Guerra de Algodão
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Após ser exibido em vários festivais, Guerra de Algodão é o novo filme brasileiro do catálogo da Netflix

Confira o enredo, o trailer, o elenco e trechos da nossa entrevista exclusiva com o diretor Cláudio Marques


Seja pela falta de uma regulamentação que protege nosso cinema ou qualquer outro problema, o número de produções brasileiras independentes que ficam restritas aos festivais é enorme.

E mesmo quando conseguem chegar aos cinemas, a maioria esmagadora fica presa aos cinemas de rua. Quase nunca estreiam de maneira oficial e legal em estados com poucas salas de cinema.

O jogo vira para aquelas obras que são notadas por serviços de streaming e chegam nas plataformas onde está o público comum (a maioria dos brasileiros). Esse foi o caso de filmes como O Silêncio do Céu, Alice Júnior e, agora, Guerra de Algodão.


+++ O nosso podcast sobre meia-entrada também fala um pouco sobre as regulamentações que prejudicam nossa cultura
+++ Se liga também nesse podcast sobre cinema nacional com o Marco Dutra

Guerra de Algodão

Foto: Divulgação

A história de Guerra de Algodão

Dirigido pela dupla Marília Hughes e Cláudio Marques, o longa conta a história de Dora, uma adolescente brasileira que viveu sua vida toda na Alemanha. De repente, ela volta ao país para passar férias na casa da avó em Salvador e descobre que veio para ficar.

Convivendo com a solidão, a saudade do universo que ficou para trás e a opressão da cidade, ela mergulha em uma jornada de descoberta relacionada a si mesma e a todos os dilemas que sua avó enfrentou no passado como atriz.

Uma jornada que possui uma energia muito pessoal. E não existe nenhuma coincidência nessa sensação.

Como foi confirmado por Cláudio Marques em entrevista por chamada de vídeo, ele e Marília possuem família baiana, mas nasceram fora de Salvador e só passaram a morar na capital aos 13 anos. Ou seja, passaram por um processo de descoberta da cidade muito parecido com o da protagonista de Guerra de Algodão.

Quando a gente vem passar férias numa cidade grande latino americana como essa é uma coisa, quando a gente vem morar é uma coisa completamente diferente. […] A cidade é muito agressiva, ela tem elementos que expulsam a gente. Tanto ela quanto eu sentimos que precisássemos ir embora daqui durante muito tempo…”

Assim como acontece com Dora, eles demoraram um tempo pra entender que precisavam ficar ali para conhecer as heranças e as memórias do local. Não é à toa que o longa se dedique a mostrar a relação da personagem com a cidade, usando o som e as imagens para guiar o espectador numa espécie de transição entre vilã e amiga.

Guerra de Algodão

Foto: Divulgação

Um processo calculado que inclui desde a escolha dos movimentos culturais presentes (entre festas e rodas de capoeira) até elementos cênicos, como o figurino e a edição de som. Entre tantas coisas interessantes, Cláudio Marques destacou:

  • a água que surge como algo ameaçador até acolhê-la na festa de Iemanjá;
  • a forma como Dora se perde no labirinto das ruas, mas termina acolhida;
  • como a agressividade do som das buzinas e dos carros não penetra a casa da avó;
  • o figurino que evolui das roupas europeias para as vestes de alguém da terra.

Uma jornada construída de maneira progressiva, acompanhando a personagem enquanto ela “vai largando as influências europeias e acolhendo/sendo acolhida pela cidade”. É como se cada momento fosse um degrau dessa escada cujo final seja o pertencimento, a importância de ficar.

A gente vê muito no cinema que é importante ir embora, mas a gente fala ‘não, vamos ficar’. Apesar da pressão e das dificuldades, é muito importante que a gente fique na cidade, compreenda quem nós somos e coloque nossa energia pra melhorar a sociedade que a gente vive. Isso foi uma coisa que sempre nos nutriu”


O trailer de Guerra de Algodão


O elenco de Guerra de Algodão

Expondo o esforço de trabalhar com uma mescla de atores iniciantes e veteranos, o filme é estrelado pela jovem Dora Goritzki e pela maravilhosa Thaia Perez (Aquarius e Todos os Mortos).

Elas interpretam a protagonista Dora e sua avó, Maria, uma atriz pioneira que enfrentou preconceitos e marcou o cenário artístico de Salvador na sua juventude.

Inclusive, você não leu errado: a atriz e a personagem principal tem o mesmo nome.

A gente gosta fazer o encontro entre o personagem e o ator. Pra criar o personagem eu muito de pensar no rosto, na altura, no jeito de andar, então costumo colocar o nome dos atores que já tenho em mente no roteiro […] É melhor pro ator entender o personagem quando tem essa fusão mais completa entre eles”

Claro que a Dora (Goritzki, a atriz) surgiu em cena depois da escrita do roteiro, porém Cláudio garantiu que a participação dela mudou muita coisa em Guerra de Algodão. Vários detalhes da vivência dela – como a habilidade pra cantar – foram inseridas mais tarde no processo.


Guerra de Algodão

Foto: Divulgação

A chegada na Netflix

Guerra de Algodão ficou pronto em 2018 e logo começou sua jornada de lançamento. Durante o ano seguinte, passou por diversos festivais estrangeiros (Los Angeles, Estocolmo, Melbourne e outros), percorreu alguns nacionais (Mostra de São Paulo) e programou sua estreia nos cinemas pro primeiro semestre de 2020.

Mas aí veio a pandemia…

Eu sou uma pessoa de cinema, queria esperar um momento bom pro cinema, então a gente foi adiando, adiando, adiando e adiando… Aí chegou um momento que não deu mais […] A gente pegou uma brecha, mas foi frustrante porque logo depois fechou de novo.

A partir desse momento, a Netflix se tornou a principal plataforma pra lançar Guerra de Algodão. Um fato tratado por Cláudio como uma incógnita, afinal de contas o streaming é um meio mais disperso em que não é possível controlar o som e outros elementos que fazem parte da experiência do público.

E isso pode ser ruim no caso de um filme como esse. Uma obra com desenvolvimento lento que trabalha muito os sons, seja ressaltando-os ou apostando no silêncio como uma ferramenta de reflexão.

Eu estou muito animado, muito feliz, mas, ao mesmo tempo, estou curioso pra ver como as coisas vão passar”


Guerra de Algodão já está disponível na Netflix


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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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