AODISSEIA
Filmes

Doutor Sono segue seu título com uma precisão sinistra

O começo lento e inchado prejudica um longa cheio de potencial.


11 de novembro de 2019 - 20:18 - Flávio Pizzol

Prejudica por um primeiro ato inchado e extremamente lento, Doutor Sono segue seu título com precisão até chegar num ápice que faz jus ao material original.


Independente de estarmos falando de remakes, continuações ou meras revisitações, mexer em obras clássicos sempre parece ser como colocar a mão em um vespeiro.

O responsável tem que ter sangue-frio para lidar com fãs incompreendidos, adaptar um material-base reconhecido por tanta gente e colocar sua voz sem desonrar o que já foi feito.

Tal fardo fica um bocado mais pesado quando se trata de O Iluminado, já que livro e longa conquistaram seu público a partir de caminhos mais divergentes do que o normal até ganharem status cult de um lado; e uma segunda parte chamada Doutor Sono no outro.

Isso nos leva diretamente ao filme, visto que um dos maiores desafios do diretor e roteirista Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill) é adaptar o que Stephen King seguiu nos livros sem ignorar os caminhos escolhidos por Stanley Kubrick no longa que apresentou a história original pro grande público.

Em outras palavras: misturar esses dois universos da maneira mais honesta, coesa e respeitosa possível, enquanto mostrava os conflitos da versão adulta e alcoólatra de Danny Torrance voltando à tona quando uma garota com poderes similares aos seus começa a conversar com ele.

 

 

Esse é o pontapé inicial para um embate entre passado e presente que normalmente resulta em premissas com potencial.

O problema aqui é que Doutor Sono entrega um primeiro ato absurdamente longo, cansativo e recheado por cenas que poderiam ser deletadas ou, pelo menos, diminuídas. E, se muita coisa soa irrelevante desde o início, quando a semente plantada chega algum lugar vem a prova de que todo aquele tempo de tela realmente não era necessário.

u entendo sim que parte desses momentos seja incluído com o objetivo de honrar o livro, mas a ideia esbarra nas diferenças entre as mídias e escorrega feio.

O ritmo desses primeiros quarenta minutos estão entre uma das coisas mais chatas e sonolentas (ironicamente) que eu vi no ano e, mesmo gostando muito dos trabalhos anteriores de Flanagan, preciso botar a culpa em quem foi creditado como roteirista, diretor e editor do longa.

E aí, sendo mais específico, é possível perceber que a missão de reunir os dois universos foi a perdição do diretor.

A necessidade de saciar a sede dos fãs do livro o obrigaram a colocar mais peças do que precisava no tabuleiro, enquanto o fantasma da adaptação cinematográfica – que acaba sendo mais famosa que a versão literária – espreitava o caminho todo o caminho até o Overlook.

 

 

Flanagan até consegue resolver a parte visual dessa relação com alguma consistência, porém não consegue evitar que Doutor Sono demore demais pra engatar e perca a atenção do espectador como consequência.

Eu fiquei com muito sono, bem mais disperso do que o normal (fazia um bom tempo que não sentia vontade de pegar o celular pra fazer o tempo passava mais rápido) e acabei “abandonando” o filme.

Mesmo quando o segundo ato avança no tempo e começa a dar corpo pra trama, a situação permanece igual, porque a vontade de acompanhar aquela história ou torcer por aqueles personagens já havia partido há muito tempo.

O longa só consegue se levantar e realmente recuperar a atenção do público naqueles quarenta minutos finais que – como havia sido revelado nos trailers – marcam o retorno dos personagens ao hotel que preencheu a mente dos fãs por tanto tempo.

A partir desse ponto as referências passam a funcionar perfeitamente entre a repetição de planos específicos e a ressignificação de elementos icônicos; o roteiro amplia a mitologia de ambas as mídias sem nenhuma enrolação; Flanagan comprova seu talento como diretor de terror depois de conduzir os dois atos com segurança demais; e o elenco encontra o caminho para brilhar de verdade.

 

doutor sono

 

Ewan McGregor (Christopher Robin) mergulha nas camadas geradas pelos conflitos de Danny, carrega boa parte do filme nas costas e surpreende nas cenas em que transita pelas “facetas” do personagem. Rebecca Ferguson (Missão: Impossível – Efeito Fallout), ao contrário do que fez no novo MIB, constrói uma vilã charmosa e carismática que tem potencial para acumular mais fãs do que o próprio Danny.

Já a quase novata Kyliegh Curran cumpre sua missão como Abra Stone, se juntando a Cliff Curtis (Megatubarão), Zahn McClarnon (Westworld) e Henry Thomas (E.T.: O Extraterrestre) na lista de bons coadjuvantes.

A união desses ingredientes leva a produção até um final foda que faz jus aos dois mundos gerados por Stephen King e, sem nenhuma dúvida, salva Doutor Sono de ganhar uma posição de destaque na lista de decepções que vinha sendo liderada por Vidro até então.

Ainda assim, Mike Flanagan erra mais do que o normal e entrega um filme que deve ficar dividido entre aqueles que leram (ou não) o livro. Acumulou muitos pontos pelo suspense cheio de nostalgia do terceiro ato, mas não conseguiu me conquistar completamente…


OBS 1: Doutor Sono tem uma participação pequena e quase imperceptível de Jacob Tremblay (O Quarto de Jack). Que comece a caçada…