0

Dois Irmãos não chega nem perto de ser um grande clássico da Pixar, mas consegue divertir e arrancar boas lágrimas durante a jornada.


A Pixar tem diversos clássicos da animação em sua filmografia cheia de ideias criativas e originalidade. O que pouca gente percebe é que a existência desses belos elementos não anula um fato: a Pixar tem sim uma fórmula e abraça ela com todas as forças para “garantir” que seus projetos sejam grandes sucessos. Não existe aleatoriedade na maneira como o estúdio surpreende todo mundo com premissas marcadas pela estratégia do “e se”, constrói as piadas na medida e faz o público chorar até mesmos nas produções mais desastrosas. E Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica comprova uma boa parte disso entre erros, acertos e muitas lágrimas.

A trama – que se passa em um mundo mágico habitado por elfos, centauros, fadas e outros seres mitológicos – acompanha dois irmãos completamente diferentes que precisam embarcar na jornada fantástica do subtítulo (desnecessário) após receber um cajado mágico de presente de aniversário. Tal artefato possibilita que seu falecido pai volte a vida por um dia, mas antes eles vão precisar localizar uma pedra encantada nesse mundo onde os magos foram substituídos por tecnologia.

 

Dois Irmãos

 

Um pequeno detalhe que faz toda diferença na construção desse universo conceitualmente incrível, já que o longa começa se perguntando (usando a técnica do “e se”…) o que aconteceria caso a magia se tornasse obsoleta depois dos avanços tecnológicos facilitarem a vida de todos. Uma ideia que prende o espectador logo de cara, quando iguala os feitiços a aplicativos de celular que não envelheceram bem e acabaram sendo substituídos por outros formatos mais práticos. Um conceito forte que tem a cara da Pixar, principalmente se considerarmos que a narrativa gira, de uma maneira quase nostálgica, em torno da tentativa de não deixar a história ser esquecida.

É como se um pai da nossa época preparasse um presente que obrigasse seus filhos a largar o celular pra brincar na rua. Desse algum motivo para eles viverem uma aventura que depende do contato real com a natureza e todos os seus majestosos seres. Uma façanha que precisa ser realizada com as próprias mãos de um jeito bem old school. Um ato heroico que, mesmo cercado por perigos reais, vai ensinar aquelas lições verdadeiras que os adultos tanto amam. E essa metáfora toda, apesar de um tanto quanto antiquada, é muito real e próxima da realidade vivida pela maior parte do público.

 

Dois Irmãos

 

E acreditem quando eu digo que a apresentação desse contexto é realmente rica, cativante e muito interessante. O problema é que, fora isso, a história ignora as dicas de Barley e segue por caminhos bastante padronizados. Pra exemplificar, podemos dizer que Dois Irmãos é basicamente um RPG com personagens estereotipados, coincidências narrativas em excesso, feitiços usada como deus ex machina sem parcimônia e um timing cômico que só funciona quando decide referenciar Um Morto Muito Louco. E o resultado disso, por mais que o mundo esteja repleto de objetos fantásticos, acaba sendo simplório e pouco mágico. Bem menos do que a maioria das produções da Pixar, pelo menos.

A sorte do filme reside no fato de que os personagens são carismáticos o suficiente. Eles carregam tudo nas costas, convencendo como irmãos e obrigando o público a embarcar na aventura como torcedores fiéis. Tudo bem que ninguém em sã consciência torceria contra uma premissa tão universal como pessoas encontrando o pai pela última vez, mas o texto se esforça pra desenvolver essa subtrama com muito carinho e merece ficar com esse ponto. E não, isso não faz com que Ian, Barley e companhia sejam menos óbvios ou padronizados, mas injeta uma carga emocional muito pessoal e verdadeira na história.

 

Dois Irmãos

 

Um elemento essencial que já havia sido revelado pelo diretor e roteirista Dan Scanlon (Universidade Monstros) durante seu painel na CCXP do ano passado. Ele contou que perdeu o pai muito cedo, destrinchando como esse momento influenciou tanto sua vida familiar quanto suas escolhas profissionais até chegar ali. E é essa sensação pura e completamente universal que atravessa a tela para impedir que o filme fique chato ou descartável até a chegada do terceiro ato renovar o fôlego.

Digo isso porque a partir desse ponto, Dois Irmãos sobe alguns degraus no quesito escala e decide oferecer uma experiencia mais emocionante para o espectador. O tal carinho presente na história ganha fôlego de vez e mostra que ali, no meio de todos os clichês e escolhas simplórias, existe muito sentimento acumulado. E é praticamente impossível evitar que as lágrimas escorram pelo rosto quando o longa entrega sua principal cena. Tudo feito num molde que a Pixar já usou mais de uma vez, porém não menos poderoso para aqueles espectadores que tem ou tiveram irmãos (de sangue ou não) em sua vida.

 

Dois Irmãos

 

A parada é que meu lado “crítico chato” me obriga a dizer que se incomoda um pouco com a maneira como toda a carga emocional está ligada quase exclusivamente aos personagens. Isso significa que o restante do mundo criado ali poderia ser deletado sem atrapalhar o principal momento da produção. Claro que isso não chega perto de ser um problema tão grande quanto a falta de originalidade do segundo ato, mas quebra um pouco com a unidade do filme. Um fator que a Pixar sempre trabalhou muito bem. Pra exemplificar: enquanto Viva e Wall-E, por exemplo, não teriam a mesma força sem seus contextos socioculturais, Dois Irmãos poderia se passar em qualquer outra realidade sem sofrer grandes perdas narrativa.

Entretanto, também não posso ignorar meu lado mais chorão. E ele está gritando que, apesar de escorregar na ausência de integração entre as peças, o filme se esforça pra entregar um terceiro ato realmente bom e poderoso. A mãe dos protagonistas rouba os holofotes merecidamente, dragões ganham vida através de conceitos inesperados e as soluções narrativas começam a soar menos óbvias. Continua sendo um resultado aquém do que a Pixar já mostrou que pode fazer, mas seria injusto não admitir que as das sacadas finais ensinam lições necessárias, arrancam soluços de marmanjos e comprovam que, no final das contas, valeu a pena acompanhar a jornada fantástica desses Dois Irmãos


OBS 1: Aproveitem pra escutar o cast sobre Irmãos que gravei com o Lukas. Ele explica a maior parte das coisas que me acertaram durante o filme.

product-image

Dois Irmãos: Uma Jornada Fantástica

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Harley Quinn entrega a melhor versão da Arlequina

Previous article

As mulheres nos bastidores da cultura pop

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Filmes