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Através de entrevistas com amigos e colaboradores, Glauber Claro faz uma viagem cheia de criatividade pelo exílio do diretor brasileiro


Durante a década de 70, Glauber Rocha (também conhecido como um dos maiores diretores brasileiros) viveu exilado na Itália por aproximadamente seis anos. Lá, ele dirigiu Claro, seu penúltimo filme. Um experimento cinematográfico que mistura ficção e documentário de uma maneira muito improvisada, usando os pontos turísticos de Roma como palco para personagens caricatos falarem sobre os assuntos do momento.

Uma classificação que também pode ser facilmente estendida para Glauber Claro, já que o documentário dirigido por César Meneghetti é uma experiência meio abstrata (mas nunca bagunçada) que tenta falar sobre diversos assuntos a partir da passagem de Glauber Rocha na Itália. E, contando com imagens de arquivos e entrevistas de amigos e colabores daquele período, é exatamente isso que ele faz.

Em determinados momentos, a produção cai na ideia de ser uma homenagem (algo impossível de evitar quando a tela é tomada por pessoas que tinham tanto carinho pelo diretor), mas não para por aí. É por isso que eu acho que existe uma relação estética – seja ela proposital ou não – muito honesta entre os dois filmes.

Glauber Claro

Apoiado na mesma linguagem poética e fragmentada de Claro, Meneghetti deixa claro que não quer ser apenas uma coisa. Não quer ser somente um documentário padronizado que fala sobre a carreira de alguém. Ele passa pela personalidade de Glauber, pelos sentimentos que ele nutria pela Itália, pelo desejo de criar peças de militância, pelo momento político de Roma, pela ditadura brasileira, pelo Cinema Novo, pelos bastidores de Claro e até pela relação que Glauber construiu com outros diretores renomados da Europa.

No entanto, ao contrário do que você pode pensar ao ler essa longa lista de temas, Glauber Claro nunca parece estar atirando para todo lado. É uma obra que foge de padrões de tempo-espaço para se aproximar esteticamente do seu assunto central: Glauber Rocha. Um camaleão nordestino que dominava e articulava a linguagem audiovisual com uma ousadia rara.

E isso é o que mais interessou aqui. Glauber Claro não é um documentário que simplesmente cola recortes de maneira linear para compor uma homenagem (algo que eu critiquei em Kubrick por Kubrick), e sim uma experiência meio metafísica que lança o espectador dentro da mente – exilada, porém sempre criativa – de um dos grandes gênios do nosso cinema.

Glauber Claro

Uma experiência que transcende a tela sem depender do público conhecer Claro, por exemplo. Por mais que não chegue ao pés do que Glauber fazia (obviamente, né…), Meneghetti conduz tudo com uma maestria que hipnotiza o público e transforma sua obra numa belíssima manifestação artística sobre cinema, amor e política.

Tenho certeza que Glauber ficaria orgulhoso. Talvez até subisse no palco para dançar e garantir que todos prestassem atenção total ao longa.


OBS: Eu terminei o filme e só consegui pensar em como o cinema de Glauber impacta qualquer pessoa no mundo. Fez isso nos festivais italianos da época, fez em Cartagena (onde Tilda Swinton assistiu um filme dele na mesma sala que eu) e continua fazendo nos dias atuais.


Glauber Claro foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Glauber, Claro (2020)

8.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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