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As Olimpíadas do Rio acabou, mas nós ainda vamos precisar de um tempinho pra baixar a adrenalina, colocar o coração no lugar e curar a ressaca. Foram duas semanas marcadas por emoções gigantescas e várias histórias bonitas que poderiam virar grandes filmes, logo não poderíamos deixar essas sensações passarem batidos. Durante essa semana, nós vamos liberar as emoções e contar um pouquinho mais desses momentos dignos da tela grande. Preparem-se para muita superação e vamos lá!

  • A verdadeira superação olímpica de Diego

Se Rocky Balboa virou um exemplo de superação sem vencer Apollo Creed, o ginasta Diego Hypólito também merece entrar para esse grupo com sua medalha de prata. Principalmente quando relembramos o tanto que ele apanhou e levantou até chegar a esse resultado maravilhoso. A mensagem espalhada pelo brasileiro é justamente continuar levantando e nunca desistir dos seus sonhos.

Um campeão que construiu uma carreira cheia de vitórias em mundiais, mas viu seu mundo desabar duas vezes nas Olímpiadas de Pequim e de Londres. Na primeira, ele começou como favorito ao pódio e terminou em sexto lugar ao cair de bunda no último movimento da sua série. Na segunda, a dor foi muito maior quando outra queda o tirou da final do solo. Diego pensou em desistir e enfrentou, entre muitos problemas, uma depressão profunda.

Mas, para nossa felicidade, a história não chegou ao fim antes de Diego pisar no palco brasileiro. E convenhamos que não existia lugar melhor para levantar com estilo e emoção. Ele classificou para as finais do solo em quarto, elevou o grau de dificuldade da série e fez uma apresentação quase impecável. A torcida vibrou, o ginásio tremeu e seus adversários cometeram alguns erros que colocaram a prata no peito de Diego.

Uma história cheia de altos, baixos, sofrimento, drama, vitórias e alegrias que ficaria perfeita nas mãos de Clint Eastwood. Imaginem a vida de Diego sendo contada na telona como uma mistura impecável de Invictus, Bird e Menina de Ouro para fazer o Brasil e o mundo se emocionar mais uma vez com essa trajetória brilhante de superação típica das Olimpíadas.

  • Remando rumo à história

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Nenhuma medalha de ouro tocou no peito de Isaquias Queiroz, mas o sorriso não saiu do rosto desse baiano que colocou seu nome na história como o único brasileiro a vencer três medalhas em uma única olimpíada. E fica difícil não acreditar em destino quando se conhece um pouquinho mais da história do moço que, vejam só, nasceu na cidade de Ubaitaba. Não seria nada mais do que uma cidade do interior, se o nome não significasse “cidade das canoas” em tupi.

E isso não é quase nada perto de todos os obstáculos que esse rapaz pobre passou desde pequeno para chegar onde está hoje. Com 3 anos de idade, Isaquias sofreu uma acidente com água fervendo, sofreu graves queimaduras e ficou mais de um mês internado. Aos 10, caiu de uma árvore, bateu com as costas em uma pedra e precisou retirar um rim para sobreviver a uma hemorragia interna.

A canoagem entrou na sua vida um ano depois, em 2005, mas as dificuldades continuaram com as mudanças de cidade, treinos pesados diariamente, falta de amigos e dinheiro. Em 2011, venceu sua primeira grande prova no Mundial Júnior, mas acabou ficando de fora do Pan de 2011 e dos Jogos Olímpicos de Londres. Após outras vitórias em mundiais sem o reconhecimento devido, Isaquias desabafou no Facebook e ameaçou abandonar o esporte.

A má fase passou, o atleta confirmou sua força no Mundial de Moscou e levou duas medalhas para casa, apesar de sofrer uma grande derrota ao ser eliminado após se jogar na água antes do fim da prova individual de 1000 metros. Contando com o apoio do técnico espanhol (e campeão olímpico) Jesús Morlán, ele deu a volta por cima mais uma vez e marcou as Olímpiadas com seu carisma marcante. Um grande final para um filme de Walter Salles, um diretor que sabe levar histórias bem brasileiras para o mundo todo.

  • Os Homens que Esconderam o Doping

Infelizmente nem todas as Olimpíadas ficam marcadas apenas por histórias bonitas e nós escolhemos David Fincher para levar uma trama cheia de teorias da conspiração, crimes misteriosos, espionagem e corrupção no alto escalão do governo para o cinema. Uma história que começa bem antes da competição no Rio de Janeiro e coloca a gélida Rússia no centro de um dos maiores casos de doping que o esporte já viu. Um drama mundial e cheio de suspense, que poderia ser a união perfeita entre Os Homens que não Amavam as Mulheres e A Rede Social.

Antes dos nadadores americanos fazerem uma versão óbvia e barata de Se Beber, Não Case, a delegação de uma das principais potências esportivas correu o risco de ser completamente cortada dos Jogos desse ano. Tudo por causa de uma cultura que tolera o doping e, por isso, não possui um sistema efetivo para impedir que o mesmo aconteça. Tudo por conta de um suposto apoio do governo russo ao processo. Segundo várias fontes internacionais, o próprio ministro dos esportes, Vitaly Mutko, fez parte da montagem do esquema que culminou na destruição de quase 1500 amostras de controle. Ele e seu vice, Yuri Nagornykh, eram os responsáveis por salvar ou condenar os atletas com apenas duas palavras: salva ou quarentena.

Tudo começou com as primeiras denúncias feitas pela velocista Yuliya Rusanova para a televisão alemã, após a mesma ter sido suspensa pelo uso de substâncias proibidas em 2014. Aparentemente, os atletas não tinham voz de decisão, já que as drogas vinham dos agentes da própria agência anti-doping do país e o doping institucionalizado era comandado pelos dirigentes e técnicos. Ao mesmo, todas as principais federações esportivas recebiam propina para evitar que os atletas fossem pegos nos exames.

Nos Jogos de Inverno localizados na cidade russa de Sochi, a FSB (substituta da KGB após a Guerra Fria) construiu um prédio ao lado do laboratório anti-doping e manipulavam as amostras de urina por um buraco na parede. O responsável pelo laboratório, Grigory Rodchenkov, identificava os códigos dos frascos através de fotos tiradas pelos atletas e usava as madrugadas para atravessar os exames escolhidos para o outro lado. Lá os agentes usavam um método desconhecido e quase perfeito para abrir o lacre dos potes, trocar a urina por uma amostra mais antiga, adicionar sal para restaurar a gravidade do líquido (what???) e colocar os potinhos no seu caminho habitual.

Pra piorar, desde que o caso veio à tona para todo mundo, em novembro de 2015, dois ex-funcionários de laboratórios russos morreram misteriosamente e vários atletas do país passaram a treinar em centros militares completamente afastados do público, contradizendo as defesas e negações dadas pelo Kremlin. Aparentemente, eles queriam esconder alguma coisa. Um complicado esquema criminoso de repercussão mundial que resultou na exclusão de todos os representantes do atletismo da competição e, posteriormente, da delegação completa dos Jogos Paralímpicos, que começam no dia 07 de setembro. Claro que não existe nada melhor do que a edição precisa, a fotografia gélida e as reviravoltas muito bem preparadas dos filmes de Fincher para levar essa trama para o cinema, não é?

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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3 Comments

  1. […] desses momentos que merecem ganhar a telona. É só respirar fundo, conferir a primeira parte aqui e descobrir mais sobre três atletas […]

  2. […] dessa edição que aconteceu tão pertinho de casa. Sem muita demora confiram as primeiras partes (aqui e aqui) e venham com a gente para mais três histórias […]

  3. […] de tudo isso, nós estamos separando várias histórias marcantes que merecem virar filme (Partes um, dois e três). Só prepara o coração e […]

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