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Especial: Será o fim das sagas literárias no cinema?


2 de setembro de 2016 - 11:00 - Tiago Soares

Recentemente, uma notícia pegou de surpresa até quem não é fã da saga Divergente. O último filme da série literária de sucesso de Veronica Roth, não seria lançado nos cinemas, e sim diretamente para a TV. A Lionsgate, já tinha anunciado o corte nos gastos do último filme da franquia: “Ascendente“, depois do fracasso do penúltimo filme lançado “Convergente” (que arrecadou apenas 179 milhões no mundo todo). Diante desse choque inicial a pergunta que nos resta é: Será o fim das adaptações literárias no cinema? Será que a fonte secou? Vendo o sucesso dos filmes de super-heróis, que também são baseados em obras, digamos, literárias, a mesma fórmula não se aplica as adaptações infanto juvenis?

Já neste século é importante ressaltar o precursor disso tudo, a trilogia Senhor dos Anéis baseadas na obra de J.R.R Tolkien. Trazendo uma certa desconfiança dos fãs da obra, Peter Jackson assumiu a responsabilidade de trazer a Terra Média as telonas, e conseguiu isso com sucesso de público e crítica (vencendo  17 oscars, entre 30 nomeações, que não me deixam mentir), rodados simultaneamente no berço de Jackson, a Nova Zelândia, a produção levou 8 anos e faturou cerca de 3 bilhões de dólares (US$ 2.925.155.189). Quase ao mesmo tempo, a Warner apostava num tal bruxinho das obras de J. K. Rowling, produzido por David Heyman, com Daniel Radcliffe, Rupert Grint e Emma Watson nos papéis principais, esbanjando carisma e fofura, a história de Harry Potter ganhou as telas, e de 2001 a 2011 arrecadou cerca de 7,7 bilhões de dólares, além de ser o responsável pela tendência atual de dividir o último livro em 2 filmes (veremos que isso nem sempre é um acerto).

Em 2005 tivemos duas adaptações que tentaram seguir a onda, uma relativamente bem sucedida e outra um fracasso. As Crônicas de Narnia do irlandês C.S. Lewis chegou as telas com alguns nomes de peso em seu elenco e ótimos efeitos. As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa, primeiro e melhor da franquia arrecadou 745 milhões de dólares mundialmente, já a continuação Príncipe Caspian, ficou com 419 milhões, e o último A Viagem do Peregrino da Alvorada ficou com 415 milhões e de certa forma encerrou a franquia. Vale lembrar que a nova adaptação A Cadeira de Prata está em pré-produção. O fracasso ficou com Eragon, primeiro livro da saga Ciclo da Herança, escrita por Christopher Paolini, novamente com um elenco estelar que contava com Jeremy Irons e John Malkovich, Eragon trouxe um protagonista sem total carisma e recebeu duras críticas dos fãs da saga e de críticos especializados, arrecadando apenas 249 milhões de dólares, para um orçamento de US$ 100 milhões.

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Em 2008 estreou, para a alegria das adolescentes, a franquia provavelmente mais amada e odiada da internet. Baseada nos livros de Stephenie MeyerCrepúsculo (Twilight), trouxe Kristen Stewart como Isabella Swan, uma garota que se apaixona por Edward Cullen, um vampiro interpretado por Robert Pattinson. Com clichês em excesso e atuações bizarras, o longa conseguiu arrecadar surpreendentes 393 milhões de dólares, com um orçamento de apenas 37 milhões. O que gerou suas sequências de qualidade tão duvidosa quanto. Lua Nova com o orçamento de 50 milhões, arrecadou 709 milhões de doláres, Eclipse custou 68 milhões, arrecadando 698 milhões e as duas últimas partes, Amanhecer Parte 1 (orçamento 110 milhões, arrecadação 712 milhões) e Parte 2 (orçamento 120 milhões, arrecadando mais de 829 milhões). Mas nem tudo são flores para o mundo das adaptações, dois anos depois, em 2010, Chris Columbus se arriscava ao entrar de cabeça na adaptação de Percy Jackson – O Ladrão de Raios, obra incrível de Rick Riordan que infelizmente não fez igual no cinema. Com inúmeras críticas e fãs do Acampamento Meio-Sangue revoltados, o primeiro filme teve um orçamento de 95 milhões e arrecadou 226 milhões, enquanto o segundo O Mar de Monstros (que conseguiu ser pior), teve um orçamento de 90 milhões, arrecadando apenas 199 milhões mundialmente, deixando os outros livros no limbo.

Em 2012 (uma das melhores sagas nos livros e no cinema, segundo o autor desse texto), nos apresenta a história da moradora do Distrito 12. Baseada na trilogia de sucesso de Suzanne Collins, Jogos Vorazes (The Hunger Games), chegou como desconhecido para o público que não era leitor da saga, e trouxe o carisma de Jennifer Lawrence as telas, gerando uma das maiores girl power da história. Com boas críticas, excelentes atuações e JLaw, o primeiro filme arrecadou US$ 694 milhões em todo o mundo, contra US$ 78 milhões de orçamento. A sequência Em Chamas (Cacthing Fire), o melhor da franquia, tem o seu ápice, arrecadando 865 milhões contra 130 milhões de orçamento. Daí, começamos a notar a primeira falha que até o mais fã da franquia concordava: dividir o último livro em duas partes, era um erro, pois não há tanto conteúdo assim e a decisão acaba sendo apenas financeira, com A Esperança Parte 1 arrecadando 755 milhões, e o grande finale que dividiu a crítica especializada e teve a menor arrecadação da franquia com 653 milhões mundialmente.

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Divergente veio nessa onda, mulheres fortes que tentam levar sua sociedade opressora a um patamar de paz e liberdade. Com a até então desconhecida, Shailene Woodley como protagonista, Divergente prometia ser a sucessora de Jogos Vorazes, e gerar lucros para a Lionsgate, o que acabou não acontecendo, tanto a crítica como o retorno financeiro, diziam o contrário. O primeiro filme da saga arrecadou 288 milhões para um orçamento de 85 milhões, o segundo Insurgente, teve um orçamento maior (110 milhões) e um menor retorno em relação ao antecessor (297 milhões). O maior fracasso foi o terceiro filme, Convergente, já citado no início, que fez o estúdio cancelar o lançamento do último nos cinemas, e lança-lo diretamente na TV, pensando até mesmo em seguir com a saga numa série.

Depois de tantos altos e baixos, com mais pontos baixos ultimamente, a pergunta que fica é: Vale a pena os estúdios investirem tão alto em adaptações que não darão o devido retorno? E olha que nem citei A Quinta Onda (The 5th Wave), tentativa de mais uma franquia adolescente que nem o carisma de Chloe Grace Moretz salvou. Além da saga Maze Runner (que não tem agradado os fãs), Os Instrumentos Mortais, A Hospedeira, Dezesseis Luas e Academia de Vampiros merecem a menção honrosa (ou desastrosa?). Cada vez mais, com a ascensão de filmes baseados em HQs, os estúdios vêm apostando no que dá certo hoje em dia, é complicado confiar apenas num nicho específico de leitores e não no público em geral.

Vale lembrar que algumas obras também querem ver a luz do cinema, e inclusive já têm seus direitos adquiridos com estúdios e alguns até tem atores definidos, como é o caso de The Queen of the Tearling, obra de Erika Johansen, que tem Emma Watson querendo produzir e estrelar o filme, Legend de Marie Lu teve os direitos comprados pela CBS Films e aguarda sinal verde para entrar em produção, A Seleção, de Kiera Cass vendeu mais de 3,5 milhões de cópias e teve seus direitos adquiridos pela Warner, além do sucesso Fallen, de Lauren Kate, que teve suas filmagens encerradas há quase dois anos e ainda não estreou. Estranho né?

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O interessante é que esse medo do fracasso, não afeta adaptações de livros com histórias fechadas, e uma enxurrada delas está prestes a estrear, como é o caso de O Lar das Crianças Peculiares que teve milhões de exemplares vendidos e ganhe forma na direção de Tim Burton no dia 29 de setembro. Mais uma obra de Dan Brown chega as telas encabeçada por Tom Hanks, Inferno estreia no dia 10 de outubro. Sete Minutos Depois da Meia Noite, baseado no premiado romance de Patrick Ness estreia no dia 27 de outubro. Sem contar A Garota do Trem, thriller de Paula Hawkins que tem a linda Olivia Wide como protagonista, e a promessa de uma nova trilogia com o spin-off de Harry Potter, Animais Fantásticos e Onde Habitam, baseado no livro glossário de J.K Rowling.

Muitas coisas boas podem sair de obras espetaculares e muitos sucessos podem vir por aí. Algumas obras merecem adaptações fiéis por respeito aos fãs e roteiros coesos por respeito a nós cinéfilos e ao público em geral. Uma opção a considerar seria adapta-las para a TV, já que é um mídia em ascensão e tem exemplos de sucesso, vide Game of Thrones. Só nos resta esperar para saber qual será a atitude dos estúdios daqui pra frente e torcer para que mais uma adaptação preguiçosa não seja realizada. Os livros as vezes, merecem ficar apenas na imaginação.