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Dialogando com o drama dos relacionamentos abusivos, O Homem Invisível atualiza o clássico de H.G. Wells por meio de uma mistura assustadora de ficção científica, terror e subtexto social


Escrito pelo incrível H.G. Wells, O Homem Invisível foi publicado originalmente em 1897. Alguns anos mais tarde, em 1933, o livro foi adaptado para os cinemas pela primeira vez como parte do já clássico universo de monstros da Universal, juntando-se assim aos icônicos Drácula, Lobisomem e Frankenstein. O sucesso do personagem (e seus efeitos visuais absurdos para a época) foi tão grande que gerou diversas continuações e novas adaptações no decorrer dos anos, culminando no anúncio de Johnny Depp como interprete do Dr. Jack Griffin em um novo reboot. Para nossa sorte, tal projeto foi cancelado após o fracasso de A Múmia (2017) e abriu espaço para essa atualização baseada em medos assustadoramente reais.

Para isso, o longa – escrito e dirigido por Leigh Whannell (Jogos Mortais) – inverte o protagonismo da história, colocando Cecilia Kass em primeiro plano a partir do momento em que ela foge (literalmente) de um relacionamento abusivo com Aidan Griffin, especialista em tecnologia óptica que assume papel de cientista maligno da vez. Uma separação que, infelizmente, não vem acompanhada por paz, já que ela precisa enfrentar desde as consequências traumáticas que acompanham esse tipo de relacionamento até uma “possível” perseguição que coloca em cheque suas relações pessoais e sua sanidade mental.

Pronto. O cenário está preparado para O Homem Invisível seguir o caminho de Corra!, misturando diversos gêneros e usando o terror para falar sobre problemas que realmente fazem parte da nossa sociedade. Claro que o texto abraça diversas convenções de gênero para oferecer aqueles sustos que o grande público espera, mas nenhuma dessas jogadas óbvias consegue mudar o fato de que o longa faz escolhas inusitadas como adaptação de um clássico literário tão marcante. Principalmente quando decide substituir um estudo de personagem razoavelmente padronizado por um estudo social cheio de ambiguidade.  

 

Homem invisível

 

Algo essencial em uma narrativa cujo o foco está na paranoia, seja ela gerada pelo trauma ou pela perseguição em si. E o texto faz o necessário para que o espectador mergulhe nessa sensação junto com a protagonista, sentindo as mesmas dúvidas ou fazendo as mesmas descobertas que ela. O longa se divide entre uma imersão nas consequências do abuso e o típico filme de stalker para criar uma experiência que não poupa ninguém de sentir na pele um pouquinho do medo que acompanha a maioria absoluta das mulheres diariamente. Um belo combustível para que o subtexto tenha a força suficiente para mexer com o íntimo das pessoas, incluindo quem nunca refletiu alguns instantes sobre o que o sexo oposto pode enfrentar.

Esse é o jogo dele. Ele sempre faz com que eu pareça ser louca…

É lógico que em dado momento o filme precisa abandonar as ambiguidades e escolher um caminho. O diferencial está no fato de que nesse ponto onde tantas obras de terror costumam escorregar, O Homem Invisível colhe os frutos de ter um texto bem desenvolvido. Você, como público, pode ficar pensando nas possibilidades incríveis que acompanhariam a outra opção, mas não fica decepcionado com alternativa escolhida porque ambas foram bem exploradas durante a primeira metade do longa. O impacto já foi garantido muito antes desse momento, logo não tem reviravolta simples ou uso problemático dos coadjuvantes que impeça a formação dessa experiência hipnotizante, poderosa e muito incomoda.

 

Homem invisível

 

No entanto, antes de continuar, precisamos voltar alguns minutos no tempo pra esclarecer uma coisa: esse resultado só pode ser alcançado porque o trabalho de Whannell como diretor está perfeitamente alinhado com o texto desde o inicio. Não é à toa que ele explora, por exemplo, os espaços vazios do cenário em cada movimento de câmera ou a possibilidade de um espião estar “filmando” Cecilia na casa onde ela se sente segura. Muito antes da protagonista sequer sugerir que está sendo perseguida pelo ex abusivo. 

São escolhas narrativas que, mesmo passando batidas num primeiro momento, já instauram o senso de paranoia no público, independente do nível de conhecimento que cada possui acerca da trama. Quem conhece a história e/ou imagina o que está por vir, fica preso na tentativa de descobrir se já começou. Enquanto isso, quem entrou no cinema sem saber nada sobre O Homem Invisível, fica instigado ao ponto de liga seu sistema de alerta. Tudo em meio a situações que poderiam ser tanto fruto de um trauma quanto consequências de uma perseguição coordenada por um psicopata ciumento.

Um pacote de sentimentos e sensações que Elisabeth Moss (Nós) também domina com um excelência digna de aplausos infinitos. Nosso dicionário não possui palavras suficientes quando o objetivo é descrever a perfeição que é acompanhar seus trejeitos faciais e corporais ocuparem a telona com força total, transmitindo medo, dor, força, poder ou qualquer outra coisa através de olhos expressivos, inteligência corporal e um talento indiscutível. Não tem nem como algum ser humano negar que ela é a única dona do filme, visto que nenhum coadjuvante – incluindo o ameaçador homem invisível interpretado por Oliver Jackson-Cohen (A Maldição da Residência Hill) – consegue chegar perto do que Moss faz aqui.

 

Homem invisível

 

Uma atuação que, por motivos óbvios, completa e incrementa o trabalho de Whanell por trás das câmeras. Todas as cenas de tensão que preenchem O Homem Invisível desde a maravilhosa sequencia de abertura perderiam grande parte da força e da conexão com o público sem a competência de Elisabeth Moss. O próprio diretor afirmou em uma entrevista ao Hollywood Reporter que brigou pelo início do filme quando algumas pessoas sugeriram que o casal fosse apresentado antes da fuga, porque ele acreditava que as reações de Cecilia diziam tudo que o público precisava saber sobre a escrotidão de Aidan Griffin. E graças a Elisabeth Moss, ele estava muito mais do que certo. 

Algo decisivo para o decorrer do filme como um todo, incluindo o terceiro ato em que a produção embala e se entrega de vez pro terror (com alguns toques de ação). É essa construção prévia que prepara o terreno e permite que Whanell libere as rédeas sem perder o controle da narrativa, mantendo a tensão lá no alto, utilizando a violência com maestria e brincando com vários truques de câmera experimentados em Upgrade (seu bom filme anterior). Sacadas visuais que funcionam ainda melhor num roteiro mais consistente e realmente tiram o fôlego do espectador nas cenas que exploram os “poderes” do personagem-título.

Não vou negar, inclusive, que um desses momentos me deixou com vontade de levantar da cadeira e aplaudir. Me segurei porque romperia o decoro cinematográfico, mas posso garantir que a empolgação continua a mesma depois de alguns dias. E esse é o tipo de coisa que acontece quando uma produção consegue ser, ao mesmo tempo, atual, reflexiva e extremamente tensa. Ela faz o espectador roer as unhas, refletir sobre suas atitudes diárias e, a despeito de qualquer invisibilidade, encontra um jeito de não passar despercebida. Fica presa na mente até que outro O Homem Invisível chegue para ocupar tal lugar.


OBS 1: O longa reúne diversos momentos muito reais e pesados para quem já enfrentou algum relacionamento abusivo. Então, caso você faça parte desse grupo ou tenha qualquer sensibilidade ao assunto, assista com cuidado. Podem existir gatilhos…

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O Homem Invísivel: Atualização baseada em medos reais

9.5

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