AODISSEIA
Filmes

Hobbs & Shaw – Absurdamente divertido

A despretensão hilária de uma galhofa sem limites...


3 de agosto de 2019 - 21:37 - Flávio Pizzol

Ação desenfreada, pancadaria exagerada e risadas genuínas fazem com que Hobbs & Shaw seja um dos longas mais divertidos do ano.


Outras críticas desse site já devem ter começado com a incrível história da franquia Velozes e Furiosos: uma cópia barata de Caçadores de Emoção com carros que, depois de quase acabar, entendeu o que o público queria assistir e abraçou seu lado galhofa de uma vez por todas. Mas esse conto merece ser repetido porque é a prova de como uma decisão pode mudar o destino de muitas coisas. Nesse caso, os carros tunados pilotados por assaltantes heroicos que se chamam de família ganhou o mundo, faturou bilhões de dólares e expandiu seu universo ao ponto de gerar um spin-off estrelado pela dupla Hobbs & Shaw.

O longa, cujo o nome completo é Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw, acompanha a união forçada dos personagens-título em uma missão que pode definir o destino do mundo. O objetivo é salvar suas respectivas famílias e a humanidade inteira de um vilão geneticamente modificado que deseja liberar um vírus mortal como ponto de partida de uma nova evolução da espécie. Tudo isso acompanhado, é claro, por toda a pancadaria, velocidade e loucura que se poderia esperar de um filme de Velozes e Furiosos estrelado do Dwayne Johnson (Jumanji: Bem-Vindo à Selva) e Jason Statham (Megatubarão).

E, considerando justamente essa premissa surreal, podemos começar esse texto tirando o elefante da sala. Ou, em outras palavras, deixando clado desde o início que estamos falando de um filme que não liga pra lógica, pras leis da física ou pro realismo. É um filme descaradamente mentiroso, galhofa e descompromissado que não só repete todas as características que transformaram Velozes e Furiosos em um sucesso de bilheteria como também chega ao ponto de elevar a potência de algumas insanidades. O trailer já deixa tudo isso mais do que escancarado, porém vale lembrar que Hobbs & Shaw talvez não seja a melhor opção para que curte mais o começo da franquia de Dominic Toretto do que essa versão “brucutu” oitentista que viaja na maionese.

Dito isso, o roteiro de Chris Morgan (responsável por todos os filmes da franquia desde Desafio em Tóquio) e Drew Pearce (Missão: Impossível – Nação Secreta) não foge do que já era esperado, seguindo exatamente os caminhos que precisa pra funcionar dentro da proposta citada acima. Ou seja, um texto básico e cheio de frases de efeito que não se arrisca nem na hora das reviravoltas, porque está completamente focado na criação de sequências mirabolantes de ação. Algo que, como o próprio Morgan deve saber de cor e salteado, se encaixa exatamente no que os fãs querem assistir.

E esse tem sido o grande acerto da franquia desde a sua transição: fazer o que as pessoas querem ver da maneira mais decente e divertida possível. Hobbs & Shaw, no caso, chega a escorregar nos momentos que flerta com drama familiar (apesar de fazê-lo com bem menos frequência que a franquia original) e no comprimento muito maior do que o necessário, mas acerta em cheio nas cenas de ação, na dinâmica oposta dos protagonista como fonte de comédia e em algumas participações especiais que foram brilhantemente escondidas. Quando se coloca tudo isso em uma balança adequada ao gênero, o resultado é bastante positivo.

No entanto, por mais que o texto funcione ao ponto de entregar no mínimo uma sequência icônica de diálogos num avião, somos obrigados a aceitar que esse passa longe de ser o que mais prende a atenção dos fãs de Toretto, Brian, Letty e companhia. Quem paga o ingresso para Hobbs & Shaw quer ação de qualidade e, atualmente, David Leitch (Deadpool 2) é, sem nenhuma dúvida, um dos nomes com mais gabarito para cumprir essa missão. Ele sabe como filmar as coreografias de luta com inventividade, tem senso de humor, entrega uma câmera lenta bem dosada e, acima de tudo, aproveita a dedicação de um elenco que está disposto a carregar o filme nas costas.

Uma peça muito importante para o funcionamento de produções como essa, porque, na falta de um texto cheio de nuances carregadas de drama e complexidade, o filme acaba usando o carisma dos personagens que lideram a ação como um fator que prende a atenção e conduz a trama. E dentro disso, Hobbs & Shaw não poderia ter um elenco melhor, já que Dwayne e Jason tem química e carisma suficientes para dar fôlego e credibilidade para um filme que usa a relação conturbada de seus heróis como elemento central. Isso permite que eles realmente roubem os holofotes e carreguem o show com a ajuda pontual de uma Vanessa Kirby (The Crown) muito comprometida com a ação e um Idris Elba (Luther) sem vergonha de interpretar o antagonista caricato.

E essa mistura pode até parecer estranha e sem profundidade, mas, no final das contas, se encaixa perfeitamente na proposta de ação desenfreada e descompromissada que virou o DNA de Velozes e Furiosos. Cada um dos filmes já nasce com um pouco menos de vergonha de ser galhofa e isso só deixa a experiência mais bizarra, absurda e divertida. Hobbs & Shaw entende isso muito bem e comprova seu valor na ação exageradamente impressionante, nas risadas absurdas arrancadas de propósito e nas horas de entretenimento alucinado que oferece com muito gosto.