AODISSEIA
Especial

Especial: Maher v Lee – A Origem da Estupidez

Uma aula de babaquice e desrespeito com Bill Maher

19 de novembro de 2018 - 23:55 - Flávio Pizzol

It’s time!

Do meu lado direito, temos o desafiante da noite, Bill Maher: 62 anos, comediante e apresentador de televisão pouco conhecido internacionalmente, 38º maior nome da história do do stand up, segundo o Comedy Central. Do outro lado do ringue, temos Stan Lee: 95 anos de pura criatividade, criador de centenas de personagens que mudaram vidas, cameos consagrados em vários filmes e séries, inspiração para 100% das pessoas que trabalham com algo ligado ao universo dos quadrinhos. Um duelo injusto de um comentarista político cuja a influência termina na América contra um legado que vai ficar para a eternidade.

Brincadeiras à parte, o segundo faleceu há poucos dias e, desde então, eu estou procurando palavras para falar sobre a importância dos quadrinhos, da Marvel e, principalmente, do Homem-Aranha na minha vida. Não conseguia pensar em algo que chegasse aos pés de uma lenda e já tinha quase desistido quando vi os comentários estúpidos do tal Bill Maher (um cara que eu mal conheço, mas já desprezo pacas) sobre os lutos e homenagens que seguiram o falecimento de Lee. Um texto cheio de bostas que merece ser esmiuçado e contestado por honra a herança que Stan deixou para a gente.

1º TRECHO:

“O cara que criou o Homem-Aranha e o Hulk morreu e os Estados Unidos está de luto. Profundo luto pelo homem que inspirou milhões a, não sei, assistir a um filme. Acho. Alguém no Reddit postou ‘sou incrivelmente grato por ter vivido em um mundo que incluía Stan Lee’. Pessoalmente, sou grato por viver em um mundo que tem oxigênio e árvores, mas cada um é cada um.”

Maher já começa seu “artigo” reduzindo Stan a criação de dois personagens, ignorando a quantidade de heróis criados e o quanto cada um deles foi importante para o mundo do entretenimento. Stan Lee não é só o criador do Homem-Aranha e do Hulk. Ele é o responsável por uma verdadeira revolução nos quadrinhos que aumentou o número de leitores e desembocou na realidade temos hoje na literatura, na televisão, no cinema e na arte como um todo. Então, sim, os EUA e o resto do mundo está de luto por um motivo muito justo que começa nesse ponto e ainda passa pela importância pessoal que cada herói teve para os leitores. Seu legado definitivamente não merece ser simplificado ao ato de “inspirar milhões a […] assistir um filme”, porque Stan Lee e suas histórias fizeram muito mais do que isso por tantas pessoas que se sentiram excluídas (inclusive eu) em algum momento da vida.

No entanto, antes de falar disso, temos que da incrível afirmação que encerra essas linhas: “sou grato por viver em um mundo que tem oxigênio e árvores”. Todo mundo (ou quase, pelo menos) também se importa e isso não nos proibi de também ligar para a morte de alguém que marcou nossa vida. Lembro, por exemplo, do tanto de texto do mesmo tipo desse do Maher que criticaram a morte do cantor Cristiano Araújo há uns dois anos e quase todos eles eram baseados no fato do cara ser um cantor sertanejo. Não importa se você canta brega, escreve quadrinhos ou fala asneira; se você marcou a vida de alguém, é normal e até necessário ficar de luto. E, ao mesmo tempo, você também pode ser grato pelas árvores e pelo oxigênio, porque uma coisa não exclui a outra.

2º TRECHO:

“Agora, não tenho nada contra quadrinhos – eu os leio agora e lia quando criança. Mas a suposição que todos tinham na época, tanto adultos, quanto crianças, era que os quadrinhos eram para crianças. E, quando você crescia, você passava para os livros de gente grande, sem figuras.”

Não sei nem como começar a falar sobre esse trecho, porque é muita bosta e contradição por linha quadrada. Vamos do cara que está criticando os quadrinhos dizendo que lê os mesmo até hoje até a ideia idiota de que quadrinho é coisa de criança, passando por uma suposição que ele mesmo admite ser datada. Ou seja, além de construir conscientemente seu texto em um argumento em algo que ficou no passado, ele deixa claro que não entende nada de quadrinhos e toda a sua linha editorial voltada para adultos. É tipo uma pessoa idiota que acha que toda animação é feita para crianças…

Mas alguns podem tentar dizer: “Ah, mas é uma piada”. Bem, piadas são gêneros textuais que, como qualquer outro, possuem características, padrões e regras próprios, e não é o fato do autor ser um comediante ou dar uma risada no final que fazem com que qualquer texto seja uma piada. Esse texto não foi escrito como uma piada e, se esse era o objetivo de Maher, ele errou feio, errou rude.

3º TRECHO:

“Mas, de 20 anos para cá, alguma coisa aconteceu – adultos decidiram que não queriam largar as coisas de criança. E, então, fingiram que quadrinhos são literatura sofisticada. E, como os Estados Unidos têm mais de 4,5 mil faculdades – o que significa que precisamos de mais professores do que temos de pessoas inteligentes -, alguns idiotas se tornaram professores escrevendo teses com títulos como ‘Otherness and Heterodoxy in the Silver Surfer’ [Alteridade e Heterodoxia no Surfista Prateado, em tradução livre]. E, agora, quando adultos são forçados a fazer coisas de adultos, como comprar seguro de um automóvel, eles chamam de ‘adulting’ e agem como se fossem uma luta enorme.”

Só a continuidade de um pensamento retardado e retrógrado de alguém que pensa que adultos só podem ver coisas de adulto ou, mais uma vez, que quadrinhos não podem ocupar esse lugar. Quadrinhos são uma leitura sofisticada (vide Watchmen ou Clube da Luta 2) sim, caro senhor Maher, e mesmo aqueles cujo o objetivo é o puro entretenimento tem seu valor. Tiram esse adulto que trabalhou o dia inteiro do mundo podre onde escutam você falando e levam para um lugar onde o altruísmo e a aceitação são regras básicas.

Já sobre as teses, não vou falar muito pra não perder as estribeiras e xingar no resto do texto. Como uma pessoa supostamente inteligente não enxerga o valor de inserir algo os quadrinhos em temas mais complexos e dignos de um professor de faculdade só melhor a didática do material, prende a atenção dos leitores com a quebra de expectativa e ainda conquista alguns jovens que jamais teriam vontade de aprender aquilo. E eu nem precisei me aprofundar pra chegar nessa conclusão cheia de coisas simples que alguém que trabalha com storytelling deveria saber pelo menos por alto.

4º TRECHO:

“Não estou dizendo que necessariamente nos tornamos mais idiotas. A média dos Joe é mais inteligente em vários aspectos do que quando ele estava, digamos, nos anos 1940, quando uma boa noite envolvia um curta dos Três Patetas e um musical da Carmen Miranda. O problema é que estamos usando nossa inteligência em coisas estúpidas. Não acho que seja exagero dizer que Donald Trump só conseguiria ser eleito em um país que pensa que quadrinhos são tão importantes”.

E aí chegamos, finalmente, o final desse monte de asneira que ele chamou de texto só pra pisar nos sentimentos dos outros e conseguir mais um pouquinho de fama. Uma ideia baixa e horrorosa que anula os sentimentos de pessoas por outra pessoa em troca de uma polêmica. Uma ideia baixa que, como eu disse antes, só visa tacar os outros pelo seu gosto, ignorando o fator ser humano. Ignorando que por trás desse legado que não sofrerá nenhuma arranhão com essas palavras, estava um ser humano chamado Stan Lee. Um homem que como qualquer outro merece respeito.

Entretanto, depois de vomitar tanta bosta, ele guarda o melhor pro final. declarando que Trump foi eleito porque os americanos acham que quadrinhos são importantes e mostrando de uma vez por todas que não entende dessa arte. Ou que, no mínimo, seguiu o mesmo caminho dos eleitores dos Trumps da vida e leu sem entender, interpretar, se aprofundar. Algo muito possível para alguém que acha que quadrinhos são bobos e que perdeu toda as mensagens boas que já foram citadas nesse texto. Pensa que está lendo por ler e que não existem sentidos escondidos nesse tipo de literatura. Assim como também não devem existir em contos de fada e fábulas né? Afinal, são coisas de criança e adulto lê livros de política sem figura. Eu leio ambos regularmente e garanto que as HQ’s são as únicas que me ensinaram a ser uma pessoa que não escreve esse tipo de coisa. Ou seja, um ser humano melhor.

Bill Maher teria muito a aprender se realmente lesse os quadrinhos. Talvez aprenderia até mesmo a não ter inveja da quantidade de fãs de Stan Lee e quem sabe focaria em marcar a vida de alguém com mensagens positivas. Talvez assim ele aceitaria que, como disse Neil Gaiman, “mais pessoas se importam com a morte de Stan Lee do que sobre Bill Maher estar vivo”.Uma verdade irrefutável que não vai mudar com três parágrafos escritos por um comediante que nunca chegará aos pés de uma lenda como Lee. Excelsior!