AODISSEIA
Filmes

Esquadrão 6 tem o selo Michael Bay de qualidade

Ou seja: uma bagunça completa cheia de explosões aleatórias...


18 de dezembro de 2019 - 01:59 - Flávio Pizzol

Funcionando como um típico filme de Michael Bay, Esquadrão 6 reúne estrelas de Hollywood e explosões gigantes em uma narrativa absurdamente bagunçada.


Apesar da quantidade de dinheiro acumulada por seus filmes, uma boa parte das pessoas odeia o nome de Michael Bay (Transformers) e todas as obras que brotam do seu cinema caótico. Novo membro dessa lista, Esquadrão 6 cumpre todos os requisitos necessários para entrar no clube, reunindo explosões, sequência em contra-luz e tantas outras características do diretor dentro da fórmula “perfeita”. Afinal de contas, pra piorar a situação do espectador, a Netflix deu o dinheiro e a liberdade que ele precisava para tirar todos os seus exageros do papel.

Isso significa que o longa – escrito pelos inconstantes Paul Wernick e Rhett Reese (Zumbilândia: Atire Duas Vezes) – pode ser resumido como uma bagunça generalizada sem pé nem cabeça onde missões cheias de ação são intercaladas com origens de personagens que não possuem qualquer diferencial em relação as mesmas sequências de ação. Tudo junto com cenas de sexo sem propósito narrativo e outras coisas que dificultam uma trama essencialmente simples sobre a origem desse grupo de sujeitos desajustados que salvam o mundo enquanto buscam redenção por seus crimes do passado.

esquadrão 6

Pra piorar, como se não bastasse ser essa cópia bizarra de Esquadrão Suicida, Esquadrão 6 ainda tenta desenvolver sua história padronizada em torno de personagens extremamente mal construídos. Um bando de pessoas com personalidades estereotipadas que ganham novas características do nada, se tornam amigos com base no mesmo nada e evoluem um total de 0% dentro de uma trama cujo o único objetivo é comprovar a importância da amizade. Note, por exemplo, a maneira como o Três cita diversos diálogos de filmes durante uma sequência de ação ação, porém não repete o mesmo caguete em nenhum outro momento. Isso significa que estamos diante de algo sem sentido ou importância que incorporado ao texto apenas pela piada.

E essa fórmula se repete com tanta frequência que prejudica até mesmo aquele que poderia ser o único ponto positivo da produção: seu elenco diversificado, empoderado e talentoso. No entanto, a verdade é que não adianta colocar bons atores para interpretar os membros numerados do grupo principal, se a ideia for obrigá-los a falar uma porção de frases de efeito que não se encaixam no contexto. E lá no final das contas, todos acabam sendo desperdiçados sem sequer aproveitar a diversão que costuma marcar presença nos sets de filmes de ação.

E digo isso porque nem mesmo Ryan Reynolds (Deadpool) parece estar confortável no papel do líder sarcástico e misterioso que se divide entre cenas de pancadaria, piadas sem timing cômico e filosofias baratas. Um problema substancial que só piora, já que o restante dos personagens não alcançam um terço desse nível de dimensionalidade. A Dois é a agente séria que nunca abre um sorriso, o Três é o assassino falastrão que ama a mãe, o Quatro é apenas o cara do parkour e por aí vai.  Isso quando não vemos, no caso da Cinco, a ótima Adria Arjona (Operação Fronteira) amargar a projeção sem nenhum daqueles flashbacks ruins que perseguem seus companheiros de elenco.

esquadrão 6

“Ah, mas esse filme foi feito só pra se divertir. Não precisa se preocupar com isso tudo”. Em primeiro lugar, até mesmo os filmes-pipoca mais escapistas precisam fazer algum sentido, porque é impossível o público se importar minimamente com algo que ele não entende. E, nesse caso, Esquadrão 6 tem a péssima mania – típica de The Walking Dead – de dificultar algo que é substancialmente simples através de frases filosóficas soltas e uma edição picotada de forma quase aleatória. Algo definitivamente problemático que ganha contornos menos perdoáveis quando a produção não tem espaço para tais doses de “falsa-inteligência”.

Em segundo lugar, falta o filme assumir esse papel e não se levar a sério de verdade. Ou, em outras palavras, falta os roteiristas de Deadpool seguirem sua própria cartilha para construírem um filme que realmente liga o foda-se para as convenções cinematográficas. Algo que não acontece aqui, já que o filme insiste em cercar as motivações dos protagonistas com monólogos super dramáticos sobre a economia, a importância de não se apegar, as ditaduras e tudo mais. Uma solução narrativa que surge apenas para deixar sério algo que poderia ser resumido como uma equipe de desajustados querendo ferrar com alguém que é ruim. E ponto final.

Mas calma: também podemos deixar tudo isso de lado e tentar assistir o filme pela “zueira”. O problema é que, ainda assim, o espectador precisa fazer um esforço hercúleo para aceitar o caos visual que Michael Bay implementa em Esquadrão 6. É tudo extremamente confuso e mal localizado geograficamente. Um show de tiros que ninguém sabe de onde vieram ou para onde vão, carros que sofrem a batida em um lugar para capotar em outro cenário (sim, isso acontece…) e mais uma porção inenarrável de takes perdidos que entram em cena do nada. Bem naquela pegada Busca Implacável de usar algo só porque foi filmado, mudando os ângulos sem se preocupar com a história em si.

É verdade que o todo melhora depois que o filme deixa de lado as origens bagunçadas ou as narrações filosóficas que “justificam” sequências de ultra-violência, mas o estrago já está feito porque o ritmo da ação não vai mudar. Vai permanecer sendo aquele pesadelo visual para sempre, porque reflete os gostos de quem está no comando da brincadeira. Isso significa que, mesmo com a trilha bem escolhida e posicionada, você ainda vai precisar abraçar o estilo do diretor sem julgamentos antes de engolir Esquadrão 6.

Eu entendi que não consigo realizar tal proeza e criei uma pequena teoria: não ficar tonto com as criações de Michael Bay deve ser uma espécie de gosto adquirido que ainda não faz parte do meu paladar.