AODISSEIA
Especial

Festival de Vitória: Uma artista chamada Vera Fischer

Confira um pouquinho da coletiva da homenageada desse ano.


30 de setembro de 2019 - 00:47 - Flávio Pizzol

Muita gente conhece Vera Fischer apenas como uma miss que, assim como tantas outras depois dela, usou a fama repentina para virar uma atriz global. Isso realmente aconteceu, mas aquele concurso de beleza vencido em 1969 (mesmo ano do assassinato de Sharon Tate e da chegada do homem à lua, como a própria faz questão de lembrar) sempre foi mais do que uma chance de aparecer na televisão na cabeça daquela jovem nascida em Blumenau. Era uma oportunidade de declarar independência e encontrar sua verdadeira vocação: ser uma artista de verdade.

Entretanto, é muito importante deixar claro que essa história bonitinha onde a jovem do “interior” começa viver do que ama não apaga todas as dificuldades que Vera Fischer enfrentou no começo da sua carreira como atriz. A transição da carreira de miss (ela insiste em dizer que nunca foi modelo) para o cinema, através da pornochanchadas, foi acompanhada por altas doses de machismo, intolerância e censura que Vera enfrentou com a cabeça erguida. Ela teve até mesmo aquele típico momento onde alguém – nesse caso, “um diretor filho de uma grande atriz” – falou que aquela carreira nunca chegaria a lugar nenhum.

Para nossa sorte, ele estava completamente errado e teve que engolir a prepotência quando Vera Fischer alcançou o topo, esbanjando versatilidade. Uma característica que, segundo a própria, foi adquirida graças às produções menores em que ela, além de atuar, ajudava na maquiagem, na cozinha e na limpeza. Ou seja: ela aproveitou a inspiração do seu papel como mulher perfeita em A Super Fêmea pra mergulhar no mundo artístico e ser incrível em profissões que vão do ofício como atriz até escritora, passando por fotógrafa e futuramente cantora.


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Inclusive, Vera repetiu mais de uma vez na entrevista coletiva que se considera uma artista no sentido mais amplo da palavra e, como tal, precisa extravasar o que sente em qualquer veículo disponível. É por isso que ela se dedica tanto aos livros, aos filmes, as novelas e até mesmo aos longos textos que publica em sua conta no Instagram. Um amor que acabou resultando em inúmeros trabalhos marcantes – no cinema, na televisão e nos palcos – que todos deveriam conhecer. Pra te ajudar, vou replicar aqui os trabalhos que a própria Vera Fischer considera mais marcantes: Pátria Minha e Desejo na televisão; Gata em Teto de Zinco Quente e Macbeth no teatro; e Amor Estranho Amor, Dora Doralina e Bonitinha, Mas Ordinária no cinema.

Essa última mídia, por sinal, voltará a receber Vera Fischer graças ao longa Quase Alguém, dirigido por Daniel Ghivelder. Um retorno poderoso que chega após quase duas décadas de um afastamento motivado pela “falta de convites que importassem”. A própria Vera comentou que não se encaixa nesse cinema brasileiro que tem se voltado cada vez mais para a violência urbana, então ficou esperando por uma história mais universal sobre mulheres fortes e relações familiares para retornar com a pompa merecida, colaborando até mesmo com o filho Gabriel Camargo que ficou responsável pelo making of do teaser desenvolvido com objetivo de ajudar no financiamento.

 

“O artista é perigoso, porque ele pensa…” – Vera Fischer

 

Uma estratégia traçada pelo produtor Marcio Rosario diante dos obstáculos que o governo atual tem implementado quando o assunto é cinema ou arte em geral. E a produção desse vídeo (que foi exibido durante a homenagem a atriz), além de ajudar na apresentação do projeto para diversos investidores, já colocou Vera dentro de um trabalho intenso que ela mesma admitiu estar precisando nesse momento de puro ódio em que qualquer artista é tratado como vilão. Essa possibilidade de colocar tudo que está sentindo pra fora tem servido como combustível para a equipe garantir que vai tirar Quase Alguém do papel, mesmo que precise “passar com um pires mendigando”. Ainda bem que ninguém precisará chegar nesse ponto, visto que o próprio produtor contou que um fundo de cinema russo já garantiu estar interessado em investir no projeto graças a fama internacional que Vera Fischer alcançou através das novelas da Globo.

No entanto, apesar dessa curiosidade incomum, nada superou o assunto que ganhou o titulo de ponto alto da entrevista em todas as suas aparições: a relação de Vera Fischer com a atriz, cantora e apresentadora Xuxa. Um tópico que, inclusive, alcançou a mídia nacional por conta da indignação demonstrada por Vera quando perguntada sobre o processo que Xuxa moveu contra o longa Amor Estranho Amor (1982). Segunda ela, que foi premiada por sua atuação na produção citada, o bloqueio judicial é um desrespeito com ela e outros atores gabaritados que fizeram um ótimo trabalho no longa.

Mas então porque ela nunca cogitou entrar na justiça para reverter a situação? Seria por amizade com a Xuxa? Vera disse que nunca pensou que um novo processo seria uma boa opção, mas garantiu que não é amiga da agora apresentadora da Record. Tanto que não só comemorou a possibilidade do polêmico longa ser resgatado como homenagem a carreira esquecida de Walter Hugo Khouri, como declarou com a maior quantidade de ironia possível que não foi cumprimentada em nenhum momento por Xuxa no set do icônico Xuxa e os Duendes 2. Ela até fez a gentileza de brincar com a possibilidade de não ter sido reconhecida com a maquiagem de elfo, porém fez questão de revelar que o diretor não era o responsável por mandar no filme…

Uma indireta cheia de sarcasmo e bom-humor que certamente representou o clima dessa entrevista maravilhosa. Quase duas horas de papo que deixaram claro uma coisa muito importante: Vera Fischer é um diva sem defeitos que merece todas as homenagens do mundo.