AODISSEIA
Especial

Dia do Quadrinho Nacional e uma conversa com Maurício de Sousa

Uma pequena viagem no universo dos quadrinhos brasileiros


30 de janeiro de 2020 - 11:02 - felipehoffmann

O Dia do Quadrinho Nacional é uma data que precisamos lembrar pela importância histórica para a cultura pop do país.


 

No dia 30 de janeiro comemoramos o Dia do Quadrinho Nacional. Uma data para celebrar a importância do meio para tantas crianças que cresceram consumindo produções brasileiras e, também, para adultos ávidos por essa mídia tão maravilhosa.

A data marca a primeira publicação brasileira, feita em 1869 por Angelo Agostini na extinta revista Vida Fluminense. O desenho em questão foi As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte.

 

nho quim dia do quadrinho nacional

 

De lá pra cá, as histórias em quadrinho se tornaram a 9ª arte, divertindo diversos públicos. Uma pesquisa realizada pelo Brasil Escola com alunos de escolas públicas de São Paulo, mostrou que os quadrinhos ainda são o tipo de leitura favorito da criançada. E a medida que os consomem, ajudam os pequenos leitores a se aproximarem de outros tipos de literatura.

Um dos grandes difusores dos quadrinhos nacionais foi Ziraldo, criador do Menino Maluquinho. Na década de 60, Ziraldo lançou sua revista e, até então, a primeira do gênero feita apenas por um autor. A Turma do Pererê contava com dezenas de personagens e foi a primeira revistinha totalmente produzida a cores no Brasil.

 

 

Mas não tem como falar do Dia do Quadrinho Nacional sem falar de Maurício de Sousa.

O senhor de 84 anos é responsável por nada mais nada menos que 86% do mercado nacional. Além das clássicas tirinhas, dos quadrinhos e dos desenhos animados para TV, o grande salto de Maurício de Sousa foi explorar os produtos licenciados que sua criatividade permitia.

A diversidade de personagens fez com que a Turma da Mônica crescesse exponencialmente, em inúmeras mídias -falamos sobre isso no nosso cast sobre o assunto. Hoje suas produções alcançaram mais de 40 países, em 14 idiomas diferentes.

Durante a CCXP 2020 tivemos a oportunidade de conversar um pouquinho com Maurício de Sousa sobre sua carreira e ideias para o futuro. Nada mais justo que no Dia do Quadrinho Nacional, entendermos um pouco da cabeça de um dos criadores dessa história.

 

mauricio de sousa primeira tirinha dia do quadrinho nacional

Primeira tirinha de Maurício de Sousa, publicada na Folha da tarde, em 1959.

 

A ENTREVISTA

Felipe Hoffmann – Mauricio, lá do inicio das tiras em 59 com o Bidu, para agora, com esse crescimento todo nas redes sociais, atingindo quatro gerações de pessoas, qual foi o momento que você olhou pra trás e percebeu que de fato tinha deixado sua marca na cultura pop do Brasil?

Maurício de Sousa – Bem, há diversos sinais que vão surgindo à medida que a gente vai caminhando na atividade. Ela vai chegando ao público de diversas maneiras, né? Nos gibis, nos desenhos animados, nos produtos e tudo mais, vão existindo sinais desse reconhecimento. Começa com você sendo reconhecido na rua, depois pedem para tirar uma foto, autógrafos, convites e homenagens. São sinais que eu agradeço muito a Deus por existirem. Por que eu faço um trabalho primeiramente para as crianças, que vão crescendo, se tornando jovens e consumindo outros produtos. Depois, quando chegam na idade adulta, eles correm procurando materiais para seus filhos. Por isso eu falo que estamos na quarta geração das famílias consumindo nossos produtos.  Esse cuidado que temos com nosso trabalho, essa filosofia que norteia tudo que fazemos, acho que conseguimos passar tudo isso para o público e alcançamos essa quantidade gigantesca de leitores aqui e também em outros países.

 

FH – Puxando um pouco para sua biografia, você disse que o Horácio é o seu alter ego e só você até então havia desenhado e escritos sobre o personagem. Como foi pra você, abrir mão dessa conexão com Horácio, para o Fábio Coala criar uma releitura dele no selo Graphic MSP?

MS – Bem, eu já estou acostumado a esse tipo de sacrifício, de colocar meus “filhos” na mão de terceiros. Foi assim que eu criei minha equipe, com dor no coração as vezes, por que eu entregava meus personagens, que criei com muito afinco, para outros desenhistas criarem as histórias. Mas se eu não fizesse isso, não tinha crescido e conseguido enfrentar a concorrência, de material estrangeiro, principalmente. Então foi uma decisão pensada e aceita por mim e pelo meu íntimo, inclusive. Com Horácio, que é o meu personagem  predileto,  foi mais um passo nessa minha facilitação de transferir meu trabalho para terceiros. Mas principalmente abrir caminhos para poder ampliar logicamente a nossa produção. E isso não vai parar por aí não (risos).

 


MUITO MAIS SOBRE O DIA DO QUADRINHO NACIONAL

+++ Jeremias: Pele ganhou o Jabuti de Ouro, em 2019

+++ Podcast: Uma viagem pelos quadrinistas brasileiros

+++ O Legado da Turma da Mônica


 

FH – Existem tantos personagens criados na história da Turma da Mônica né, Seu Maurício. A Mônica surgiu de observações que o senhor fazia das suas filhas, e assim foram surgindo os personagens. Por meio de ideias que tinha do seu cotidiano. Hoje em dia, ainda existe algum personagem que o senhor gostaria de colocar no papel e transmitir sua mensagem?

MS – Tenho duas filhas, Vanda e Valéria, que não entraram ainda na galeria de personagens da Turma da Mônica. Estou com vontade de puxa-las, mas não elas como estão hoje, adultas. Queria desenhar elas como eram quando crianças, ainda bem pequenas e permitir aquelas confusões de quem é quem, muito comuns na vida de pais de gêmeos.

 

FH – Pra finalizar, o senhor termina dizendo na sua biografia, que, de um jeito ou de outro você vai estar sempre com a gente. Sempre de alguma forma transmitindo sua mensagem, seja em camisas, nos gibis, na TV, na internet… Gostaria de dizer obrigado mesmo, por tudo que o senhor nos proporcionou e conseguiu atingir em tantas pessoas. 

MS – Eu que agradeço o carinho e muito obrigado pela atenção, rapaz.

 

NOVAS PRODUÇÕES

Muito além das já citadas releituras dos personagens de Maurício de Sousa, com o selo Graphic MSP, é possível entrar em um universo absurdo de histórias de autores e desenhistas brasileiros. Artistas como Gustavo Borges, Jefferson Costa, os irmãos Marcelo e Magno Costa, Sirlene Barbosa, Gidalti Júnior e tantos outros, possuem suas histórias e seu jeito de contá-las.

Nada melhor que celebrar o Dia do Quadrinho Nacional com a pluralidade e diversidade temática, que são as marcas dessa nova geração de quadrinistas

É muito comum associarmos quadrinhos ao gênero de super-heróis, contudo existe uma gama infinita de tantos outros assuntos para serem abordados e que fogem desse tema. E pelas características na nossa sociedade, o autor brasileiro se destaca em ideias e na forma de expressá-las no papel.

O que não falta é talento por aí. E história pra contar.