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A comédia em sua forma mais ácida e pessimista


Qual é o aspecto mais importante de uma comédia? A primeira resposta que provavelmente vem a cabeça de muitas pessoas é simplesmente fazer rir, mas o gênero também ganha ainda mais importância e peso quando consegue fazer o espectador pensar. Não existe nada melhor do que assistir uma peça como Acorda pra Cuspir, aproveitar o riso momentâneo e ainda se ver refletindo sobre momentos comuns que nos cercam no dia a dia.

Usando um texto do americano Eric Bogosian como base, é justamente isso que o comediante Marcos Veras faz ao dar vida ao personagem José Silva. Um nome comum que permite que o ator o utilize apenas como fio central entre vários personagens e histórias com o singelo objetivo de fazer uma leitura divertida e ácida sobre temas atuais e situações bizarras que muitas vezes passam despercebidas na correria da vida.

O roteiro consegue alcançar esses objetivos de maneira muito simples e forte, tirando boas risadas da platéia quando aborda o cotidiano da maneira mais exagerada e absurda possível e fazendo pensar muito mais do que o esperado sobre os meios de comunicação, a política, as diferenças nas classes sociais, a violência, a sexualidade, a religião e até sobre a própria profissão do ator em momentos bem metalinguísticos.

A grande questão é que boa parte da acidez do texto de Acorda Pra Cuspir está no seu próprio pessimismo exagerado sobre a vida e isso pode chocar bastante antes de fazer pensar. Não é uma visão nova ou inédita sobre nenhum desses temas, mas o formato pode surpreender aqueles que foram ao teatro esperando só uma peça cheia de boas piadas. Inclusive, algumas pessoas se incomodaram o suficiente para sair e acabaram perdendo uma apresentação que fica cada vez mais engraçada com o passar do tempo.

acorda pra cuspir

Claramente, essa carga mais dramática também é o que exige mais concentração de um protagonista que já está mais do que acostumado com o universo da comédia. Marcos Veras entrega momentos de comédia que lembram um pouco as peças de stand up, faz uma pequena homenagem ao Porta dos Fundos e realmente surpreende nas cenas onde o conteúdo é mais pesado e o humor um tanto quanto indigesto.

A conclusão é um monólogo ágil e intenso que é sim muito engraçado e divertido. Entretanto, é impossível negar que a maior força do texto está nas entrelinhas e na acidez das palavras proferidas no palco, então a dica é assistir com a mente aberta. Pode ter certeza que as risadas serão constantes, mas o mais importante é realmente refletir sobre o espetáculo sem que o protagonista tenha que morrer em um acidente de avião.


OBS 1: Acorda Pra Cuspir fez sua estréia nacional em aqui em Vitória, mas vai fazer uma pausa de dois meses antes de ser apresentada com frequência. Quem perdeu a oportunidade aqui pode viajar pra São Paulo e assistir durante os meses de maio e junho.

OBS 2: A cenografia também merece algum destaque, já que ajuda (e muito) o protagonista durante a apresentação do monólogo.

OBS 3: O blog não tem uma sessão de teatro, mas eu quis dar essa moral pra peça.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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