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Especial: O Oscar x A Qualidade Técnica

Ou o elemento que a Academia nem sempre leva em conta...

23 de fevereiro de 2019 - 18:55 - Flávio Pizzol

Há alguns dias atrás, o Tiago (nosso glorioso diretor e redator) assistiu Se a Rua Beale Falasse e disse no seu Twitter pessoal que este talvez fosse um filme melhor do que o vitorioso Moonlight. E, graças a uma quantidade assustadora de conteúdo envolvendo se esse ou aquele longa mereciam estar indicados, eu acabei começando uma série de reflexões pessoais sobre os motivos que levam um filme melhor tecnicamente a receber apenas três indicações, enquanto a produção anterior de Barry Jenkins roubou todos os holofotes? E a resposta é a mais simples do que muita gente gostaria: O Oscar não liga apenas pra qualidade técnica de um filme.

 

 

Isso significa que, gostando ou não, uma grande parte da vitória de Moonlight, por exemplo, está relacionada com todos os protestos de Oscar So White que haviam tomado a indústria no ano anterior. É claro que o filme tem méritos técnicos e narrativos (e não sou poucos… é um puta filme), no entanto não se pode negar que as temáticas abordadas pela produção, seu impacto social e o timing com que ela chegou na premiação contaram tanto quanto a qualidade na hora de anunciá-lo como vencedor do grande prêmio da noite.

Por mais que os velhos brancos machistas – que infelizmente ainda dominam os votantes – se esforcem pra mostrar o contrário, a Academia leva tudo isso em consideração junto com o lobby promovido pelas grandes indústrias e um sistema bem bizarro de compensação. Você só precisa prestar atenção nos vencedores dos últimos anos pra notar uma certa divisão entre três categorias: aqueles que são meramente frutos de lobby (O Discurso do Rei); aqueles que são prêmios voltados mais para a carreira do que pelo filme em si (Guillermo Del Toro e A Forma da Água); e alguns que pegam muito impulso na sua força fora da tela de cinema (Quem Quer Ser um Milionário ou o próprio Moonlight).

 

 

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Vou repetir mais uma vez que todos os filmes citados acima possuem inúmeros méritos técnicos. Nenhum deles é ruim ou inassistível, mas muitos são esquecidos pouco tempo após sua vitória, comprovando que ela pode ter sido gerada por algo maior do que a qualidade por si só. Vamos exemplificar com uma disputa atual: Lady Gaga x Glenn Close. A primeira chamou muita atenção e merece todo o o lobby que está sendo feito em cima do seu trabalho em Nasce uma Estrela, mas, mesmo assim, a segunda pode sair vitoriosa por sua atuação no pouco mais do que mediano A Esposa. E o motivo é exatamente a compensação, já que Close vinha sendo comentada como vencedora de um Oscar honorário por sua carreira até que voltou com tudo aos holofotes com um trabalho que valeria um prêmio normal, apesar de ser um desses que poderia ser esquecido depois.

Um prêmio que compensaria todas as indicações anteriores que não resultaram em vitória. Um Oscar que tem a mesma cara daquele que Leonardo DiCaprio levou por O Regresso ou quem sabe daquele que Martin Scorcese recebeu por Os Infiltrados. Filmes que, mesmo sendo incríveis, passam longe de serem os melhores de ambos, logo acabam vencendo mais como uma compensação pela carreira do que por méritos individuais. Nesse ano, existem vários candidatos que podem embarcar nessa onda e, por mais que eu ache que essa seja a melhor atuação feminina do ano, Glenn deve uma delas. E sabe o que vai ajudar essa teoria a virar realidade: a campanha pela vitória de Gaga está dividida entre duas categorias e ela certamente não vai sair de mãos vazias graças ao poder de “Shallow”. Compensação faz com que todos recebam alguma coisa, alimentem seu egos famintos e voltem felizes para casa…

E esse também é o mesmo motivo pelo qual Spike Lee pode acabar sendo uma grata surpresa dentro da premiação. Ele já recebeu um Oscar honorário pra compensar todas as vezes em que seus filmes incríveis e importantes socialmente foram esnobados, mas ninguém imaginou que, pouco tempo depois, ele voltaria ao evento com um filme que teria qualidade e força suficientes para vencer. Ele é diretor, roteirista e produtor de Infiltrado na Klan e o filme tem grandes chances de levar algum grande prêmio para que Lee seja premiado pessoalmente. Como a competição em roteiro está pendendo mais para Jenkins com Se a Rua Beale Falasse e a estatueta de diretor deve ir (com justiça) para Cuarón, o que sobra é o maior prêmio da noite. E, sim, eu acredito que Roma perdeu força na categoria de Melhor Filme por ser o franco favorito em Estrangeiro e por ser fruto de um serviço de streaming. Existem grandes chances da Academia não querer premiar a Netflix – por puro preconceito – em sua primeira grande indicação e a saída pode ser escolher um filme que, além de esbanjar qualidade e importância social, compensaria Spike Lee de uma vez por todas. Um pacote completo que ainda ganha pontos por ser uma produção “de cinema”.

 

 

Talvez nem todos os espectadores do Oscar tenham parado para refletir sobre esses fatores antes, mas é provável que aqueles mais viciados estejam se perguntando pra que todo esse texto especial pra falar de algo tão comum. Eu vou admitir que também pensava assim e não tinha muito interesse em falar sobre isso até cansar de ver pessoas do meio usando filmes antigos para tentar justificar que outro filme (completamente diferente) esteja ou não no Oscar. E isso vale tanto pra quem está dizendo que Moonlight não merecia a vitória porque Rua Beale é melhor – o Tiago não chegou nesse ponto… -, quanto pra quem fala coisas como “Pantera Negra não merecia ter sido indicado, porque Cavaleiro das Trevas, o melhor filme de super-herói já feito, não foi…” ou qualquer outro derivado do tipo.

E a resposta mais uma vez é simples: o Oscar não é ligado exclusivamente a qualidade técnica. Cavaleiro das Trevas participou do primeiro ano em que a categoria principal foi expandida pra dez candidatos e muita gente comentou que ele era o motivo dessa decisão, mas por alguma escolha divina ele foi cortado. Ainda assim, teve mais indicações que qualquer filme de herói até então e ganhou um prêmio muito merecido com Heath Ledger. Duas conquistas inéditas e grandiosas que honraram o filme com total justiça para a época. Um tempo onde o gênero não tinha o peso que tem hoje, sendo esse sucesso um fator que impulsou Pantera Negra.

E, além disso, o longada Marvel ainda tem duas coisas que são importantíssimas: uma boa quantidade de inovação em relação ao gênero e força social (algo que já repeti uma dezena de vezes nesse texto). Dentro disso, em primeiro lugar, o fato de Pantera Negra não ser sequer o melhor filme do gênero em 2018 é um argumento sem força, já que ele é o longa que conseguiu adicionar algo novo e diferente ao que a Marvel vem fazendo há anos. Eu também acho que Guerra Infinita é o melhor filme de herói do ano, mas dizer que ele adiciona algo novo ao gênero é um belo exagero. Talvez dê um passo em direção ao novo na maneira como apresenta e desenvolve Thanos, mas será que isso é o suficiente pra dizer, por exemplo, que o longa (que permanece marcante e maravilhoso) mudou a fórmula da Marvel?

 

 

Pantera Negra não só faz isso na organização do seu roteiro, no peso de alguns diálogos e na construção de Wakanda como também carrega, como eu já disse, uma representatividade que nenhum outro longa de herói teve até então. Nem Mulher-Maravilha, que chegou a ser defendido na categoria de Melhor Filme pelo mesmo motivo sendo consideravelmente inferior. A importância pro gênero e o impacto social não muda o fato do terceiro ato de Pantera ser genérico e preenchido por efeitos ruins, mas o coloca, sem nenhuma dúvida, um degrau acima de Cavaleiro das Trevas, Logan, Vingadores ou quer outro fruto do gênero que já tenha sido indicado. E é bom lembrar que, nesse caso, não estamos nem perto de falar sobre compensação ou lobby. Estamos falando sobre o valor do filme para a sociedade, sua discussão tão atual e a maneira como ele serviu de inspiração para tantos jovens negros.

Isso pesa na equação do Oscar e não deveria ser diferente, afinal todos esses elementos fazem parte da identidade do filme. Eu sequer concordo com essa parada de falar que certos filmes são feitos só pra “militar”, mas Pantera é um exemplo de longa que ninguém pode tentar acusar disso porque a representatividade e a politica não são jogadas no texto de maneira forçada. Elas estão ali porque precisam e porque não poderiam ficar de fora de uma produção sobre um rei cujo o paí precisou se isolar para basicamente comprar seu lugar no mundo da politicagem. Afinal, Wakanda, por ser um local africano, gerava desdém de pessoas que não veem a mínima possibilidade do continente ser berço de algo tecnológico e inovador.

Ryan Coogler e toda a equipe inseriram esses temas com muita habilidade no seu texto e garantiram indicações muito merecidas, considerando tudo que tem cercado a Academia nos últimos anos. Isso inclui até mesmo a agora falecida proposta de abrir espaço para filmes populares, já que essa tentativa comprova que Pantera Negra é justamente o filme que todos queriam. O pacote completo de impacto social, lobby, qualidade e milhões de fãs alucinados dispostos a dar audiência para a premiação. É tudo o que o votantes precisavam e, justamente por isso, ele ter entrado como Melhor Filme não tira nem um pingo da força do longa de Christopher Nolan. E também não muda o fato de Cavaleiro ser o melhor filme de super-herói de todos os tempos.

 

 

Uma coisa não tem nada a ver com a outra e essa métrica pode ser expandida para a discussão que abriu esse texto com ainda mais facilidade. Porque, no final das contas, Se a Rua Beale Falasse ter sido esnobado não significa nada em relação a qualidade do filme, assim como a possibilidade dele ser melhor que Moonlight não tira o valor deste. Ou melhor, não muda o fato de que este ganhou seu prêmio com merecimento, graças a uma mistura perfeita e certeira de qualidade, impacto social e timimg. São filmes que, mesmo dividindo o mesmo diretor, possuem narrativas diferentes e foram lançados em momentos diferentes. Insistir em comparações como essa só demonstra uma grande pobreza no seu argumento, afinal tudo que você está fazendo é se apoiar no passado, jogar todos os outros fatores citados no lixo e ignorar que a sociedade – a a Academia – tem evoluído com o tempo.

Então, diante disso, a única conclusão possível é que vale tentar defender que Pantera Negra não merecia alguma indicação ao Oscar e blá blá blá, mas pode ser melhor procurar argumentos melhores do que esses. A não ser que o apego a essas comparações seja uma tentativa estúpida de manter seu preconceito escondido em pseudo argumentos, porque aí a história é outra…