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Filmes

Entre Facas e Segredos: Um mistério subversivamente divertido

Uma deliciosa homenagens aos mistérios literários de Agatha Christie.


13 de dezembro de 2019 - 16:00 - Flávio Pizzol

Comandado por diversas estrelas de Hollywood, Entre Facas e Segredos homenageia Agatha Christie de maneira legítima, subversiva e absurdamente divertida.


Considerada a Rainha do Crime com todos os méritos, Agatha Christie atingiu a marca de dois bilhões de exemplares vendidos com seus quase 80 livros de mistério. Se juntarmos esse número com os milhões de exemplares vendidos por Sir Arthur Conan Doyle e tantos outros autores que se aproveitaram do formato “whodunit” (quem matou?, em tradução literal) para alcançar o estrelato, podemos entender que as histórias de mistério fazem parte da cultura de qualquer sociedade. Não é à toa que tal recurso narrativo foi transferido para outras mídias, popularizado pelas novelas e transformado em algo banal até chegar nas mãos Rian Johnson com seu inesperado Entre Facas e Segredos.

O longa, que se desenrola praticamente todo no mesmo cenário, acompanha um famoso detetive particular durante a investigação do assassinato do grande escritor de livros de mistérios, Harlan Thrombey (Christopher Plummer). Para isso, ele precisa analisar pistas, colher depoimentos e enfrentar diversas camadas da excêntrica, gananciosa e extremamente suspeita família do morto.

Essa trama, como a sinopse escancara, faz com que Entre Facas e Segredos seja um desses clássicos “whodunit” que se inspiram sem medo em Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e todos os outros autores que enveredaram por caminhos tão novelescos. Isso não é nenhum problema, mas poderia se tornar graças a quantidade de vezes que tal recurso já foi utilizado como peça central de alguma narrativa. Dessa maneira, por mais o cinema moderno não tenha aproveitado o formato de maneira tão clara, nossos principais objetos de análise acabam sendo os caminhos que Rian Johnson (Star Wars – Os Últimos Jedi) escolheu nessa missão de criar algo novo dentro de um modelo explorado de forma tão exaustiva e padronizada.

entre facas e segredos

Em primeiro lugar, ele constrói todo o filme como uma grande sátira ao gênero. Não esconde as homenagens, mas assume o papel de um fã obsessivo que leu todas os livros e decorou todas as soluções possíveis. Isso faz com que ele visite esse mesmo universo com um olhar mais subversivo, descobrindo que o segredo não está em criar um mistério complexo, e sim na possibilidade brincar com aquilo o público considerada inerente. Logo, o que ele faz é tirar sarro dos clichês e inserir peças tão absurdas que se transformam em comédia nas entrelinhas. Ter um personagem que vomita sempre que mente dentro de uma história onde todos deveriam ser mentirosos por natureza talvez seja o melhor exemplo dessa escolha.

Em segundo lugar, Johnson entende que a ordem dos fatores influencia sim no resultado, mexendo na estrutura padrão do “whodunit” para revelar algumas cartas decisivas antes do fim do jogo. É claro que o público entende, de acordo com o próprio gênero, que nem todas as respostas foram dadas, mas Entre Facas e Segredos bate tanto na mesma tecla que convence quem está assistindo sobre a possibilidade do filme ser uma grande piada.

Com os precedentes abertos pela satirização dos clichês, o espectador também se abre para uma nova gama de possibilidades enquanto o texto preenche o segundo ato com certos temas universais. E o curioso é que, a partir desse ponto, o longa pode ser realmente interpretado como um conto sobre ambição recheado por críticas sociais nada sutis. Um verdadeiro estudo de classe que usa o absurdo como combustível para revelar o que está no íntimo dos tipos egoístas e preconceituosos que ocupam a “nata” da sociedade.

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Em terceiro lugar, quando chega na hora de grande revelação, o roteirista comprova (de uma por todas) que é o mestre da quebra de expectativa. Esse é o momento em que Rian Johnson amarra seu texto com primor, justificando as respostas supostamente entregues no primeiro ato, as pistas plantadas em diálogos que tinham tudo pra passar despercebido e as construção detalhista das caricaturas estereotipadas que preenchiam seu tabuleiro de Clue. É o instante em que a subversão entra em cena para anunciar que a revelação do assassino não é o mais importante. Rian entende que essa identidade pode ser antecipada por uma parcela do público, logo foca seu trabalho na manipulação da nossa percepção.

Propositalmente, ele faz com que Entre Facas e Segredos seja muito mais sobre as possíveis motivações, as personalidades desprezíveis que controlam a sociedade e outros pormenores que cercam o crime em si. É por isso que o longa cresce tanto quando entra naquela típica cena de revelação onde o detetive descarta suspeitos e revela todas as amarrações.

Porque, no final das contas, esse é o ponto em que o lado diretor de Rian Johnson – que até então havia se resumido a conduzir o olhar do espectador, manter o ritmo e brincar com estereótipos – rouba a cena para deixar claro que o assassinato era de fato o menor dos problemas. Bebendo de fontes que parecem ir de Scooby-Doo até Parasita, ele entrega um momento cheio de reviravoltas que surpreende, tira o fôlego e encarra a jornada numa nota mais do que perfeita.

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Tudo brilhantemente orquestrado ao lado de um elenco estrelar e afiado que entende suas respectivas funções na narrativa com perfeição. A começar pelo fato deles saberem que não vão ter espaço para brilhar como protagonistas indiscutíveis, visto que estamos diante de um filme cuja essência está totalmente no seu texto. Ainda assim, todos se entregam aos seus papéis caricatos, abraçando o exagero, cedendo seu espaço para o próximo com humildade e se divertindo com os absurdos que habitam a casa de Harlan Thrombey.

Eu sei que isso parece diminuir a importância de nomes como Jamie Lee Curtis (Halloween), Michael Shannon (A Forma da Água) e Toni Collette (Inacreditável), mas a verdade é totalmente contrária. O resultado buscado por Rian Johnson depende muito desse casting disposto a aceitar seu espaço e expôr o humor escondido no roteiro de maneira mais descarada, assim como fazem os três protagonistas.

Daniel Craig (007 – Operação Skyfall), por exemplo, está claramente se divertindo com o sotaque caipira e as manipulações de seu Benoit Blanc. Chris Evans (Expresso do Amanhã), por outro lado, se despiu do seu lado bom moço para mergulhar com excelência na figura do americano escroto que votaria no Donald Trump. E, por fim, a cubana Ana de Armas (Blade Runner 2049) acerta no tom absurdo de sua personagem e rouba todos os holofotes como a empregada “sem nacionalidade” que evidencia o caráter por trás da produção. Inclusive, ela é a dona da melhor cena do filme com sua caneca de café preparada para definir as novas regras do tabuleiro.

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Regras essas que se tornam a essência de um longa de mistério que sabe reverenciar os grandes clássicos ao mesmo tempo em que subverte as engrenagens para tirar algo novo e inesperado do formato. Tudo embrulhado por esse olhar satírico que coloca o dedo nas feridas da sociedade atual e arranca risadas dignas de uma indicação ao Globo de Ouro como comédia. Talvez esse combo faça com que Entre Facas e Segredos beire o absurdo, porém a graça está exatamente na forma como um gênero atravessou décadas com essas obviedades na bagagem até que alguém manipulasse tudo desse jeitinho que cria um estudo ético divertido, hipnotizante e surpreendente.

Tenho certeza que Agatha Christie estaria tanto honrada com a homenagem, quanto orgulhosa por ter inspirado Rian Johnson na criação de uma das melhores obras do ano.