AODISSEIA
Especial

Especial: #OscarNotSoWhite


3 de julho de 2016 - 16:00 - Flávio Pizzol

Será que essa é a solução?


Todo mundo deve lembrar muito bem do #OscarSoWhite e as tretas geradas pela ausência de negros indicados ao maior prêmio do cinema mundial. Pois bem, as mudanças que os organizadores tanto prometeram na época começaram a aparecer no decorrer da última semana com a divulgação da lista de novos membros de 59 países, várias raças e idades bem diversificadas. Sem dúvida nenhuma, é uma renovação que vai fazer bem para a Academia, mas a pergunta é: essa é a solução?

Essa nova leva de membros já está marcada na história da instituição como a maior adição até o momento, sendo composta por 683 pessoas no total, incluindo os vencedores da última premiação. Focada, segundo a própria presidente da Academia, em quem representa o melhor da comunidade cinematográfica global ou impactou fãs de todos os lugares nos últimos tempos, a lista possui 283 membros internacionais, muitas mulheres e uma grande porcentagem de outras raças (vejam as comparações feitas no gráfico abaixo).

Oscar

Entre os nomes mais famosos (e importantes) de várias funções estão Anthony Anderson (Os Infiltrados), James Gay-Rees (Senna), Chadwick Boseman (Capitão América: Guerra Civil), John Boyega (Star Wars: O Despertar da Força), Idris Elba (Beasts of No Nation), Vivica A. Fox (Independence Day), Anne Fletcher (A Proposta), Cary Fukunaga (True Detective), Luis Gúzman (O Pagamento Final), Oscar Isaac (Ex-Machina), Patty Jenkins (Mulher-Maravilha), Ice Cube (Anjos da Lei), Michael B. Jordan (Creed), Brie Larson (O Quarto de Jack), Adam Arkapaw (diretor de fotografia de Macbeth), Xavier Dolan (Mommy), Rachel McAdams (Questão de Tempo), Martin Starr (Silicon Valley), Lenny Abrahamson (Frank), Ryan Coogler (Creed), Byung-Hun Lee (Exterminador do Futuro: Gênesis), Richard Kelly (Donnie Darko), Adam McKay (A Grande Aposta), Park Chan-wook (Oldboy), László Nemes (Son of Saul), Emma Watson (Harry Potter), James Wan (Invocação do Mal 2), Marlon Wayans (As Branquelas) e as irmãs Lane e Lilly Wachowski (Matrix). Confiram a lista completa aqui.

Além disso, muitos brasileiros que atuam por trás das câmeras também foram convocados para essa missão: Lula Carvalho (Robocop), Anna Muylaert (Que Horas ela Volta?), Pedro Kos (Frida), Affonso Gonçalves (Carol), Antonio Pinto (Amy), Rodrigo Teixeira (A Bruxa), Alê Abreu (O Menino e o Mundo), Renato dos Anjos (Detona Ralph), Vera Blasi (O Sabor da Paixão) e Marcelo Zarvos (Rock em Cabul). Várias provas maravilhosas de que os artistas e os principais trabalhos nacionais estão repercutindo positivamente lá fora.

Entretanto vale pensarmos se aquele preocupante cenário escancarado ano passado realmente pode mudar com a convocação desses novos membros. A resposta mais clara e direta é logicamente sim, afinal a instituição mostrou que a vontade de mudar não ficaria só no ideal, o número percentual de mulheres aumentou drasticamente e as outras raças poderão ser representadas com a força de uma bancada no congresso. Obviamente, eu não vou ser o responsável por negar, mas acho (e já disse isso na época da hashtag) que o problema da falta de negros é um buraco muito mais fundo.

Na minha humilde opinião, a convocação desses novos membros funciona como uma espécie de resposta forçada para todos os questionamentos feitos pelas minorias, quando as ações deveriam ser muito mais profundas. Em outras palavras, eu fico com a impressão de que esses novos membros estão ali com a obrigação de votar nos seus iguais para que esses alcançarem uma chance mínima de indicação, independente da qualidade do produto. Uma cota estabelecida de votantes diferentes dentro de um universo que não deixou de ser preconceituoso ao convidar as minorias para participarem da brincadeira.

Idris-Elba-for-Smartwater

Nós ainda estamos observando e convivendo em um mundo machista, velho e majoritariamente branco que não consegue aceitar a possibilidade de entregar o papel de James Bond para Idris Elba. Um mundo que já odeia o novo filme dos Caça-Fantasmas antes da estréia, simplesmente porque este será estrelado por mulheres. Um mundo que acha necessário contratar Scarlett Johansson para interpretar uma asiática só por ela ser a atriz mais rentável dessa geração. Esse mundo não mudou e é justamente por isso que eu fico com medo de que John Boyega se sinta obrigado a votar no filme daquele diretor negro, Anna Muylaert nos filmes com mulheres de meia idade e por aí vai sem levar em conta a verdadeira qualidade desses produtos.

Na verdade, todo o anúncio realizado pela instituição jogou exatamente essa pressão, dando a entender que eles são a solução para a falta de negros no Oscar. É mentira! A solução está em dar mais oportunidade para que negros, mulheres, asiáticos, homossexuais e todas as outras minorias sejam representadas no cinema por seus iguais em papéis que realmente tenham potencial. Não adianta escolher um negro para ser protagonista de um filme guiado pela pena, enquanto tantos atores negros tem a mesma ou até mais capacidade de atuação que muitas estrelas brancas.

E, nesse caso, o problema é que eu não consigo propor uma solução real e forte para algo tão enraizado na cultura norte-americana e mundial. Sou obrigado a concordar que a Academia encontrou uma proposta inicial razoável, desde que compreenda que seu papel não para por aí. É necessário incentivar a indústria do cinema a fazer diferente, abraçar o novo e mudar esse ciclo vicioso e repetitivo em que estamos inseridos. Pode ser uma visão um tanto quanto pessimista, mas é necessário ficar de olho nas consequências de cada decisão e torcer pra que um grande prêmio entregue para um ativista se torne um passo importante para as mudanças. Até a próxima!