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Séries

Homens? – Comédia com boas doses de reflexão

Dica do dia: pensar antes de falar ou fazer alguma coisa pode ajudar um bocado...


16 de maio de 2019 - 00:58 - Flávio Pizzol

Você pode até não gostar do que está acontecendo, mas também não pode negar que essa geração está sendo marcada por mudanças sociais que afetam da política mundial até a indústria do entretenimento, passando ainda por outros aspectos que afetam diretamente nosso dia-a-dia. Para nossa sorte, muitas dessas ideias efervescentes batem de frente, entre tantas coisas, com um machismo que está enraizado desde sempre na nossa sociedade. É nesse contexto cheio de contrastes que Homens? (com o ponto de interrogação mesmo) lança um novo olhar sobre essas e outras questões atuais, se consagrando como uma comédia divertida, certeira e preenchida por reflexões necessárias.

A premissa da série – criada pelo incansável Fábio Porchat (Entre Abelhas) – envolve justamente pegar quatro homens criados nessa sociedade patriarcal e colocá-los em situações que os obrigam a repensar suas atitudes ao ponto de, no mínimo, começar a desconstruir esse machismo que já nasceu dentro deles. Em outras palavras, a base de tudo está na recriação (levemente exagerada) de situações reais com dois objetivos: expôr de maneira ágil e engraçada o deslocamento dos pensamentos retrógrados; e mostrar, através das consequências, a importância de apertar o start nessa mudança de comportamento.

Isso faz com que a série use tudo que envolve o sexo masculino, o machismo e os pensamentos opostos como fonte de ideias, entrando em um caminho que é tratado como inovador ou errado por muita gente. Eu não acho que ela seja tão “diferentona” assim ou sequer que seja, como li em alguns comentários, uma série sobre homens explicando feminismo. Pelo contrário, ela é uma série que apela pra simplicidade narrativa para fugir de certas armadilhas deixada pela pretensão, enquanto mostra homens tentando entender o feminismo e sua presença atual na sociedade. Nesse caso, ela funciona justamente pela proximidade com o público, visto que esse processo de “readequação” tem acontecido em diversos níveis e extratos da sociedade.

O truque aqui é ser uma comédia situacional que, ao invés de buscar grandes soluções, foca nos personagens para expor o machismo através do olhar do próprio homem que precisa questionar e repensar suas atitudes. A mistura desse aspecto com o uso recorrente de situações comuns cria uma dinâmica um pouco didática e expositiva demais, mas isso também não pode ser considerado um erro quando se trata de um assunto tão espinhoso. Algumas pessoas simplesmente não conseguem enxergar seus erros, então mastigar o tema e misturar as reflexões em esquetes de comédia – como o próprio Porta dos Fundos faz com alguma frequência – pode ser uma solução bem-vinda.

Inclusive, alguns dos protagonistas poderiam ser facilmente enquadrados nessa última classificação. Isso acaba amenizando os incômodos que poderiam ser causados por essa explicação mais direta, porque ela é usada como ferramenta para fazer a narrativa progredir e funcionar: os protagonistas começam suas jornadas pensando como machistas (o que, deixando claro, não faz a série ser machista) e passam pelo processo de desconstrução nos seus próprios ritmos, refletindo até mesmo como esse processo é longo e diferente pra cada um.

Logo, não estranhe a maneira como a série se apropria do machismo para apresentar e desenvolver os personagens. Eles pensam, conversam no WhatsApp e reagem a tudo como machistas, enquanto a narrativa usa tudo como material para piadas e reflexões graças ao texto inteligente e as sacadas visuais que englobam das redes sociais até algumas viagens pela mente dos protagonistas. Esse último elemento, mesmo não sabendo explicar exatamente seu funcionamento, ganhou espaço como uma das minhas partes favoritas do programa por ser um diferencial palpável. Digo isso porque, narrativamente, a direção usa muito bem essa ideia, transformando as subjetividades presentes na mente do homem em algo visualmente interessante para um programa com cara de sitcom.

Essa proposta faz com que seja normal, por exemplo, um personagem parar e começar a andar pelo cenário pra resolver questões da sua própria consciência sem afetar a ação como um todo. O resultado dessa brincadeira são algumas sequencias divertidas e inventivas que passam pela divisão de telas que interagem entre si, as conversas “atuadas” nos grupos de WhatsApp e até diálogos de um dos protagonistas com seu próprio órgão genital. Nesse caso, um pênis machista e depressivo que possui o seu próprio arco, brinca com a ideia de que os homens são comandados pela “cabeça de baixo” e ganha muitos pontos graças a interpretação hilária de Rafael Portugal (Chorar de Rir).

Além disso, as cenas com o Pênis (começando com letra maiúscula, porque esse é o nome creditado do personagem) ainda exemplificam o equilíbrio do texto entre piadas escatológicas, críticas bem construídas e diálogos que disfarçam o besteirol com sacadinhas. Até mesmo quando o conteúdo é estritamente sexual, a piada subverte as expectativas com um jeito inusitado de retardar o orgasmo ou com a acidez de quem examina a mente do homem com um certo afastamento. Só pra ilustrar: tem um momento em que um dos personagens principais olha os peitos de uma funcionária e começa a imaginar que o ato de morder a tampa da caneta representa um pedido por sexo. É uma mentira descarada, mas a reflexão está justamente no jeito como o machismo transforma coisas normais e faz com que pensamentos desse tipo sejam considerados verdades absolutas.

No meio de todas essas saídas criativas, outro fator que chama atenção é a distribuição balanceada das subtramas entre os personagens. Ou seja, os quatro protagonistas funcionam muito bem juntos dentro de uma trama sobre amizade que conduz a série, mas também possuem seus próprios núcleos de história. Isso garante que todo mundo tenha seu momento de destaque, faça parte de boas piadas e evolua no decorrer dos oito episódios, enquanto a narrativa passeia por assuntos diversificados como a pressão sexual imposta pelo próprio homem, as escolhas que a sociedade faz pela pessoa e o machismo inserido em ambientes de trabalho.

O Alexandre (interpretado pelo próprio Porchat) assume a dianteira da história desde os primeiros minutos e seu núcleo acaba tendo mais tempo de tela. Um tempo muito bem aproveitado pelo roteiro para construir a história desse homem bonito e bem sucedido que brocha continuamente durante um ano, falhando na bizarra missão de transar com todas as mulheres possíveis pra completar seu álbum. Uma ideia deturpada que, por imposição social, aumenta a pressão em cima de personagem até se tornar o ponto de partida do seu confronto pessoal contra o machismo. É justamente a percepção de que não é necessário transar toda noite só pra se vangloriar que abre a mente de Alexandre, vai destrancando outras portas num arco similar ao de Otis em Sex Education e chega com tudo na agência onde o mesmo trabalha como redator publicitário.

E foi ali no ambiente profissional do Alexandre que a série se aproximou da minha experiência própria e ganhou este que vos escreve definitivamente. Digo isso porque é difícil achar um publicitário que nunca tenha visto, vivenciado ou ouvido falar sobre a realização de um anúncio controverso para ganhar mídia em cima das críticas e da viralização, a ideia ultrapassada de que mulher não trabalha na criação porque elas são boas com organização e não criatividade, ou a boa e velha máxima que diz que “se você não fizer, outra pessoa vai fazer”. São vários clichês que, mesmo flertando com o exagero pela piada, acabam sendo escancarados de maneira dolorosamente realista, enquanto o personagem se questiona e vê sua trama chegar em um ponto sem solução. E é nesse ponto que, mais uma vez, a série deixa claro que o seu objetivo não é oferecer soluções mirabolantes para esses problemas, mas sim expor as situações, oferecer reflexões no micro e criar as faíscas que possam mudar o macro.

Mas continuando, o ambiente de trabalho também é o aspecto central da trama do Pedrinho (Raphael Logam). Ele é o macho alfa que se vê confrontado pelas mudanças na empresa depois que seu chefe – homem – é demitido por conta de uma denúncia de abuso. Mais um cenário real que Homens? usa com muita sagacidade como começo dos questionamentos do personagem, passando com sutileza pela inversão de papéis, a maneira escrota como os homens enxergam o sexo oposto e as desconfianças geradas por círculos conduzidos pelo machismo. Gosto bastante da maneira como essa trama levanta algumas questões recorrentes sem esquecer de impactar o espectador através da suposição de que o sexo é o único caminho para uma mulher chegar ao topo ou das diferenças de tratamento que cercam as denúncias de abuso envolvendo homens. Uma dica: se um único “não” é o suficiente para acabar com qualquer investigação desse tipo, você é privilegiado.

Em terceiro lugar, temos Pedro (Gabriel Louchard) demonstrando a presença do machismo no casamento, quebrando num piscar de olhos as expectativas de quem pensa que os dilemas de um cadeirante estão ligados unicamente a sua deficiência. Muito pelo contrário… Em Homens?, Pedro é um médico bem-sucedido, independente e sexualmente ativo que precisa lidar com o fato de que ele não tem mais direitos do que sua mulher só porque foi criado em uma sociedade patriarcal, inclusive quando assunto é traição. Pra melhorar, seguindo por caminhos diferentes dos outros núcleos, o desenrolar da história do casal ainda leva a questionamentos muito interessantes em torno da validade da própria instituição do matrimônio.

Pra terminar, o quarteto principal tem um membro que, infelizmente, acaba sendo deixado de lado: Gustavo (Gabriel Godoy). Ele é um solteirão escroto que ainda mora com a mãe e poderia ter um papel decisivo nos questionamentos centrais, se a sua trama não tivesse tão pouco espaço para se desenvolver. Ainda assim, ele levanta alguns temas válidos e pode ser considerado uma adição bacana dentro desse elenco de coadjuvantes que rouba os holofotes graças aos trabalhos de mulheres incríveis, como Lorena Comparato (Samantha!), Miá Mello (Meu Passado Me Condena), Giselle Itié (Os Mercenários), Gisele Fróes (Trash: A Esperança Vem do Lixo) e Maytê Piragibe (Apocalipse).

Um elenco de luxo que, junto com meus elogios exagerados, deixam a impressão de que Homens? é uma série grandiosa. Ela não é e, como eu disse, usa a simplicidade a seu favor quando assunto é se manter na proposta sem que a pretensão devore o projeto. E isso funciona justamente porque os grandes acertos da série giram em torno do ponto de vista criativo, da direção inventiva, das atuações honestas e de um texto inteligente que casa perfeitamente com o estilo surtado, apressado e verborrágico de Fábio Porchat. É verdade que a série escorrega na construção implícita de alguns questionamentos, mas compensa ao não cair na armadilha de ser uma mera coletânea de esquetes (como aconteceu com o filme do Porta), manter seu tom até o ponto de chegada, e cumprir seu papel de rir da realidade de um jeitinho que leva o espectador a reflexões necessárias nesses tempos sombrios de conservadorismo e machismo no poder.


OBS 1: É importante repetir que esses processos de desconstrução do machismo são longos e não podem parar nas primeiras mudanças. Em outras palavras: espero que Homens? seja renovada para uma segunda temporada…