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Olimpíadas é raça, superação, vitórias, alegrias intensas, choro de todos os tipos e até derrotas para muitos participantes. Apesar disso, todos eles enfrentaram dificuldades na infância, momentos de indecisão na carreira, falta de apoio em vários lugares do mundo e, principalmente, treinaram imensamente por todo um ciclo de quatro anos. Dentro de tudo isso, nós estamos separando várias histórias marcantes que merecem virar filme (Partes um, dois e três). Só prepara o coração e vem!

  • Rafaela Silva

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“Lugar de macaco é na jaula”, disse um internauta revoltado e seguro atrás de um computador, à Rafaela Silva. Ela foi eliminada da competição, em Londres 2012, por dar uma catada de perna ilegal, que havia sido proibida pouco antes dos jogos. Rafaela estava errada. Sabia disso e por essa razão, caiu em prantos no tatame. Havia jogado um planejamento de anos fora e estava eliminada dos jogos olímpicos. O primeiro de sua vida.

Negra, de família humilde, Silva, nascida e criada na Cidade de Deus. A história de vida de Rafaela já era por si só, incrível. As intemperes que a cercavam, assustam qualquer pessoa e, dentro do projeto social de Flávio Canto, viu uma oportunidade de escapar do perigoso molde que podia lhe formar. Era briguenta, batia nas crianças e passava o dia fora de casa. Do futuro incerto, viu no judô o horizonte  para um caminho mais tranquilo, como o próprio nome sugere.

Após os eventos de Londres, Rafaela buscou conforto nas redes sociais, para se comunicar com amigos e família. Ali se viu achincalhada pelo ódio. As ofensas raciais surgiam com a velocidade instantânea que só essas redes podem oferecer. Mas para quem sofre, desapegar daquilo não é tão súbito assim. Os insultos afetaram Rafaela de tal modo, que seu inferno pessoal assombrava tanto a ponto de beirar a depressão. Deixar o esporte e esquecer seu talento. Era a vida tentando ganhar.

A judoca não desistiu. Brigou consigo mesma, repetindo seu sucesso em consciência, sabendo que a única capaz de dar a volta por cima e responder aqueles que a ofenderam, seria com o suor de seu ippon. Veio 2013 e com ele um pedaço da redenção. Rafaela Silva foi campeão mundial em sua categoria, algo inédito para o judô brasileiro feminino. Seria o início da caminhada rumo ao Rio, porém, depois da vitória, os anos seguintes foram de queda abrupta. O comodismo de um campeão pode ter abatido a judoca, que despencou no ranking mundial.

Novamente Rafaela se via na situação de superação. Crescer, provar seu valor e não desistir quando chegar lá. Brigou por sua vaga como uma menina da Cidade de Deus e chegou em 2016 sendo cotada à consagração. Ao derrotar na final olímpica Dorjsürengiin Sumiyaa, uma adversária da Mongólia tão difícil quanto o nome, Rafaela Silva enfim pode soltar um ruído que arranhava sua garganta há 4 anos: “O macaco que tinha que estar na jaula hoje é campeão”.

  • Gaurika Singh

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O que você estava fazendo quando tinha 13 anos de idade? Para Gaurika Singh, disputar uma olimpíada era sua brincadeira. Jovem assim, a nepalesa viveu o sonho de cair numa raia de uma piscina olímpica e fazer história. Uma sobrevivente de um terremoto que vitimou 8.000 pessoas nadou com o pouco tempo que sua juventude podia permitir.

Gaurika mora em Londres desde os 2 anos de idade e pouco faz dela uma nepalesa de raízes. Mas o sentimento de nação lhe é pertencente, por isso a razão de nadar com sua bandeira. Quis o destino que a jovem menina estivesse em Katmandu à época do terremoto. A intensidade do tremor não abalou a coragem de Gaurika que doou o dinheiro arrecadado pelo seu recorde nacional para ajudar as vítimas sobreviventes da tragédia.

Com a vaga garantida para representar o Nepal, a jovem sabia que não conseguiria ir para muito além de suas braçadas. O tempo de 1:08:12 não foi o suficiente para seguir na competição, contudo, isso não importa tanto. Com 13 anos, a sensação de defender seu país em meio a lendas esportivas é inimaginável. Gaurika Singh nadou por Katmandu, nadou por ela, nadou para fazer história.

  • Santiago Lange

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E com 54 anos, o que você pensa em estar fazendo da vida? Se aos 13 era possível disputar uma olimpíada, aos 54 você pode ser campeão. Santiago Lange prova isso, dando o primeiro ouro da vela para a Argentina.

O que aumenta o recheio dos jogos olímpicos são as vivências passadas e a caminhada até ali. Todos os atletas precisam provar sua capacidade e atingir metas para se reunirem. Uns mais, outro menos. Contudo, Santiago teve que vencer a batalha de uma doença para provar sua gana de vitória.

Faltando menos de um ano para a Rio2016 Lange entrou na sala de cirurgia. Um tumor maligno atingia seu pulmão e com ele, toda sua preparação para os jogos. O velejador argentino viu ali a chance da sua vida. Passar por esse tipo de situação seria o estímulo necessário para continuar a competir, fortalecido, na busca pelo ouro. E assim o fez.

Santiago Lange e Cecilia Carranza velejaram para o topo. Aos 54 anos, 6 olimpíadas, 2 bronzes e 4 vezes campeão mundial, o argentino desabou. Era a glória máxima que podia atingir e naquele momento, foi a coroação da vida. Não é fácil superar o câncer. Não é fácil ser campeão. E ele venceu os dois de forma digna de ganhar as telas do cinema!

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