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Filmes

Frozen 2: Uma aventura mais emocionante

Continuação escorrega no didatismo, mas evolui os personagens de maneira honesta e emocionante.


17 de dezembro de 2019 - 18:06 - Flávio Pizzol

Frozen 2 está cheio de momentos didáticos e convenientes, mas sabe como conduzir seus personagens por uma aventura realmente emocionante.


Nenhum ser humano no planeta pode negar que Frozen se tornou um sucesso mundial absoluto. Um daqueles que ultrapassa qualquer barreira imposta por números de bilheteria para invadir rádios, aplicativos, festas de aniversários, prateleiras de loja e produtos de merchandising que vão de mochilas até sandálias. Até mesmo quem nunca assistiu o primeiro longa, já escutou Let It Go ou encontrou alguma versão da Elsa por aí. Tudo isso fez com que a expectativa em torno de Frozen 2 aumentasse progressivamente desde o anúncio de sua produção, carregando junto o velho estigma de que toda sequência precisa ser maior do que seu antecessor.

O grande truque dessa continuação é que o longa, cuja a proposta é basicamente expandir a mitologia, toma rumos inesperados desde o começo, quando escolhe olhar para passado ao invés de caminhar rumo ao futuro. Tanto que o filme se inicia justamente com um flashback onde os pais de Anna e Elsa preparam o itinerário completo da nova trama. É somente a partir desse momento que as irmãs – acompanhadas por Kristoff, Olaf e Sven – iniciam uma jornada de autodescoberta que mergulha de verdade na magia, reunindo monstros gigantes, soldados adormecidos e florestas encantadas de uma vez só.

 

 

O resultado disso soa mais como um complemento para o primeiro longa, visto que até mesmo o texto escrito pela própria diretora demonstra estar mais preocupado em responder possíveis perguntas deixadas para trás do que explorar o futuro de Arendelle. Um caminho cheio de potencial, se considerarmos que o material original focava exclusivamente na aceitação de Elsa, bloqueando o desenvolvimento de qualquer outra aspecto. A questão é que tal foco deu origem a um filme amarrado com perfeição, enquanto a expansão promovida por Frozen 2 abre espaço para o roteiro escorregar em obviedades, conveniências e sequências de puro didatismo.

Ou seja, na tentativa de conectar um número maior de tramas paralelas e conceitos complexos, o longa acaba escolhendo caminhos mais básicos e transformando o que seriam meras pistas em acontecimentos revelados antes da hora. Quem está acostumado com esse tipo de história, deve matar algumas das reviravoltas desde o primeiro em que o pai conta a história. Além disso, a proposta da produção exige que muita coisa não citada do passado seja explicando, mergulhando o espectador em longas cenas onde o didatismo toma conta do palco. Algumas dessas cenas, como é o caso do resumo conduzido por Olaf, são bem resolvidas e perdoáveis, mas outras atravessam essa linha quando quebram a dinâmica da narrativa.

 

 

Por sorte, como a menção ao momento mais do que hilário protagonizado por Olaf já sugere, Frozen 2 ainda acerta bem mais do que erra. O tom “mais sério” abraça os mais diversos gêneros com muito talento, equilibrando-se entre o drama e a comédia sem perder o senso de aventura que parece ser inerente ao universo da franquia. Esse balanceamento permite que coisas como um clipe oitentista brilhantemente estrelado por Kristoff interrompam o longa sem prejudicar o andamento da trama. E pra melhorar esse combo, a direção de Jennifer Lee (Detona Ralph) e Chris Buck (Tarzan) ainda coroa tudo com espetáculo visual que inclui ambientações grandiosas, fluidez na movimentação e um nível de detalhes que beira o absurdo.

No entanto, apesar de todas as sequências de ação hipnotizantes, o principal destaque do filme está na maneira como os personagens são conduzidos através desse coming age escrito com muita maturidade. Por mais que exista algo preparado no futuro, toda essa proposta de viajar ao passado realmente enriquece as protagonistas e enche o longa de momentos que quebram os clichês presentes nas histórias de princesa, entregando uma jornada de transição e amadurecimento necessária tanto para Elsa quanto para Anna. Ao mesmo tempo, é impossível deixar passar que Kristoff e Olaf também recebem arcos mais concretos dessa vez, se tornando verdadeiros co-protagonistas da história.

 

 

frozen 2

 

Um dos elementos mais esperados dessa continuação, as músicas entram nesse mesmo pacote de amadurecimento, ganhando força dentro da narrativa. O resultado acaba sendo um setlist bem menos grudento do que aquele que incluía Let it Go e Do You Wanna Build a Snowman, porém muito mais importante pra história. Podemos dizer, inclusive, que isso transforma Frozen 2 em um musical mais tradicional, onde as canções possuem a função de contar a história. O longa anterior fazia isso (não se engane), mas executava a tarefa de maneira mais metafórica. Esse abraça tal característica de forma mais “Broadway”, visando mais a trama do que o lado comercial.

Isso pode incomodar uma parcela dos fãs que se apaixonaram pela história através da trilha, mas funciona como uma demonstração de que o tal amadurecimento de fato englobou a franquia como um todo. É um pequeno detalhe que adiciona verdade a esse pacote que já vinha sendo preenchido por um visual estonteante e um desenvolvimento de personagens que só pode ser classificado como primoroso. Um mero detalhe que, subjetivamente, faz o longa crescer ainda mais, porque aproxima o público dessa belíssima jornada em busca de si mesmo. E acreditem que o fato disso estar presente na vida de todos nós é decisivo quando Frozen 2, apesar dos seus problemas básicos, decide se confirmar como uma aventura emocionante.

Inclusive, pode anotar minhas palavras: a chance de você chorar com o longa é bem grande, independente da idade. Porque, no final das contas, nem a narrativa inferior consegue anular o fato de que a beleza dessa jornada pela mágica, empoderada e libertadora Arendelle é tão indiscutível quanto o sucesso do primeiro filme.

 


OBS 1: Pelo menos três músicas são melhores do que Into the Unknown, que está sendo tratada como single principal.