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Especial

Especial: O Oscar e sua busca por popularidade

Great (or not) changes are coming...

9 de agosto de 2018 - 14:51 - Flávio Pizzol

Já faz um tempo que o Oscar vem sofrendo com protestos, erros de bastidores e falta de audiência. Também já faz um tempo que os organizadores tentam lidar com esses problemas, abrindo espaço, por exemplo, para a atualização através da seleção de novos votantes marcados pela diversidade de nacionalidade, raça e sexo. Seguindo esse mesmo caminho, a Academia divulgou hoje três novidades que, apesar de estarem programadas apenas para 2020, já merecem nossa atenção.

Então, antes de continuarmos, as mudanças anunciadas são:

 

  • Uma nova categoria está sendo projetada em torno de realizações em filmes populares;

  • Definimos uma data de transmissão anterior para 2020: marque seus calendários para 9 de fevereiro;

  • Estamos planejando uma transmissão de três horas mais globalmente acessível;

 

Todas essas decisões estão claramente ligadas aos problemas de audiência, sendo as duas últimas questões bem básicas e simples de compreender. Apesar dessa não ser a única mudança necessária, planejar uma apresentação mais acessível, rápida e antecipada no calendário pode, sem nenhuma dúvida, ajudar a alavancar o número de espectadores pelo mundo à fora. O único efeito colateral sugerido até o momento foi a diminuição dos números musicais ou da quantidade de categorias técnicas exibidas, mas não precisamos fazer nenhuma tempestade nesse copo d’água. Pelo menos, não ainda…

Afinal, o tópico que realmente motivou esse texto foi o nebuloso anúncio de uma nova categoria que inicia a postagem da Academia. As novidades acerca disso devem demorar, então, se não podemos esclarecer o que passa na cabeça desses seres hollywoodianos, vamos no mínimo discutir alguns espaços em branco e problematizar um pouquinho…

Em primeiro lugar, precisamos nos perguntar o que significa ser um filme popular? A resposta mais óbvia seria ter características de “blockbuster“, mas a verdade é que esse termo usado como sinônimo de um filme feito para arrastar multidões até o cinema não possui características fixas, nem ajuda a restringir o que Academia quer dizer com isso. Podemos estar falando sobre um filme que está na boca do povo, um que quebrou recordes de bilheteria ou até mesmo um filme horroroso que foi produzido com o objetivo citado acima, porque, no final das contas, um filme popular não é necessariamente um filme bom.

Como estamos falando de uma marca extremamente valiosa que define os filmes que supostamente “merecem” ser vistos há mais tempo que a maioria dos possíveis leitores desse texto tem de vida, podemos imaginar que a qualidade do produto com um todo será levada em consideração. No entanto, apesar disso, essa garantia ainda não explica nenhuma das perguntas que fizemos e pode até mesmo ajudar a criar algumas novas. Afinal, se esse tal filme popular que vai ser indicado ao Oscar tem qualidade suficiente para receber um selo de comprovação tão importante assim, porque não poderia estar concorrendo nas categorias já existentes? Será que um “filme-pipoca” de grande qualidade vai poder ser indicado na sua categoria própria e nas normais ao mesmo tempo?

Mad Max – Estrada da Fúria é um exemplo de filme classificado como blockbuster (muito mais pelo seu estilo do que pela sua bilheteria mediana, deixando a classificação ainda mais difícil) que alcançou indicações quase heroicas nas categorias principais. Esse feito poderia ser repetido com essa nova categoria na mesa? Por agora podemos apenas absorver o questionamento e respirar fundo, porque essa discussão – bastante complexa – irá retornar nesse mesmo post em breve.

Antes disso, entretanto, vamos seguir a mesma linha de raciocínio para chegar a outra palavra que precisa ser explicada. Um termo em inglês que foi usado pela publicação original: achievement. Essa palavra que pode ser traduzida como realizações ou conquistas entrega algumas possíveis pistas acerca dessa nova categoria, mas ainda mantém as coisas extremamente nebulosas graças a amplitude que pode alcançar. Mas calma que vou tentar explicar…

O uso desse termo específico pode indicar que a Academia não está falando de uma categoria principal, como um “melhor filme popular” ou algo assim, mas de algo mais voltado para conquistas relacionadas a esse tipo de produção que não conseguimos definir. O problema é que essa possibilidade é justamente o que traz a amplitude dos significados dessa palavra de volta à tona, visto que uma conquista pode englobar desde uma captura de movimento revolucionária até o beijo mais surpreendente (bem MTV Movie Awards mesmo…). É claro que o Oscar deve acabar caindo mais pra primeira opção por conta, mais uma vez, do valor de sua marca, porém isso não afastaria a premiação de mais um questionamento muito importante: porque uma conquista tecnológica ou artística como uma captura de movimentos não pode ser enquadrada e aceita em categorias já existentes, como Melhores Efeitos Visuais ou até mesmo Melhor Ator?

A Academia está promovendo essa criação como uma ferramenta voltada pra inclusão (um pedido antigo da indústria…), mas fazer essa separação é a mesma coisa que dizer que esses tais “filmes populares” são inferiores às grandiosas produções artísticas que sempre foram indicadas ao Oscar. Eu mesmo admito que cai nessa armadilha e fiquei animado logo que li a notícia, porque pensei instantaneamente que seria mais fácil ver filmes como Logan ou Planeta dos Macacos figurando na noite mais importante do cinema mundial. Foi só depois de uma pequena discussão com a galera da redação que eu me toquei da real natureza dessa proposta.

Eles estão adicionando filmes populares para instigar o povão a assistir a premiação (assim como aconteceu no ano de Mad Max) com a desculpa de estarem atendendo um desejo antigo dos cinéfilos, mas na verdade estão pegando um caminho totalmente oposto. Eles estão separando os ditos filmes de arte que merecem ser premiados dessas outras paradas aí que o povo assiste, ignorando que tais filmes também tem qualidade suficiente para andar em pé de igualdade com aqueles que nós costumamos chamar de “filme de Oscar”.

Com esse anúncio, eles estão deixando claro não vão aceitar que a captura de movimentos é basicamente uma maquiagem digital ou que o trabalho de atuação realizado Andy Serkis pode ser igualado em certos aspectos a qualquer outro nome já indicado. Eles estão fechando os olhos para o fato de que, além da diferença de escala entre as produções, a construção do jeito de andar e falar de Caesar é tão complexa (ou até mais, se pensarmos em um humano atuando como outra espécie) quanto a imitação da gagueira de um rei. Indo mais longe um pouquinho, se Eddie Redmayne venceu o Oscar por toda a dificuldade de compor os movimentos de Stephen Hawking, porque Serkis não poderia ser agraciado com a mesma honra por ficar horas e horas naquela posição absurda interpretando um macaco?

Se quisermos ir além e forçar um pouco a barra, podemos questionar inclusive a contradição dessa separação dentro do próprio Oscar. Pensem comigo: se Mad Max – Estrada da Fúria, que chegou nas cabeças com grandes chances de ganhar, é um filme popular que, consequentemente, não merece estar na mesma categorização dos filmes dramáticos e pesados, nós podemos questionar a credibilidade de uma Academia que já incluiu (contando com o próprio Mad Max) filmes populares anteriormente. Ou eles esqueceram de Toy Story 3 e tantos outros exemplos que poderiam ser citados aqui…

No final das contas, o fato é que muita coisa em torno desse anúncio nebuloso e possivelmente problemático precisa ser explicada. E, de certa forma, precisa ser feito com uma precisão milimétrica, porque a comprovação dos devaneios presentes nesse texto poderiam sim jogar o feitiço contra o feiticeiro e acabar prejudicando ainda mais a credibilidade (e a audiência) do Oscar. Eles precisam tomar muito cuidado para não ignorar que, na verdade, toda obra cinematográfica faz parte de um mesmo saco, chamado de sétima arte, que tem espaço para diversos tipos de farinha diferentes. Em outras palavras: é óbvio que existem algumas diferenças de escala, gênero, estilos, dificuldades de produção e até mesmo de conteúdo, mas isso não muda o fato de que tudo é cinema. Ouviu, Sra. Academia?