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Mesmo com um elenco estrelar de seres humanos e animais, Dolittle não passa de uma série de erros reunidos da maneira mais bizarra e bagunçada possível.


Alguns filmes carregam uma energia estranha desde sua concepção. Aí chegam as primeiras imagens, os posteres ou os trailers e essa sensação ruim começa a ficar mais palpável. Quando finalmente chega a data da estreia, alguns desses longas mostram que é possível corrigir os erros, virar o jogo e surpreender o público, mas a maioria não chega nem perto de tal objetivo. Dolittle, apesar da paixão de Robert Downey Jr. e do elenco cheio de estrelas, se esforça bastante e garante uma vaga de luxo no segundo grupo.

A trama, que tenta se aproximar mais dos livros infantis do que da comédia estrelada por Eddie Murphy no final da década de 90, acompanha as aventuras de um veterinário que tem a habilidade de conversar com animais. Após um período de reclusão ocasionado pela morte de sua esposa, ele decide – por livre e espontânea pressão –  enfrentar uma aventura especial: entrar num barco com sua “família” e encontrar o misterioso, mitológico e mágico Fruto do Éden, já que este é a chave para salvar a vida da Rainha da Inglaterra.

E se você achou esse plot genérico, meio bobo ou qualquer coisa assim, pode ter certeza que a resposta está certa. Mas isso não chega nem perto de ser o grande problema do filme. A questão está em como o roteiro dividido entre Dan Gregor (How I Met Your Mother), Doug Mand (Crazy Ex-Girlfriend), Chris McKay (Frango Robô) e o diretor Stephen Gaghan (Syriana) nunca tenta convencer o espectador do contrário. Nenhum deles parece se importar com o fato de Dolittle ser um longa extremamente óbvio (daqueles que você sabe quem é o vilão desde a primeira cena) que só evolui narrativamente graças a uma quantidade incontável de coincidências absurdas.

 

Dolittle

 

Isso sem contar com outros três fatores decisivos: o “casal adolescente” genérico que movimenta a trama basicamente porque chegou ao mesmo tempo numa casa que ninguém entrava a anos; o melodrama é muito mais exagerado do que o necessário; e o humor de péssimo gosto que insiste em piadas sem sentido até chegar ao auge do descabimento com uma piada de peido que choca muito mais do que arranca risadas. Inclusive, esses alívios cômicos bizarros fazem com que o público saia da sessão de Dolittle sem entender muito bem o que acabou de assistir, enquanto conta o número de risadas nos dedos de uma única mão.

Pra completar, Stephen Gaghan- uma escolha meio inexplicável para esse tipo de longa – também acerta muito pouco. Ele parece estar tão perdido que a melhor opção é se entregar a loucura com um timing cômico contestável, um controle de elenco que extrai respostas emocionais pavorosas da grande maioria e cenas de ação que não fazem nada mais do que repetir elementos usados em Piratas do Caribe e outros blockbusters que envolvem aventuras marítimas. Tudo cercado por uma computação gráfica pouco convincente que destrói justamente a relação entre o protagonistas e seus animais.

 

Dolittle

 

E o pior é que, no caso de Dolittle, a desculpa de ser um filme infantil sem pretensões artísticas não cola. Em primeiro lugar, porque o longa aposta em alguns momentos mais ambiciosos durante a exibição; e em segundo, porque o fator diversão é praticamente inexistente. Sei que eu defendi um pouco disso há menos de uma semana no texto de Sonic, mas as diferenças entre as duas produções ficam evidentes quando se pensa no carisma. Dolittle não tem fôlego pra conquistar o espectador e garantir que alguns escorregões sejam perdoados. É algo bobo que trata as crianças como idiotas, gerando mais incômodo do que diversão.

Algo meio difícil de engolir num blockbuster que possui orçamento suficiente para oferecer uma experiência grandiosa pro espectador.  O elenco de dubladores cheio de estrelas até tenta ajudar nesse aspecto, mas esbarra em personagens sem personalidade que surgem como consequência do texto genérico. É possível salvar alguns momentos pontuais da mandona Poly (Emma Thompson), do medroso Chee-Chee (Rami Malek) e do surtado Kevin (aproveitando muito bem o humor de Craig Robinson). Os outros acumulam cenas medíocres, onde o único destaque talvez seja Ralph Fiennes (Kubo e as Cordas Mágicas) com seu talento vocal absurdo.

 

 

Já a parte humana do elenco, por sua vez, só pode ser classificada como desastrosa, visto que todo mundo parece deslocado, incomodado ou desconfortável com o job. Robert Downey Jr. (Vingadores: Ultimato) insiste num sotaque britânico forçadíssimo e passa longe de transmitir todo o carisma que possui. Antonio Banderas (Dor e Glória) resume seu papel a um pirata caricato que grita em quase todas as suas curtas aparições. Michael Sheen (Belas Maldições) liga o piloto automático e faz o vilão mais batido do ano. E o jovem Harry Collett (Dunkirk) sofre nas mãos do roteiro, chegando ao limite da vergonha alheia nas sequências em que imita os animais.

Até existem alguns flashes em que o público consegue sentir um pouco do carinho que Downey Jr. teria pelo personagem (segundo ele, esse era o seu papel dos sonhos), mas só isso não consegue sustentar nenhum filme. E aqui as peças siplesmente não se encaixam, resultando numa aventura que não empolga, emociona ou diverte. Ao invés disso, Dolittle se esforça para gerar uma sensação genuína de “que porra é essa que eu estou assistindo?”. E esse sentimento funciona, sem nenhuma dúvida, como uma passagem só de ida pra lista de coisas mais vergonhosas da história do cinema.

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