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De volta ao universo das animações com Harley Quinn, a vilã mais famosa dos últimos anos assume sua melhor versão para conquistar a liberdade outra vez.


Seguindo o contrário da maioria dos personagens da DC Comics, a Arlequina surgiu na televisão (especificamente no episódio 22 da série animada do Batman) para só depois ganhar os quadrinhos com sua história de origem. O sucesso foi tão grande que ela começou a invadir outras mídias, ganhando uma vida além do Coringa em grupos especiais, games e filmes. É verdade que sua apresentação em Esquadrão Suicida não foi das melhores, mas a versão interpretada por Margot Robbie (O Escândalo) se recuperou muito bem no ótimo Aves de Rapina. No entanto, nem esse avanço mudou um fato: se tivesse que indicar alguma coisa atual sobre a personagem, este produto certamente seria Harley Quinn.

A série animada, produzida com exclusividade para o serviço de streaming da DC, acompanha a personagem em mais uma jornada de emancipação, considerando que a primeira temporada também começa no término do relacionamento com o Coringa. A diferença é que, ao invés de encontrar outras mulheres para enfrentar um chefão do crime, essa versão da Arlequina decide reunir uma equipe para atuar como vilã. Tudo junto com o crescimento da amizade com Hera Venenosa, tentativas de entrar para a Legião do Mal, viagens de autoconhecimento e algumas outras tretas com seu ex.

 

 

Ou seja: uma produção original que, apesar das semelhanças no ponto de partida, segue caminhos completamente diferentes daqueles escolhidos para o cinema. Entretanto, como essas mudanças que acompanham a narrativa não significam muita coisa, vamos falar um pouquinho mais sobre os motivos que fazem Harley Quinn ser tanto a melhor adaptação relacionada a Arlequina, quanto a melhor série produzida pelo streaming da DC Comics até hoje.

E em primeiro lugar, apelando pra motivação mais simples e direta possível, Harley Quinn merece a visita porque possui o já comprovado selo de qualidade das animações que marcaram o universo DC. Ao contrário do braço ligado aos filmes live-action, o setor de animação sempre teve liberdade suficiente para fazer o que bem entendesse com suas tramas, entregando, ao mesmo tempo, adaptações super fiéis de HQ’s conhecidas e produções originais recheadas até mesmo por personagens inéditos (como aconteceu com a própria Arlequina na década de 90).

 

Harley Quinn

 

A série animada aproveita seus treze episódios (sem fillers) para criar uma mistura bem interessante entre essas duas possibilidades. Ou seja: em outras palavras que praticamente criam um segundo motivo, Harley Quinn dá aula quando o assunto é criar algo novo que conquiste os fãs com a quantidade exata de referências aos materiais originais que abrigam Arlequina, Coringa, Bruce Wayne e todas as galeria de vilões do Homem-Morcego. É um show pirotécnico que reúne o melhor de todos os mundos por onde o Batman e sua trupe sombria passaram em algum momento.

Mas calma que, para nossa sorte, as belezas dessa primeira temporada não param por aí. A narrativa conduzida por Justin Halpern (Powerless), Dean Lorey (Eu, a Patroa e as Crianças) e Patrick Schumacker (Surviving Jack) também se destaca pelas subtramas bem encaixadas, personagens bem desenvolvidos e arcos realmente preocupados com a evolução de todo mundo. Inclusive, a jornada de emancipação encarada pela protagonista funciona como exemplo perfeito para tudo isso, visto que o texto escolhe caminhos mais abrangentes do que Aves de Rapina e aproveita tal espaço para que a Arlequina se descubra como pessoa, como amiga e como vilã.

 

 

Uma proposta que, deixando claro, não anula o que o filme dirigido por Cathy Yan faz. Ela só mostra como outras possibilidades são sempre muito bem-vindas, principalmente quando possibilitam a expansão, o aprimoramento ou, quem sabe, o conserto de algo que já foi desenvolvido de maneira errônea em outra mídia. E isso nos faz chegar num ponto muito decisivo de qualquer história envolvendo a Arlequina: seu relacionamento abusivo com o Coringa.

Algo que Aves de Rapina abordou da melhor forma possível considerando o trabalho pobre e superficial que David Ayer – e os executivos enxeridos da Warner – fizeram em Esquadrão Suicida. Algo que Harley Quinn constrói com muito cuidado desde o primeiro episódio, onde fica claro que ele a vê como um mero objeto sem vontade própria, até o confronto final que é motivado por uma combinação (real até demais) de ciúmes e vingança, passando flashes do passado, recaídas e lições de sororidade que dão peso a história. É um relacionamento complexo que ganha uma representação equivalente. Uma construção pesada e detalhista que ajuda a transformar essa Arlequina (com voz de Kaley Cuoco) na melhor versão da personagem. 

 

 

Ou, no mínimo, a versão mais bem desenvolvida. Afinal de contas, a série dedica bastante tempo a elementos que só haviam sido vistos de relance anteriormente, seja na citada relação da personagem com o Coringa ou na sua vida pessoal. Temos passeios pelo seu passado como psiquiatra, um episódio centrado em sua família extremamente problemática, outro que entra – literalmente – em sua mente, alucinações cheias de significado e muito mais. Todo o background que a série precisa para entregar essa Arlequina imperfeita e cheia de desejos que se enche com discursos atuais para enfrentar o Coringa dentro e fora do seu organismo. E com um detalhe muito importante: tudo sem ter que abandonar completamente seu posto de vilã…

Mas a melhor parte é que, enquanto fazem um trabalho incrível com a protagonista, os roteiristas também desenvolvem coadjuvantes à altura, começando pelo próprio Coringa em uma versão assustadoramente caricata, vil e asquerosa. Essa versão animada (interpretada por Alan Tudyk) tem tudo aquilo que compõe as principais adaptações do vilão quando se refere a piadas e humor ácido, mas mexe com a trama por ser bem mais megalomaníaco e ardiloso que o normal. Tudo isso faz com que ele seja encantador ao mesmo tempo em que gere asco, representando muito bem a maioria das pessoas responsáveis por relacionamentos abusivos e ocupando uma função que, graças ao ponto de vista dela, vai muito além de ser o antagonista do Batman. 

 

 

Enquanto isso, ao lado da Arlequina, a série nos presenteia com uma Hera Venenosa (voz de Lake Bell) amiga, parceira e cheia de camadas. Praticamente uma ativista do Greenpeace que só infringe as regras quando o objetivo é salvar o meio ambiente ou sua melhor amiga, Arlequina. Ainda assim, a relação delas surge acompanhada de uma série de questionamentos profundos sobre reciprocidade, medo de aceitar sentimentos e até ciúmes quando o hilário Homem-Pipa entra em cena com toda a sua beleza e paixão.

Junto delas, Tubarão-Rei, Cara de Barro e Dr. Psycho também se destacam com versões completamente diferentes do esperado, assumindo os papéis de sidekicks que estão ali para atuar como alívios cômicos. Com eles a série ganha, respectivamente, um nerd especialista em redes sociais, um ator muito interessando no método e um machista em processo de recuperação após sofrer as consequências de suas palavras. É um pouco bizarro e muita gente pode não gostar, mas é essencial pra estabelecer o tom “violentamente divertido” da série.

 

 

Além disso, eles são uma pequena amostra de algo que, na minha opinião, conta como ponto positivo naquela ideia de testar novas abordagens dentro de um material clássico. Algo que a série assume como parte do seu conceito, brincando com vilões clássicos que fazem aparições pontuais (como o Bane e o Espantalho), dando novas facetas ao próprio Batman e até apostando em um versão bêbada e depressiva do do Comissário Gordon. E o mais legal é que nada disso é aleatório. Tudo serve a uma história diferente e que sabe onde quer chegar.

Um ponto final que, nesse caso, é um clímax bastante corajoso, considerando que Harley Quinn (a série, não necessariamente a personagem) aposta alto, mexe com o status quo de personagens clássicos e coloca o Coringa para tomar atitudes extremas. Uma amalgama de situações que cria algo novo e poderoso, enquanto flerta com piadas metalinguísticas envolvendo a Disney, cabeças explodindo e uma ditadura do riso. Um final que me pegou desprevenido e deixou claro que esse texto precisava espalhar a palavra sobre Harley Quinn. Uma animação cheia de originalidade, discursos poderosos, violência, loucura e diversão que não merece passar despercebida só porque o serviço de streaming da DC não chegou ao país.

Afinal de contas, estamos falando sobre uma série que entrega tudo que a melhor versão da Arlequina precisa para brilhar e se posicionar em “oto patamar”…


OBS: Não citei todo mundo, mas a série tem participação de quase todo mundo da DC Comics, indo da Liga da Justiça até alguns vilões BASTANTE underground.

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Harley Quinn

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