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Eu Sou a Lenda é uma reflexão sobre a solidão em um mundo devastado. Como agir diante de um apocalipse é a tônica desse livro maravilhoso


  • Título: Eu Sou a Lenda
  • Autor: Richard Matheson
  • Ano: 1954 (primeira publicação)
  • Edição: 2015
  • Editora: Aleph
  • Páginas: 384
  • Gênero: ficção científica e terror

“Um homem pode se acostumar com qualquer coisa, se for obrigado a isso.”

Não é sempre que os planetas se alinham para que algumas leituras fiquem ainda mais propícias. Já havíamos escolhido todos os livros para o grupo de leituras coletivas Sci-Fi LC de 2020, e coincidiu da leitura de Eu Sou a Lenda cair exatamente no período de quarentena.

Eu Sou a Lenda conta a história de Robert Neville que, até onde ele sabe, é o único sobrevivente de uma doença que matou grande parte da população e transformou a outra parte em monstros, vampiros que saem a noite em busca de sangue.

Decidi então fazer desse artigo não só uma resenha, mas um paralelo entre o livro e algumas similaridades em relação a pandemia do COVID-19 e a solidão causada pelo isolamento social, então vai conter alguns spoilers. Inclusive comentários sobre a adaptação cinematográfica de Eu Sou a Lenda de 2007, estrelado por Will Smith.

Eu Sou a Lenda

É tanta coisa diferente no filme que parece só levemente inspirado, mas pelo menos tem catioro.

Na história narrada em Eu Sou a Lenda, surge uma doença misteriosa e aos poucos se têm notícias de pessoas infectadas, escolas e empresas começam a fechar para seus funcionários não serem contaminados, mas o resultado final da doença é algo que não é aceito pela ciência e pela sociedade.

“Então, antes de a ciência ser arrebatada pela lenda, a lenda engoliu a ciência e todo o resto.”

Após a pandemia que destruir a humanidade, Neville vive só em sua casa, que reforçou para impedir que esses vampiros entrem e o matem. Ele passa seus dias entre restaurar o que eles quebraram durante a noite, pegar mantimentos e caçar aqueles que estão dormindo. As noites solitárias, trancado em casa, passa afogando-se no álcool e ouvindo música clássica, numa tentativa frustrada de parar de ouvir os barulhos vindos de fora, e superar a dor da perda de entes queridos e da própria humanidade.

“Sabia que podia colocar tampões nos ouvidos para cortar o som que vinha de fora, mas isso cortaria também a música, e não queria ter de reconhecer que eles o estavam forçando a viver enclausurado.”

A distopia pós apocalíptica se passa em 1976, tendo sido escrita em 1954, época que ainda não havia internet e a TV ainda estava em seus primórdios. O autor não escreveu nada para a época referente a algum tipo de avanço tecnológico nesses 20 anos de diferença, assim o protagonista não tinha nenhum outro tipo de distração que não sejam ouvir música em sua vitrola e ler. Além disso, tanto no livro quanto no filme, o personagem traz obras de arte e murais para a casa, a fim de decorá-la e admirar as pinturas, algo que achei extremamente apegado a algumas das coisas que nos caracterizam como humanos: a necessidade de arte.

“Estava contente por ter aprendido cedo na vida, graças a sua mãe, a apreciar esse tipo de música. Ela ajudava a preencher o terrível vazio das horas.”

Durante a nossa pandemia e isolamento atual, estamos recorrendo muito a arte! Músicos de todo o mundo estão fazendo lives gratuitas para seu público, encontramos possibilidades de visitar museus online, peças de teatro estão disponíveis online e até o próprio Circe Du Soleil disponibilizou apresentações gratuitas online para o público! Vejo relatos de pessoas que estão lendo mais por estar em casa, não só livros para estudos e profissionalização, mas a seu bel prazer. Mas mesmo cercados de arte, ainda nos bate a saudade das pessoas.

Porém, no mundo pós apocalíptico de Eu Sou a Lenda, Neville não tem nada disso. Não há internet, TV, rádio, nem espetáculos para assistir. Apenas ele só com seus discos, seus livros, seus quadros e sua dor.

Durante o debate, não só eu mas várias pessoas do grupo se identificaram e criaram paralelos com algumas das atitudes e sentimentos do personagem — estocar comida, se proteger contra o perigo lá fora, lidar com a solidão, ter que se habituar a uma nova maneira de viver. Alguns participantes até comentaram que gostaram de Eu sou a Lenda, mas o livro se tornou um favorito pela identificação com o momento que estamos vivendo.

Ao decorrer da leitura, Neville tem atitudes e sentimentos que não são bons, não gostamos e causaram antipatia para com o personagem. Em alguns momentos, acompanhamos conversas do personagem com ele mesmo, que me lembraram demais um outro lobo solitário enlouquecido da literatura: Gollum, de O Senhor dos Anéis.

“Algumas coisas podiam ir pro brejo, mas não sua saúde, pensou. Então por que você não para de entornar álcool?, pensou. Por que você não cala essa matraca?, pensou em resposta.”

Mas ao mesmo tempo que isso ocorria, ficava a pergunta: mas e se fôssemos nós no lugar dele? Nós estamos sofrendo com o isolamento causado pela quarentena, mas a solidão extrema e perdas pessoais e da humanidade que o protagonista sofre levam a outro patamar. Você gosta de todos os sentimentos e pensamentos que o isolamento te traz?

No filme, Neville tem uma cachorra, Sam, e um propósito. Ele é um cientista que trabalhava para o exército e antes mesmo do caos se instaurar já estava em busca de uma cura para a pandemia que transformou a humanidade em monstros. A presença de Sam e o objetivo de encontrar uma cura fazem com que o Neville do filme seja uma pessoa que sofre sim, mas não vemos o mesmo abalo nem temos o mesmo impacto que o Neville do livro, um simples trabalhador que perdeu tudo, não tem nenhum objetivo, e só se mantém vivo.

Na versão cinematográfica de Eu Sou a Lenda, Neville ainda mantém um certo humor, conversa com a cadela, é focado em suas pesquisas diárias, utiliza rádio para tentar encontrar outras pessoas, é um homem com esperança. No livro, Neville afoga as mágoas em bebida e se mantém ligado a música, sua única âncora a humanidade. O impacto da solidão é completamente diferente. 

Assim que vê a possibilidade de entrar em contato com um animal não infectado ou até com uma pessoa, a imaginação e expectativas de Neville aceleram insanamente. Ele vai de 0 à 100 em 5 segundos. A ansiedade por ter algum contato, qualquer contato, o faz irracional. Durante a quarentena, o isolamento social no faz recorrer a vídeo chamadas em vez de apenas telefonemas, para poder entrar em contato com as pessoas e vê-las. Além do mais, o número de casos de adoção de pets tem aumentado muito, mostrando que já uma necessidade de companhia que vai além do ser humano também.

Acredito ser uma experiência válida e interessante ver o filme Eu Sou a Lenda, mas a leitura é muito mais rica, não só em questão aos acontecimentos da história, mas aos sentimentos do personagem. Boa parte do livro são as reflexões de Neville sobre tudo o que está acontecendo, e elas são o ouro da história. O livro tem uma escrita simples, que fez a leitura fluir muito bem e rápido, tão rápido que terminou com todo mundo querendo saber mais.

A curiosidade que Neville tem em entender por que essa praga se espalhou e por que apenas ele sobreviveu a ela é o que torna esse livro, além de um clássico do terror, também da ficção científica. Porém não fique achando que é um terror assustador. Os vampiros de Eu Sou a Lenda aparecem pouco e são pouco mostrados, não espere que seja uma boa história de monstros. Mas a situação é tensa e podemos ver que muitos filmes, séries e até jogos de apocalipse zumbi são baseados no livro. No entanto, sofri muito mais com a solidão do personagem do que com algo que me assustasse.

“Ao horror, ele se ajustou. Mas a monotonia era o grande obstáculo a ser ultrapassado, e ele percebia isso agora, finalmente compreendia.”

Também pela época em que foi escrito, ainda não se havia tantas descobertas científicas acerca de doenças como hoje, e o autor fez o possível para encontrar uma explicação plausível com o que se sabia na década de 1950. No nosso grupo de debates, quem é da área de biologia e medicina do grupo não gostou muito dessas explicações, e muitas outras pessoas acharam um pouco duvidosas. Mas elas são o plano de fundo deixar um homem só no mundo e explorar esse sentimento horrível que é a solidão.

É um livro melancólico, mais melancólico ainda de se ler estando em quarentena. Teve poucos momentos de alívio cômico, alguns momentos de lágrimas, muitos de reflexão (mais lágrimas). Mas essa foi uma jornada que não deixou ninguém desprender os olhos das páginas.

“O mundo ficou louco, pensou. Os mortos andam por aí e eu acho isso normal.”

Ao final da edição da Aleph de Eu Sou a Lenda, a editora traz uma entrevista com o autor na época do lançamento do filme e um artigo com uma série de análises da obra. O livro afinal, não foi escrito no meio de uma quarentena e o sentimento de medo vinha de outras fontes, medos relacionados com o momento do pós guerra: as bombas atômicas e suas consequências a longo prazo, os imigrantes que chegavam nas cidades, as escavações e descobertas científicas e o que poderiam trazer (ou acordar).

eu sou a lenda

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Sobre o desenvolvimento do personagem durante a leitura de Eu Sou a Lenda, sua solidão a longo prazo entra em total sintonia para criar o final do livro, que é muito melhor que o final do filme, inclusive melhor que o final alternativo (que você pode procurar no YouTube). E que final foi esse! É incrível, e me traz também perguntas: como será a nossa vida e nossa sociedade após essa quarentena? Como serão os meios de trabalho e convivência? Vamos voltar 100% ao normal mesmo ou a experiência da quarentena trará mudanças radicais?

“Com que rapidez se aceita o inacreditável, depois que se vê o suficiente!”

Caso você se interessou e queira ler o livro, você pode adquiri-lo aqui.

Aqui é a Liv do Resenhas Caóticas, e se você quer acompanhar mais as minhas leituras, me siga no Instagram @ResenhasCaóticas. Obrigada e até a próxima.

Livia Salzani

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2 Comments

  1. Caramba. Eu amei sua análise. Foi muito precisa e destrinchou muitos aspectos sobre a obra e a narrativa do autor. Foi interessante trazer também a comparação em paralelo com o filme, já que os dois possuem algumas divergências. Parabéns pelo seu texto e pelo magnífico trabalho.

    1. Muito obrigada!

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