AODISSEIA
Especial

Diário FICCI: Primeiro Dia

Glaúber Rocha, Tilda Swinton e um coração esmagado

2 de Março de 2018 - 02:06 - Flávio Pizzol

A rotina de um cobertura de festival, como já sabem aqueles que nos acompanham na CCXP, não tem nenhum glamour. Podemos pegar alguns ingressos antecipados, tentar dar carteirada e, aqui em Cartagena, conseguir descontos em comida, mas também acordamos cedo, corremos e enfrentamos fila como qualquer outro mortal. Isso sem contar os textos que precisam ser rascunhados nos intervalos entre filmes e publicados antes do merecido descanso noturno.

É cansativo, mas a recompensa de ver filmes em primeira mão, encontrar pessoas que vivem na mesma vibe que a sua ou fazer contatos profissionais não tem preço. Foi pensando nesse retorno que eu não me contentei com os dois filmes que tinham garantido, acordei mais cedo que necessário (em teoria) e corri para a fila que já estava se formando na sede. A desorganização do dia anterior parecia ter desaparecido e, assim que as portas se abriram, os credenciados só precisaram enfrentar um típica fila para comprar ingresso antes de retirar mais uma entrada. No meu caso, a escolha foi Terra em Transe – longa brasileiro selecionado para iniciar a retrospectiva sobre Glauber Rocha.

Não vou escrever uma crítica sobre o filme porque sequer tenho cacife para tentar falar mal sobre tamanha obra-prima. No entanto, seria um pecado deixar passar a chance de falar sobre alguns aspectos que me chamaram a atenção.

 

 

O primeiro deles está na maneira como o diretor propõe misturar seu estilo cru e realista com uma linguagem completamente poética. Glauber cria um trabalha que foge das amarras narrativa tradicionais para criar um longa que se preocupa muito mais com o visual, com a poesia impressa em cada enquadramento e na força das palavras anunciadas teatralmente pelos protagonistas (não é aleatório que um deles seja justamente poeta) do que com a narrativa cronológica. É isso não é demérito nenhum quando um diretor sabe conduzir a trama com a intensidade e a identidade de Rocha.

A segunda coisa que me chamou atenção foi o quão assustadoramente atual o filme continua sendo. Situando tudo em um país fictício, Glauber quis fazer um filme que misturasse política e lirismo em uma clara referência a ditadura, mas certamente não esperava que suas figuras também fictícias fossem encontrar um espelho tão real em Jair Bolsonaro, Lula e outros afins. Temos aqueles que resolvem colar a política na religião, aqueles que se misturam com o povo sem realmente se importar com ele e um conjunto que definitivamente age entorno de seus próprios objetivos.

E perceber tudo isso é muito mais preocupante do que eu – e qualquer brasileiro – poderia esperar. Acredite…


Duas fileiras na frente de onde eu estava sentado, a produção do festival mantinha quatro cadeira reservadas para que a grande Tilda Swinton também assistisse o longa brasileiro. Dessa forma, sem que pudesse me preparar mentalmente, eu estava assistindo um produção nacional na mesma sala que uma das melhores atrizes dessa geração.

 

E, se o dia ainda pudesse ficar melhor, ela saiu pelo mesmo lado que eu, sem nenhum segurança brutamontes na sua cola. Foi simpática, conversou com organizadores e fãs, e tirou diversas fotos no meio do caminho. Para que o dia fosse zerado logo antes do almoço, uma delas foi clicada por esse ser (extremamente feliz) que vos escreve.


Depois dos dois minutos no paraíso, a rotina de correria voltou. Era necessário pegar um táxi rumo ao shopping, almoçar (se é que um Subway conta como tal) em parar de andar e entrar na próxima sala antes que as filas de não credenciamos fossem liberada para roubar o lugar dos ausentes. Consegui encerrar a prova com três minutos de antecedência e relaxei para assistir Virus Tropical.

Uma animação colombiana, baseada em uma graphic novel, que adapta – de maneira franca e real – a passagem entre infância e adolescência de sua protagonista feminina que, por acaso, também é a autora da HQ original. Uma bela produção – acima da média dentro do que o gênero tem entrego na América Latina – que não necessita de muitos comentários, porque já deve ter ganhado (ou vai em breve) sua própria crítica no site.


Por fim, assisti o tão comentado 120 Batimentos por Minuto, um filme sobre ativistas que lutam pelos direitos dos portadores do HIV que tem roubado prêmios e aplausos desde sua exibição em Cannes no ano passado. Também não vou me estender nos comentários, mas preciso dizer que saí da sessão com o coração destroçado, cheguei no hostel um bocado perdido e precisei de um bom banho para voltar ao normal. O longa francês é uma pedrada certeira e de grande qualidade.


Acompanhem as críticas completas, a cobertura pelo Instagram e até amanhã!