AODISSEIA
Filmes

Godzilla 2 repete os mesmos erros, mas perde a vergonha

Contemplem o rei com toda a sua magnitude e poder!


1 de junho de 2019 - 21:57 - Flávio Pizzol

Eu disse na rádio essa semana que, apesar das críticas bem pesadas, não achava o Godzilla de 2014 tão ruim assim. É uma versão que sabe usar o realismo como combustível para revitalizar um dos maiores ícones do cinema oriental, mas que escorrega feio no equilíbrio entre humanos e monstros. Mesmo assim, o longa fez sucesso suficiente pra servir como ponto de partida de um universo que vem dando passos largos com a expansão de suas fronteiras e o vindouro embate do rei com o Kong apresentado em 2017. Isso faz com que Godzilla 2: Rei dos Monstros chegue aos cinemas com a responsabilidade de encontrar o seu caminho e manter as expectativas do espectador para o futuro.

A história da continuação acompanha basicamente as consequências da primeira aparição do Godzilla cinco anos antes. A Monarch – empresa responsável por lidar com os titãs e conectar os filmes – precisa convencer o governo seu valor, enquanto lida com surgimento orquestrado de diversos titãs. E, pra não fugir do padrão, é claro que no meio disso tudo está uma família de cientistas que reagiu ao luto de maneiras diferentes após a destruição apresentada no primeiro longa.

Essa subtrama que coloca seres humanos no meio de tudo merece ser citada com alguma atenção, porque segue justamente o mesmo caminho que tirou alguns pontos do longa anterior. Ainda bem que a família apresentada em Godzilla 2 é muito mais interessante do que aquela liderada por Bryan Cranston, Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen. Os Russell tem mais química, acumulam alguns dilemas válidos e guardam pequenas surpresas que ajudam a manter a concentração do público na telona ao passo que a turma dos monstros ganha força.

Algo que felizmente acontece de verdade nessa continuação, já que a quantidade de monstros com perfil de protagonista é muito maior que a do original. As relações de rivalidade ou parceria formadas entre Godzilla, Guidorah, Mothra e Rodan dão gás a narrativa, ampliam a quantidade de batalhas e, automaticamente, injetam uma grandiosidade que o primeiro longa não conseguia alcançar por se privar das possibilidades de mostrar os kaijus. Como uma continuação, esse filme entende a necessidade de deixar para trás a ideia de revelar “Gojira” e seus inimigos aos poucos, permitindo assim que o peso (em todos os sentidos possíveis) dos titãs seja pelo menos um dos fios condutores do longa.

Ainda assim, o lado humano continua recebendo mais foco do que o necessário. São muitos personagens que compõem núcleos inchados que fazem esforço para roubar os holofotes uma vez ou outra. Isso sem contar que o roteiro de Michael Dougherty (Superman: O Retorno) e Zach Shields (Krampus: O Terror do Natal) também atrapalha alguns pontos de desenvolvimento com várias coincidências posicionadas para facilitar o andar da carruagem, um timing cômico problemático (a piada da gonorreia é indescritível…), e muitas personalidades que ficam presas no nível mais unidimensional possível.

É verdade que esse último fator não cria atuações ruins por si só, mas impede que o elenco alcance o seu máximo dando vida a personagens que não tem muita coisa pra mostrar, fazer ou surpreender. A maioria das tramas envolvendo os seres humanos segue caminhos tão óbvios que permitem ao público antecipar quase todas as soluções narrativas propostas por Godzilla 2. Até mesmo a personagem que guarda a maior reviravolta do longa acaba entrando eventualmente numa jornada de redenção daquelas bem básicas e o resultado é o desperdício de boa parte do elenco, incluindo Millie Bobby Brown (Stranger Things), Vera Farmiga (Invocação do Mal), Ken Watanabe (A Origem), Bradley Whitford (Corra!), Thomas Middleditch (Silicon Valley), Sally Hawkins (A Forma da Água) e Charles Dance (Game of Thrones). O único que se salva por muito pouco é Kyle Chandler (O Primeiro Homem), porque a inteligência e sagacidade de Mark criam um arco de evolução mínimo e o diferenciam de tanta gente apagada, focada em frases de efeito ou destruída por piadas ruins.

Mesmo com o roteiro mediano, a sorte do filme é que o próprio Michael Dougherty (Contos do Dia das Bruxas) consegue demonstrar toda a sua idolatria pelo Godzilla através da direção. Ele sabe como dar vivacidade aos monstros, aproveitar muito bem a evolução dos efeitos digitais em termos de textura e movimentação, complementar o lado humano com cenários incríveis, usar enquadramentos inventivos pra apresentar a proporção dos titãs, trabalhar as câmeras sem deixar as batalhas confusas e posicionar tais momentos de pancadaria na hora certa. O longa tem pouco mais de duas horas, porém não perde o ritmo justamente por organizar as peças de uma maneira que prenda a atenção e ofereça catarse ao espectador.

E é justamente esse aspecto que, na minha opinião, garante uma experiência interessante dentro de um longa com mais erros pontuais que seu antecessor. Por mais que o equilíbrio entre humanos e seres gigantes ainda não tenha sido alcançado, essa continuação ganha pontos por chegar muito mais perto de um verdadeiro exemplar do gênero e deixar claro que não tem vergonha disso. Em outras palavras: Godzilla 2: Rei dos Monstros passa longe de ser perfeito, mas mexe com as emoções, deixa um pequeno gostinho de quero mais e prepara o terreno para um futuro que pode ser ainda mais apegado aos monstros. Que venha o próximo embate do rei!


OBS 1: Terminei o texto e ainda não consigo aceitar a piada da gonorreia. Sério… Uma das piores linhas de diálogo escritas na história do cinema!