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Com uma linguagem moderna e vários ingredientes de sucesso, Enola Holmes é uma ótima opção para quem quer se divertir com a família do grande Sherlock


Convenhamos que Sir Arthur Conan Doyle nunca se preocupou muito com a construção de um background emocional ou familiar de Sherlock Holmes. Seus (ótimos) contos e romances sempre se sustentaram apenas numa figura metódica e extremamente dedutiva que resolvia mistérios enquanto ignorava a maior parte das demonstrações de afeto dos seus poucos amigos.

Um fato que só mudou após a Primeira Guerra Mundial, quando a perda de alguns familiares o motivou a escrever histórias mais emotivas. Nessa última fase de sua carreira, Conan Doyle começou a adicionar novas camadas que incluíam tanto sentimentos complexos, quanto relações familiares mais desenvolvidas. Diferenças tão profundas que motivam processos de direitos autorais até hoje.

No entanto, mesmo nesse período em que Mycroft ganhou muito espaço, Enola Holmes nunca existiu. Ela é uma criação exclusiva da autora Nancy Springer para a série de livros conhecida como Os Mistérios de Enola Holmes. Algo que precisamos deixar claro para ressaltar que não estamos diante de uma adaptação de Conan Doyle, mas de uma reinterpretação inédita do cânone de Sherlock Holmes.

Enola Holmes

Eu vi muita gente falando antes da estreia do longa que “o Sherlock Holmes dos livros resolveria o mistério do filme em dois segundos” (volte e releia essa frase com sua voz mais esnobe). Isso é um fato. É claro que deram uma diminuída no poder dedutivo de Sherlock aqui, mas isso não pode ser considerado um problema justamente porque estamos diante do Sherlock de Nancy Springer.

Um Sherlock que é deixado de lado para que sua irmã, a verdadeira protagonista da história, possa brilhar no filme que possui o seu próprio nome no título. É uma reinvenção (ou uma nova versão, se preferir) e para aproveitá-la você precisa deixar toda a bagagem saudosista no trem e pular dele abraçado com essa trama diferente que foca, sem nenhuma dúvida, no público infanto-juvenil.

Um detalhe que, inclusive, pesa sim na avaliação de muitos elementos do filme.

Claro que essa abordagem adolescente não pode ser usada como justificativa, para problemas como o excesso de coincidências que preenchem a narrativa, a maneira óbvia e sem graça como o mistério é resolvido ou a duração desnecessária. Ainda assim, é algo que influencia diversas decisões estilísticas.

Pode colocar nesse pacote a construção simplória do mistério, o uso recorrente (e até exagerado) dos diálogos com o espectador e a organização de outros ingredientes que respondem ao algoritmo da Netflix quando o objetivo é agradar tal público.

Enola Holmes

Em outras palavras: é meio inútil reclamar que o romance teve mais foco do que o lado detetivesco, porque Enola Holmes está mais preocupada com a apresentação de uma protagonista antenada do que com a solução de um mistério político supercomplexo.

Repito que você não está dando play em um filme do Sherlock Holmes. E entender isso ajuda muito na hora de ajustar as expectativas em relação a um filme que tem todos os problemas citados acima, mas diverte bastante dentro da sua proposta geral.

O que, nesse caso, significa acompanhar a jornada de autodescoberta de Enola Holmes depois do desaparecimento repentino de sua mãe. Ela precisa escapar dos ideais conservadores de Mycroft, sobreviver sozinha em Londres, encontrar sua matriarca e ainda lidar com o caso de um jovem nobre que cruza seu caminho graças a um acaso do destino.

Admito que tenho algumas dúvidas em relação a forma como o filme desenvolve o seu discurso feminista. O movimento sufragista é parte decisiva de uma trama que repete diversas vezes que Enola pode ser quem ela quiser, enquanto o conservadorismo se ergue como um vilão através de figuras como a educadora interpretada por Fiona Shaw (Killing Eve). Porém, ao mesmo tempo, o texto de Jack Thorne (His Dark Materials) parece insistir na necessidade de validação masculina em certos momentos que a protagonista divide com Sherlock ou com o Lorde Tewkesbury.

Enola Holmes

Não sei se o mesmo acontece nos livros, mas isso surge como um empecilho meio incoerente na aventura da protagonista. Uma pedra no meio do caminho que, por sorte, Enola Holmes também supera sem grandes dificuldades. Isso porque, mesmo com os deslizes, a personagem possui uma força libertária muito mais forte em sua essência.

Um ponto positivo que certamente passa pela postura de Millie Bobby Brown (Stranger Things). Participando da produção como atriz e produtora, a jovem carrega o filme nas costas, construindo uma protagonista com potencial pra liderar franquias, se destacando nas cenas de ação e deixando claro que não vai ficar marcada apenas por seu trabalho como Eleven.

Sua Enola Holmes é o pilar que sustenta a produção, já que o resto dos coadjuvantes não passa de peças unidimensionais que ajudar a avançar com a trama. O destaque acaba ficando com o Mycroft babaca e esnobe de Sam Claflin (Um Amor, Mil Casamentos); com um Sherlock mais empático que, mesmo demorando pra convencer, se encaixa na classe de Henry Cavill (The Witcher); com a maternidade onipresente de Helena Bonham Carter (The Crown); e com o par romântico convincente de Louis Partridge (Paddington 2).

Enola Holmes

No entanto, apesar do desenvolvimento frágil, eles coexistem e funcionam muito bem dentro dessa narrativa marcada por uma linguagem ágil e moderna. Mesmo fazendo sua estreia em longas, Harry Bradbeer (Fleabag) faz um trabalho confortável e certeiro com os recursos estilísticos, com o humor visual e com o charmoso clima vitoriano.

Elementos que se encaixam de forma leve e aquecem o coração do espectador, excluindo apenas aqueles conservadores (boomers, na linguagem jovem) que não conseguem deixar as histórias de Arthur Conan Doyle de lado.

Eu até entendo, depois de fazer algum esforço, que esse filme não representa as histórias de detetive que marcaram a infância dessa galera. Mas acho idiota o fato deles não pensarem que a proposta pode não ser pra eles. Que seus filhos (ou qualquer outro parente mais novo) podem curtir muito mais essa nova abordagem do que uma versão clássica de Sherlock Holmes.

Afinal de contas, é mirando nessa galera que Enola Holmes entrega momentos de diversão e entretenimento que valem a sessão. Mais do que isso: momentos cheios de potencial que merecem ser o começo de uma franquia.


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Enola Holmes (2020)

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Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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1 Comment

  1. Crítica excelente, texto muito bem escrito. Achei muito interessantes as informações trazidas. Obrigada! 😉

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