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A segunda temporada de Homecoming é um jogo de mistério cheio de linhas temporais, críticas e reviravoltas pouco imprevisíveis.


Muita gente conheceu a trama de Homecoming através da série que baseou sua divulgação no fato de ser o primeiro grande projeto televisivo de Julia Roberts (O Retorno de Ben). No entanto, para falar sobre a produção, precisamos voltar no tempo e lembrar que ela é baseada em um podcast fictício (basicamente uma rádio-novela para os mais velhos) estrelado por Catherine Keener, Oscar Isaac, David Schwimmer e outros nomes de peso. Um projeto de áudio ambicioso que chamou a atenção de outras mídias, culminando na adaptação comandada pela Amazon Prime.

Só para fazer uma pequena contextualização, a primeira temporada colocava Roberts no papel de uma psicóloga que trabalha com o acolhimento de veteranos do exército americano. Algum tempo depois, descobrimos que a mesma personagem está trabalhando como garçonete após perder a memória. As coisas mudam quando ela sente que algo está errado e se lança numa viagem (dividida entre essas duas linhas temporais) para descobrir os segredos da empresa que coordenava o tal centro.

Homecoming

A segunda temporada de Homecoming, por sua vez, já acompanha outra protagonista, sendo tratada como uma antologia que se passa no mesmo universo. Ainda assim, a premissa é basicamente a mesma: uma mulher, chamada Jack, acorda sem memória num barco à deriva e começa uma busca por respostas que a levará diretamente para a Geist. Curiosamente, a empresa responsável pelo tratamento dos veteranos no ano anterior.

Apesar da classificação atribuída pela Amazon, isso faz com que os sete episódios dessa temporada sejam mais do que uma incursão independente pelo mesmo cenário. Eles funcionam tanto como uma continuação que ultrapassa os limites do material original, quanto como um preenchimento de detalhes que foram deixados em aberto no ano anterior.

Em outras palavras: você precisa ter visto a primeira temporada para ter uma experiência completa, quebrando assim a maior regra de uma antologia. E, por mais que esse detalhe não influencie tanto a crítica dessa temporada, acredito que se trata de uma informação importante para o público. Logo, o melhor caminho é assistir os dez episódios anteriores (todos tem menos de 30 minutos) e já engatar na jornada desmemoriada de Jack.

Homecoming

Garanto que vale a pena e calo a boca logo depois, visto que qualquer spoiler pode estragar a experiência. Mais do que a maioria das séries, Homecoming se desenvolve através de uma narrativa que depende dos seus segredos pra funcionar. A proposta é colocar o espectador na pele dessa protagonista, usando a perda de de memória como uma conexão. Nenhum dos dois lados sabe o que está acontecendo e isso suga quem está assistindo pra dentro de uma história cuja dinâmica é permitir que os segredos sejam descobertos junto com os personagens.

Não é algo exatamente interativo (considerando que outros projetos já usaram o conceito ao pé da letra), mas é uma experiência que tenta incluir o público como um jogador.

Essa obrigação de escrever uma crítica sem praticamente nenhum detalhe pode ser bem complicada, mas é possível abordar vários aspectos interessantes de Homecoming sem quebrar essa regra. Posso começar dizendo, por exemplo, que o roteiro comandado pelos criadores Eli Horowitz e Micah Bloomberg (responsável pelo som do ótimo Até o Fim) sabe como criar uma bola de neve cheia de peças embaralhadas. A série parece com um grande quebra-cabeça dividido em figuras diferentes. Sempre que o público monta uma parte, ele ganha uma nova leva de peças e fica preso na série por mais alguns episódios.

Homecoming

Entretanto, eu preciso admitir que não gosto tanto da maneira como essas peças acabaram sendo entregues no novo ano. A primeira temporada se baseava em duas linhas temporais em rota de colisão, então era até impossível saber exatamente o que tinha acontecido até o último minuto. Já agora, as resoluções parecem ser mais previsíveis. O texto cria novas perguntas com eficiência, porém as respostas são mais antecipáveis. Isso ajuda a mexer com o imaginário do público quando a série está girando em torno do preenchimento de lacunas, mas resulta em um mistério meio murcho no todo.

Ainda bem que, em contra partida, tudo isso vem acompanhado por escolhas estéticas incríveis nos quesitos trilha sonora, montagem e fotografia. As músicas clássicas criam um clima de tensão impecável; a edição assume papel decisivo na organização das peças de Homecoming, se destacando principalmente no uso certeiro da tela dividida; e a fotografia se empenha ainda mais na criação de cenas que poderiam ser planos de fundo do Windows.

Homecoming

Ao mesmo tempo, a direção comandada por Kyle Patrick Alvarez (13 Reasons Why) faz escolhas estéticas propositalmente desnorteantes. O trabalho é bonito e enche os olhos com uns planos-sequência belíssimos (o da invasão na casa é brilhante), mas também quebra “supostas” regras pra alertar que alguma coisa errada está acontecendo. A maioria desses detalhes costuma passar despercebido, porém o aviso ressoa lá no fundo da mente e faz o espectador pensar que alguma coisa está realmente fora do lugar.

Observe, entre tantos exemplos, como a câmera é posicionada em ângulos estranhos. Como diversos planos brincam com a simetria do cenário só pelo prazer de quebrá-la logo demais. Como os enquadramentos insistem em focar nos espaços vazios. Como a tensão abusa dos planos-detalhes em sua construção. São escolhas certeiras que incomodam justamente por fugirem do padrão normal.

Parece muito com o que o Sam Esmail faz em Mr. Robot e isso não é uma coincidência, já que ele dirigiu todos os episódios da primeira temporada de Homecoming. Dessa vez, ele atua apenas como produtor, mas passa o bastão com a certeza de que pelo menos uma parte da identidade será mantida. É claro que Kyle faz escolhas particulares e coloca um pouco de si na temporada, porém deixa claro que entende a importância do seu antecessor na construção climática da série.

Homecoming

Simultaneamente, o elenco domina o texto com a mesma atitude e eficiência da temporada anterior. Janelle Monáe (Moonlight) não tem a presença de Julia Roberts, mas entrega uma atuação hipnotizante que deve ter potencial pra figurar entre as melhores de sua carreira; Stephan James (Se a Rua Beale Falasse) mantém sua rotina de bons papéis, apesar de ser limitado pelo roteiro; o veterano Chris Cooper (Adoráveis Mulheres) surge como uma novidade cheia de camadas; e Hong Chau (Watchmen) retorna com mais tempo de tela, roubando os holofotes com a personagem mais interessante da série.

Eles são muito importantes na construção do subtexto crítico que acompanha Homecoming desde o início, ajudando a temporada a manter um bastante positivo. Me perdeu um pouco antes da hora em relação aos mistérios, mas acerta em cheio na fluidez dos episódios e no final impactante. Uma recompensa que, mesmo com seus escorregões, amarra as linhas temporais, as reviravoltas, o discurso antimilitarista e os dramas dos veteranos ignorados pelo governo de maneira ágil e gratificante. Não supera o trabalho feito em 2018, mas vale o retorno.


OBS 1: A segunda temporada de Homecoming estreia no dia 22 de maio no Amazon Prime Video.

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Homecoming (2ª Temporada)

7.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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