inacreditável quer ser muito mais do que uma série investigativa que apresenta pistas, descobertas e perseguições mirabolantes. Ela quer ser um palco para apresentar e questionar a realidade. É por isso que, entre tantas histórias, a minissérie escolhe dedicar um episódio inteiro ao caso de Marie Adler sem levar em conta o fato de que ela foi a primeira vítima o estuprador. Esse fato chega a ser citado mas não passa de uma frase jogada ao vento, porque o que faz Marie ser uma personagem mais importante do que as outras vítimas é justamente o peso que ele carrega por conta das injustiças cometidas pela polícia, pela sua mãe adotiva e por tantas outras parcelas do poder público.

Apesar de todos os detalhes bizarros envolvendo o caso como um todo, o roteiro grita que ver aquela menina sendo humilhada e desacreditada por quem deveria defendê-la é, de longe, a parte mais inacreditável e chocante de tudo isso. E essa é uma decisão que influencia no lado emocional do projeto através do choque e da raiva que se espalham quando a Judith ou o Detetive Parker surgem em cena, mas que também ganha peso narrativamente ao permitir que o texto fuja de algumas soluções básicas em relação ao gênero. Vale notar, por exemplo, como a união entre as histórias funciona como um gancho que prende a atenção espectador, mas não é tratada como uma reviravolta completa. Por mais que o impacto da revelação seja acompanhado por uma sequência de tensão muito bem construída, o público já sabia que aquilo precisava acontecer e só esperava a revelação do “como”.

No entanto, o desenvolvimento dessa história sem grandes viradas narrativas só funciona porque a direção sabe como manter o espectador interessado nas tramas, injetar suspense nos momentos exatos e, principalmente, amarrar tudo de maneira recompensante. Um trabalho sóbrio, cru e visceral que, por se alimentar do choque, oferece ao público uma gama de soluções visuais que ampliam o peso de cada acontecimento da maneira mais incômoda possível. É o caso, por exemplo, do jeito como Lisa Cholodenko (Olive Kitteridge) escolhe fragmentar as lembranças de Marie durante o primeiro episódio, reforçando o aumento progressivo de sua dor a cada vez que alguém pedia pra ela repetir o que tinha acontecido.

Tudo construído com o apoio – certeiro e necessário – da montagem idealizada por Jeffrey M. Werner (Ballers) e Keith Henderson (Electric Dreams), da trilha sonora composta por Will Bates (In the Dark) e de um elenco que não merece passar despercebido pelas premiações do ano que vem. Kaitlyn Dever (Fora de Série) chama mais atenção por carregar a trama de Marie Adler praticamente sozinha sem deixar a peteca cair, enquanto a dupla de policiais divide a cena com bons coadjuvantes e acaba sendo exigida de maneira mais pontual. Ainda assim, Merritt Wever (Birdman) e Toni Collette (Hereditário) são forças da natureza que roubam os holofotes sempre confrontam as histórias ou as crenças de suas personagens.

Mas a verdade é, acima de qualquer divisão, as três merecem aplausos por darem vida e energia para um texto extremamente complexo e indigesto, andando de mãos dadas com o roteiro e a direção até um final catártico que preenche a tela com uma mistura de raiva, libertação e choro que atinge o espectador com a força de uma recompensa esperada há muito tempo. É exatamente o que as personagens precisavam receber antes de encarar os traumas e deixar as dores para trás; o que o público esperava como retribuição após oito episódios tão difíceis de serem assistidos; e o que coloca Inacreditável na lista de obras necessárias que só saíram do papel graças a Netflix e outros serviços de streaming. E pode acreditar que essa é uma daquelas histórias que, assim como Olhos que Condenam, não merece ser esquecida, ignorada ou resumida a um filme independente que quase ninguém assistiria.


OBS: Marie falando que as pessoas não acreditam em verdades inconvenientes e seu advogado deixando claro que ninguém escara uma denúncia de roubo como uma possível mentira estão entre os momentos que mais impactaram. Quais são os seus?