AODISSEIA
Especial

Festival de Vitória: Um encontro com Silvero Pereira

Um papo incrível sobre arte, cinema, política e resistência.


25 de setembro de 2019 - 04:41 - Flávio Pizzol

Não… Eu ainda não me acostumei com a ideia de que escolhi trabalhar em uma área que pode me colocar no mesmo caminho de famosos que eu realmente admiro. É por isso que eu comemoro (de maneira bem expansiva) cada conquista do site, vibrando, correndo pela casa e deixando claro o meu nervosismo pra todo mundo que convive comigo. E eu escolhi começar esse texto falando isso porque foi justamente esse conjunto de sentimentos que me acompanhou desde o recebimento do kit de imprensa do festival até a realização da entrevista com o Silvero Pereira que deve ter feito você clicar nessa página.

E a verdade é que hoje, quando cheguei no Hotel Senac Ilha do Boi, para finalmente realizar a entrevista, eu percebi que nunca me acostumaria com o fato de que um ator do calibre de Silvero Pereira estava saindo do seu quarto para dar uma entrevista exclusiva para um site que por muito tempo não passou de um hobby. Eu estava diante de uma conquista profissional que tinha tudo para inflar minha moral, porém, seguindo o caminho contrário, foi o nervosismo que cresceu. Será que eu, mesmo afastado da grande mídia capixaba, estava sendo chato e interrompendo o pouco tempo de descanso que Silvero teria antes de ministrar sua oficina?

Para minha sorte, a chegada dele no saguão do hotel foi a reviravolta que eu esperava: desde o primeiro aberto de mão, senti uma vibe tranquila e consegui convencer meu cérebro a aceitar que ele estava disposto a participar da entrevista. E foi nesse misto de alegria e ansiedade que sentei na mesa (com uma vista maravilhosa de Vitória), liguei o gravador do celular e conversei com aquele ser humano fantástico sobre arte, cinema, política e resistência.

 

Confira a entrevista completa com o incrível Silvero Pereira

 

Eu: Pra começar a conversa: você atua, dirige, canta, escreve, puxa bloco de carnaval em Fortaleza e etc… O que te inspirou – e te inspira até hoje – a seguir tantas áreas?

Silvero: Desde que eu comecei a estudar nas artes cênicas, eu tive um professor que me falava da importância de conhecer o seu ofício por inteiro. Então durante o meu processo de formação enquanto artista, no teatro, eu fui permitindo e me oferecendo nas diferentes funções. Tinha dias que eu gostava de ser iluminador. Eu gostava de fazer a sonoplastia. Eu gostava de fazer assistência de direção, de ajudar a escrever o texto. Então dessa maneira eu fui entendendo tudo sobre teatro. Claro que a minha função, meu ofício mesmo, é o de ator. De atuação. Mas, com o passar do tempo, eu acabei dominando tudo isso. Hoje eu sei o nome de refletores. Eu sei como afinar uma perna de teatro, uma bambolina, uma cortina. Eu sei como operar um som, eu sei como afinar uma luz. Então tudo isso, se precisar, eu consigo fazer. E isso me ajudou muito, enquanto artista, a dialogar inclusive com esses outros profissionais. Não só o diálogo de como eu queria que meu trabalho fosse executado, mas também o respeito a esses ofícios e à importância do trabalho deles para o nosso.

 

 

Eu: Você já tem uma carreira bem longa, mas acho que o grande público do Brasil te conheceu em a Força do Querer. Quão importante foi a Gisele Almodóvar durante o processo de seleção pra novela e qual sua relação com a obra atualmente?

Silvero: A Gisele surgiu em 2002 por causa de uma montagem num trabalho que chama-se Uma Flor de Dama, que é um espetáculo-solo e a minha primeira experiência com todas essas funções. Eu escrevi, dirigi, atuei, montei a luz, o figurino, a maquiagem. Eu fiz tudo sozinho, porque era um espetáculo que falava sobre travestis transsexuais. Inclusive, a minha primeira experiência por Vitória foi com essa peça em 2008. Eu vim pra cá através de um festival de teatro brasileiro e a primeira vez que eu vim a Vitória foi com essa peça. E ela também dá origem ao meu coletivo de teatro, que é o coletivo artístico As Travestidas. Então tudo isso parte da Gisele, porque a Gisele é a personagem dessa peça. E aí hoje a Giselle funciona pra mim como uma espécie de Carlitos para Charles Chaplin. Ela é essa figura que até hoje existe e que dentro do coletivo, por mais que a gente monte outras peças, continua sendo a mesma personagem em diferentes circunstâncias, em diferentes situações, de acordo com que aquela peça quer falar. E aí a Gisele foi quem me levou para o Rio de Janeiro através do espetáculo BR Trans. Aí a Glória Perez assistiu à peça no finalzinho de 2016 e foi por causa disso que eu tive a oportunidade de fazer a novela e ingressar na televisão. Foi a Gisele também que me fez participar da minha primeira experiência de cinema com Serra Pelada do Heitor Dhalia. Isso foi em 2012. O diretor de elenco estava para Fortaleza, assistiu Uma Flor de Dama, viu a Gisele e depois me convidou para fazer as Marias que eram umas travestis do garimpo. Então não posso dizer que a Gisele não tem uma responsabilidade sobre a minha vida, porque todas as conquistas que eu tenho, de grande feito e de grande conhecimento das pessoas, partem por causa da existência dela.


Eu: Eu vi algumas matérias chamando o Lunga de “vingador”e aí o meu lado nerd não consegue segurar. Você acha que ele se encaixaria em algum filme de super herói?

Silvero: Olha… eu gosto muito dessa analogia, porque ela tem muito a ver com a cultura americanizado que nos é imposta. Então a gente tem a mania de só nos colocar no lugar legal, bacana, quando a gente se compara aos americanos que é justamente o que o filme fala o tempo inteiro. E aí eu gosto assim que quando as pessoas pensam em Lunga… Inclusive ultimamente eu tenho dito: Ah, então se eles têm um Capitão América, a gente tem um capitão do Nordeste. Lunga pra mim é isso. A única coisa que me deixa inquieto assim é quando as pessoas dizem que Lunga não é um herói. Eu gosto da palavra anti-herói, mas não gosto da palavra “vilão”. Porque, na verdade, quem enxerga Lunga como vilão está do lado exatamente das pessoas opressoras desse filme. Quem coloca Lunga como vilão é exatamente o prefeito, é exatamente as instituições particulares que não querem que Lunga de alguma maneira interfira no processo do sistema capitalista e opressor que eles está impondo naquela comunidade. Porque para aquela comunidade Lunga é o grande herói.


Eu: Acho ótimo. Inclusive, o Kleber Mendonça Filho podia fazer uma continuação com o Capitão Nordeste.

Silvero: Recentemente perguntaram isso pra ele e pra Juliano e é muito engraçado, porque não havia essa… Não existe essa pretensão. O filme é isso. Pra quem conhece a obra do Kléber sabe que ele nunca fez uma continuação.

 

 

Eu: Não acho que o filme precise, mas também, se vier…

Silvero: Exato. Mas eles até que responderam recentemente numa entrevista: “olha essa não é uma má ideia. É uma ideia que nos instiga também”. O que eu acho legal, por exemplo, é que em Bacurau, por ter como protagonista aquela comunidade, existem muitas histórias interessantíssimas para serem contadas e que eu acho que só o filme realmente não dá conta. Talvez uma minissérie pudesse contar história um pouco mais de Domingas, a história de Teresa, a história de Carmelita. O que era aquela comunidade antes da morte de Carmelita. Então tem muita coisa ali que me deixa curioso também para saber, que eu acho que uma minissérie daria conta.


Eu: E continuando em Bacurau, o filme traz várias discussões políticas extremamente necessárias. Só que a principal delas, pelo menos na minha opinião, é um filme sobre resistência. Só que, curiosamente, ele foi produzido bem antes desse nosso momento de resistência que a gente está vivendo hoje. Como era tratada essa relação política no set?

Silvero: Isso sim, porque boa parte, tanto do elenco quanto da produção, vem do Nordeste. A gente tem atores, obviamente, de fora do Brasil, mas tem atores também do Sudeste. Mas, mesmo assim, os atores que são do Sudeste tem um pé no Nordeste, porque tem um familiar ou alguém conhecido e tal. Então essa experiência com o Nordeste foi muito próxima. A gente tem a mania de tachar o Brasil apenas pelos grandes centros e, principalmente, por esse eixo Rio-São Paulo que é bem diferente do que o Brasil é de verdade. Acho que Bacurau, por mais que ele tenha sido escrito em 2009 e tenha sido produzido antes do início das campanhas eleitorais… Algo que se nós tivéssemos hoje um outro resultado das eleições talvez ele não tivesse tanta relação, mas ele continuaria tendo relação porque esse Brasil de verdade existe sim. E ele existe principalmente na raiz, nas entranhas, no coronelismo, no clientelismo e no nepotismo que ainda hoje é muito forte, principalmente, nas cidades do interior. Então, por exemplo, eu levei minha mãe e meu pai para assistir. Eles vivem no sertão central e achei que eles [não iriam gostar] por causa disso que as pessoas falam que é um filme de arte, um filme cabeção. Muito pelo contrário. Meu pai e minha mãe ficaram muito vidrados com o filme, se identificaram o tempo inteiro com aquela situação porque é exatamente isso que eles vivem no dia a dia da cidade do interior.

 



Eu: Continuando nesse caminho que você falou, Bacurau é um filme muito brasileiro. Só que ele tem tido uma recepção muito boa internacionalmente. Como você enxerga isso?

Silvero: Eu acho que existe uma sede lá fora do que é o Brasil de verdade. De não produzir coisas… Por exemplo, os franceses ficaram muito admirados quando viram, recentemente, o filme italiano que inclusive concorreu ao Oscar. Não sei se ganhou o Oscar. Como é o nome mesmo? Não vou lembrar agora. Mas tem esse filme italiano bem recente, acho que uns quatro anos atrás [no final da entrevista, lembramos que o tal filme se chama A Grande Beleza]. Os franceses começaram a dizer que era o retorno do cinema italiano de fato. Então eu acho que Bacurau traz esse sentimento lá fora. É o retorno do cinema brasileiro. O cinema de Glauber Rocha com todas essas referências que Kleber faz questão de dizer. A referência de raiz, a referência do Nordeste, a referência de quem somos de verdade. Então acho que lá fora acontece isso. Finalmente a gente está vendo um filme que não é uma reprodução de estética americanizada. É um filme [que representa] de fato como o Brasil é, e é isso que os americanos… Não só os americanos, mas é isso que lá fora as pessoas querem ver. O Brasil de verdade.


Eu: E como foi estar em Cannes com esse Brasil de verdade e, principalmente, como Gisele?

Silvero: Foi incrível. Eu nunca tinha ido. Sou uma figura que acompanha o Festival de Cannes como admirador, como cinéfilo. Sempre tô muito antenado assim em qual o filme que ganhou Cannes. Quero muito assistir, quero muito saber o que está se falando lá. Então essa foi a minha primeira experiência de dentro do festival, né? E ter estado de Gisele partia muito desse ato político de que eu não sou um ator conhecido lá fora. Então assim: se eu tivesse passado ali de smoking e gravata-borboleta, talvez eu teria passado apenas como mais um ator qualquer atravessando aquele red carpet. A minha decisão de ir de Gisele causou um certo frisson, tumulto e uma curiosidade que fez com que… Eu tenho muito orgulho de ter sido do filme, por exemplo, a pessoa que tinha uma imagem no Instagram oficial de Cannes, ali sozinha para as pessoas depois procurarem saber quem é essa pessoa, quem é esse artista. o que é que ele fala. E aí começou essa pesquisa sobre quem é o Silvero e qual é o discurso de Silvero. E aí, sim, fez uma diferença ter atravessado o carpet daquela forma. E, além disso, foi a primeira vez que o elenco inteiro viu o filme e nós ficamos muito emocionados porque foi uma grande experiência ver um cinema daquele tamanho aplaudindo e recebendo o filme tão bem como ele foi recebido.

 

Silvero Pereira censura não

 

Eu: O que te trouxe pro Festival de Cinema de Vitória e, apesar das inscrições já estarem encerradas e ninguém poder assistir, o que vai rolar na sua oficina de atuação?

Silvero: O que me trouxe pro festival foi um contato direto com a Lúcia [Caus, organizadora do evento]. Recentemente, eu estive num festival muito interessante que é o Festival Curta Taquary, que fica na cidade de Taquaritinga do Norte em Pernambuco. Eu fui dar essa oficina lá, porque conheci o Alexandre [Soares], que é o gestor do festival, em outros festivais de cinema. Aí Alexandre me convidou pra dar essa oficina e lá eu conheci a Lúcia. Ela me falou do Festival de Vitória e, imediatamente, a gente se tornou de um afeto, de uma empatia tão grande que decidimos estar aqui. E, especialmente, nesse momento em que festivais de cinema brasileiro, na conjuntura política, precisam enfrentar os ataques que estamos sofrendo com relação às políticas públicas para cinema. Então, se você tem um festival que engloba não só longas nacionais, mas curtas como videoclipes, como mostra ambiental, mostra da negritude, mostra LGBTQI+, é o “cinema Brasil” de todas as áreas e em todos os lugares. E é a oportunidade de mostrar um pouco do meu processo aqui dentro também. O que eu construo nessa oficina tem muito a ver com minha experiência enquanto ator. O que me fez acreditar no teatro, o que me fez acreditar na interpretação e o que me faz permanecer sendo artista até hoje. Então, dentro dessa oficina, o que mais me interessa é fazer com que as pessoas sigam essa corrente do bem – nessa metáfora da corrente do bem – de que aquilo que a arte de interpretar me proporcionou, talvez eu consiga fazer isso para elas. Mas é muito importante que a gente reconheça desde o início que resultado disso tem muito a ver com a troca e com os afetos. É o material que eu recebo ali, a doação e a forma como as pessoas estão dispostas a trabalhar que fazem o sucesso da oficina com o resultado final do que a gente pode produzir aqui.


Eu: E cá pra nós que produzir o Festival de Vitória (os meninos vão comprovar) é um ato de resistência que não é fácil não. O Festival do Rio tá passando sufoco para conseguir sair do papel…

Silvero: É muito fundamental que esse festival exista nesse momento. E, principalmente, reunindo todas essas mostras que eu falei agora. Pra deixar claro o quanto esse festival está por todos os caminhos, mostrando todo o tipo de produção.


Eu: E só para terminar então… Se você tivesse que indicar uma obra pro brasileiro de hoje entender ou enfrentar o que a gente tá vivendo. Qual seria? Além de Bacurau, porque ele já está, obviamente, nessa lista.

Silvero: Nossa… [Depois de alguns segundos pensando] Eu não queria dizer uma coisa recente assim, sabe? Mas aí… Se eu tivesse que indicar uma obra, eu acho que a coisa mais importante a indicar é a obra completa de Glauber [Rocha]. Porque a obra de Glauber (Deus e o Diabo na Terra do Sol) fala muito do Brasil ainda hoje. Dessa identidade que a gente tem e dessa resistência, dessa força. E do quanto a gente não pode baixar a cabeça e enfrentar toda e qualquer forma de resistência. Mas, se eu tivesse que dizer uma coisa mais atual, talvez a coisa que mais me fez estar em Bacurau… Que eu não quero falar sobre, obviamente… Mas eu só aceitei fazer Bacurau, independente de qualquer coisa, por causa de Aquarius. Porque Aquarius foi um filme brasileiro que me fez sair do cinema muito angustiado. E tem o mesmo processo assim: foi um filme produzido sem pretensões com a situação política daquele momento, porque ele foi produzido antes de tudo aquilo que estava acontecendo, mas caiu como uma luva pra toda aquela situação. Então, quanto mais a gente tiver obras que nos levem – de uma maneira metafórica, mas que fazem com que a gente se identifique – a esse lugar da catarse, da empatia e da identidade… São obras que me interessam bastante.

 


OBS 1: Muito obrigado, mais uma vez, ao Festival pela oportunidade de entrevistar o Silvero. Foi incrível e inesquecível!


 

Créditos da foto usada na capa: Sérgio Cardoso | Acervo Galpão/ IBCA