Dia do Escritor
1

Como hoje é o Dia do Escritor, nós te convidamos para uma viagem pelos passos enfrentados por quem decide escrever um livro


Plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Três coisas que cada pessoa deve fazer durante sua vida.

Segundo o site Pensador, essa frase pertence a José Martí, um poeta cubano, mas eu imagino que ninguém vai me julgar por duvidar da fonte. Até porque, nesse caso, o autor da frase não é mais importante do que ela.

Afinal de contas, mesmo sem conhecer o mínimo sobre ele, eu escuto essas palavras desde a minha infância.

Pode deixar que eu ainda não atingi um nível de loucura que me permita afirmar que essas 20 palavras me fizeram querer escrever. No entanto, admito que elas carregam uma mensagem muito importante em suas entrelinhas.

É impossível negar, independente das suas crenças e opiniões que tal citação deixa uma coisa muito clara: a literatura sempre foi importante para o ser humano.

E eu não estou me referindo apenas a uma parte da cultura que alimenta nossa alma e renova nossa criatividade. Estou falando de algo que pode adicionar valor a uma vida. De algo que pode elevar nossa existência a uma plenitude quase bíblica.

É isso que, de certa forma, conduz esse texto em homenagem ao Dia do Escritor.


Prólogo – A Origem do Dia do Escritor

Dia do Escritor

Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre o Dia do Escritor, e eu não vou julgar. Apesar de nossa riqueza literária ser merecedora de uma celebração pomposa, não é tão estranho ver uma data ligada a cultura ser esquecida no Brasil.

Então, antes de mais nada, pode ser válido explicar de onde surgiu essa data.

A celebração nacional do Dia do Escritor foi instituída “por meio de uma portaria, assinada em 23 de julho de 1960, do então ministro da Educação e Cultura Pedro Paulo Penido“. Ele escolheu tal data porque, naquele ano, o dia 25 de Julho ficou marcado pela realização do I Festival do Escritor Brasileiro

A partir daí, esse dia passou a abrigar solenidades em homenagem a grandes escritores brasileiros e/ou atividades de incentivo a literatura nacional.

Eu queria fazer algo parecido, mas sem falar sobre escritores renomados. A solução foi tentar fazer um texto que dialogasse com milhares de brasileiros que sonham em ser escritores dentro de um mercado que nem sempre é receptivo e acolhedor.

Com isso, em mente, abracei a missão (um tanto pessoal para alguém que escreve contos e cogita fazer parte mesmo público) de conversar com três autoras que estão começando suas carreiras para mostrar as alegrias e as dificuldades envolvidas na tão esperada publicação de um livro.


Livro I – O Desejo de Escrever

Dia do Escritor

Nesse primeiro ponto, o mais importante é ter justamente vontade de escrever. Pode ser uma história mirabolante de ficção científica, um romance adolescente, uma grande reportagem ou crônicas sociais sobre a vida.

Não importa.

Todo livro precisa que o autor tenha esse desejo ardente de falar sobre alguma coisa. Sem isso, ele não existe.

Mas, com eu disse, as realidades que envolvem essa fase da produção podem ser completamente diferentes. E nossas entrevistadas comprovam isso com tranquilidade.

A Larissa Andrade, por exemplo, sempre soube que precisava seguir essa carreira. Graças a uma infância marcada por muitas leituras diferentes, ela considerava (e ainda considera) que os escritores são “as pessoas mais incríveis do mundo”.

Esse foi o pontapé que acordou a seleção natural e fez ela sentir que as criações não poderiam ficar presas apenas na sua cabeça. Começou a escrever e, antes que percebesse, já tinha se aproximado dos criadores de universos que marcaram seu crescimento.

A Mari Guimarães, por sua vez, sempre usou as palavras como zona de escape. Por conta a timidez, ela sempre escreveu “textos, crônicas contos e versos” com o objetivo de colocar pra fora sua bagunça interna

Foi nessa vibe que ela criou e deletou diversos blogs até construir morada no 1 Quarto de Café. A consequência natural foi o lançamento de um livro composto justamente por esses textos que ela sempre escreveu.

E pra completar essa trinca de origens tão diferentes, a Renata Pardim contou que a ideia do seu livro surgiu quando ela estava na faculdade de jornalismo. Diante da necessidade de entregar algum produto jornalístico para concluir o curso, ela escolheu fazer um livro-reportagem sobre o suicídio de policiais militares no Brasil.

Ela “se apaixonou pela reportagem através de livros como Carandiru, Rota 66 e Abusado”, e acabou seguindo o mesmo caminho. Nesse caso, o tal desejo de escrever veio de outra vontade. Nas palavras da própria Renata:

Eu queria entender o que acontecia no meio da intocável e orgulhosa Polícia Militar paulista, que fazia com que, a cada 15 dias (segundo dados atualizados em 2019), um policial tirasse a própria vida.


Livro II – A Hora de Colocar no Papel

Dia do Escritor

Você já tem a vontade de escrever? Tem, quem sabe, a ideia de um livro? 

Se a resposta foi sim, ótimo.

Agora você só precisa saber que um cânion enorme separa o desejo e a concretização. Na maioria das vezes, colocar essa ideia no papel é uma missão muito difícil.

Eu, por exemplo, sempre colecionei ideias anotadas em blocos ou páginas perdidas do Word, mas nunca tive a paciência ou o foco necessário pra escrever de maneira efetiva. Isso só aconteceu, em 2014, durante um final de semana em que fiquei sem internet e acabei refletindo sobre as consequências que essa mesma ausência causaria no mundo. O resultado foi um conto que só tive coragem de publicar esse ano no Wattpad.

Depois disso, comecei a escrever com muito mais frequência, mas, ao contrário do que esperava, o processo não ficou mais fácil. Sou obrigado a concordar com a Larissa quando ela fala que esse momento “foi, é e sempre será doloroso”.

Segundo ela,

Antes […] era doloroso porque eu escrevia sem nenhuma técnica ou planejamento. Então era difícil manter ritmo e a história em si. Hoje é doloroso porque eu sei onde estou errando, sei o que devo melhorar, mas isso não significa que seja algo fácil de fazer.

Para enfrentar essa dor (que metaforicamente já foi comparada ao parto por diversos artistas), ela separa algum tempo para pensar nos personagens e na estrutura da história antes de começar colocar tudo no papel. Porque quando chega esse momento, ela escreve sem pensar e deixa para pensar nos defeitos durante a revisão.

No entanto, vale dizer que as particularidades de cada processo dependem do gênero, do tema e diversas outras coisas. A Renata, por exemplo, também enfrentou diversos desafios, apesar deles serem completamente diferentes.

Ela precisou lidar com a pouca quantidade de material científico que tratasse sobre o suicídio de policiais, a dificuldade de entrevistar famílias que perderam seus entes queridos e o fato de que poucos sobreviventes topavam falar.

Em palavras mais diretas, o processo de escrita exigiu muito cuidado e paciência. Seria impossível falar sobre histórias tão fortes, emocionais e impactantes (e elas são tudo isso mesmo) sem um pouquinho desses dois ingredientes.

Mas calma… não se desespere. Se as dificuldades podem ser diferentes, elas também podem ser “menores”.

De acordo com a Mari, o processo dela foi tranquilo, porque o manuscrito do livro era “composto por diversos textos que nunca havia postado ainda”. Uma mistura de textos autobiográficos com pequenas ficções baseadas em pessoas com quem ela esbarrava.


Livro III – A Grande Publicação

Dia do Escritor

Você também teve o foco para escrever? Parabéns!

Agora vem a parte que a maioria dos autores enxerga como a mais difícil, já que o ato de publicar pode se tornar uma grande barreira por motivos diferentes.

O primeiro deles está ligado, na minha opinião, ao fato de que mostrar seus textos para os outros exige uma boa dose de coragem. Digo isso porque essa ansiedade em torno da recepção faz parte da minha vida até mesmo em texto para o site.

Já estou acostumado a escrever críticas e especiais, mas nunca finalizei um texto sem ficar preocupado com a recepção do que estou publicando. Eu não tenho controle sobre a interpretação de terceiros e, de vez em quando, sofro com isso.

No entanto, creio que o maior obstáculo quando se trata de publicação editorial foi, por muito tempo, encontrar editoras dispostas a publicar livros de escritores “iniciantes”.

O mercado editorial era um grupo fechado que raramente abria as portas para obras cujo o resultado não era garantido. Ou seja, ter um nome reconhecido era o primeiro e único requisito.

Uma regra que parava qualquer sonhador, já que você precisa ter experiência em uma área que não contratava ninguém sem experiência.

Por sorte, essa dureza foi se dissolvendo e abrindo alguns pequenos espaços. Todavia, mesmo com a acessibilidade ampliada, o processo que começa com a aprovação de um manuscrito continua muito caro.

Tanto que esse foi o principal desafio que a Mari enfrentou nessa última etapa. Ela precisou, em suas próprias palavras, “investir uma boa quantia para revisão, criação e edição de capa, impressões para o lançamento” e outros detalhes visuais.

Ela correu atrás, pagou tudo e conseguiu publicar o livro, mas ainda saiu da experiência traumatizada.

Não tive acompanhamento, não tive acesso às vendas, nada! Os livros chegaram com atraso, um dia antes do lançamento e vieram vários com erros de impressão e edição. Sem falar que todos vieram com a arte de capa mais clara do que a real.

Segundo ela, o que ficou foi o aprendizado de que é necessário pesquisar a editora com muito cuidado antes de fechar a publicação.

A Renata também seguiu esse caminho mais “tradicional”, mas deu sorte de não encarar as mesmas dificuldades. Como encontrou uma editora que ajuda estudantes (Casa Flutuante) na publicação de livros-reportagem, ela teve um trabalho de edição e revisão bem tranquilo.

Dia do Escritor

A maior dificuldade está na disponibilização do livro, mas o motivo não está exatamente ligado a editora. A questão está no assunto da obra.

Isso acontece porque eu preciso trocar alguns nomes, proteger fontes e toda essa parte burocrática. Não é um assunto que pode ser disponibilizado tão urgentemente sem pensar nas consequências. Tenho o direito de uso de imagem e áudio de todas as minhas fontes, mas me preocupo com a exposição.

Entretanto, por mais que tenhamos visto dois exemplos ligados a editoras, é necessário dizer que a publicação de livros se transformou nos últimos anos. Plataformas como o Wattpad e até mesmo a Amazon do Jeff Bezos, deram o pontapé inicial numa espécie de democratização do mercado.

A autopublicação realizada através do Kindle Direct Publishing tem feito tanto sucesso que já começou a atrair grandes autores, como Paulo Coelho e Mário Sergio Cortella.

Quer uma prova em números desse sucesso?

A gerente do KDP no Brasil, Talita Taliberti, destacou nessa mesma reportagem ao El País que 30% dos livros que figuram entre os 100 mais vendidos da Amazon são fruto de autopublicação.

Uma revolução que atraiu a Larissa. Seus dois primeiros livros seguiram o seguinte caminho: publicação gratuita no Wattpad e, depois que o número de leitores chega a um valor considerável, a autopublicação na Amazon. Já Ódio nas Alturas, seu terceiro livro dela, conseguiu um contrato mais tradicional após o Wattpad e seguiu outros caminhos.

No entanto, focando um pouco mais na autopublicação, não pense que a missão ficou tão fácil quanto uma música do Jota Quest. O processo ainda possui muitos obstáculos envolvendo justamente a diagramação, a capa, a revisão e a criação de banners para divulgação.

Um trabalho de marketing que precisa ser organizado pelos próprios autores. São eles que, entre tantas coisas, buscam as inúmeras parcerias com blogs e perfis literários. Nas palavras dela: “um autor independente não é somente um autor. Ele é seu próprio ‘marketeiro’, estrategista, agente e, em alguns casos, designer das capas”. 

Mas sabe de uma coisa muito importante? No final, todo esforço vale a pena

A própria Larissa ralou muito nas autopublicações, e agora conseguiu chamar a atenção de uma editora.

Quer outro exemplo?

Mesmo com todos os perrengues de diferentes tipos, se tem uma coisa que todos as entrevistadas concordam, é que a escrita continuará presente em suas vidas. Todas elas planejam seguir a carreira e lançar novos livros, sejam com editoras ou como autopublicação. Sejam crônicas, romances ou livros-reportagem.

O único fato é que quem começa não consegue mais parar…


Epílogo – Cada Escritor tem seu Próprio Tempo

“Ah, mas eu ainda estou preso na parte da vontade…”

Não se preocupe porque o Dia do Escritor também é seu dia. Não importa o que os outros digam, porque você já é um escritor no seu coração. Só precisa lembrar que o importante é não perder a vontade. Nunca desistir.

Eu sei que isso pode parecer um papo de coach, mas não deixa de ser verdade. São raros (ou, se bobear, inexistentes) os casos de pessoas que ultrapassaram as três etapas descritas nesse texto sem medos e preocupações. Isso é normal e pode chegar com mais força em qualquer uma das fases.

Não é um problema, desde que não te faça desistir!

Você já tem a vontade, então descubra quais métodos te ajudam a passar as ideias pro papel (nós já reunimos algumas ideias do Stephen King aqui), siga em frente no seu próprio tempo e, acima de tudo, ESCREVA.

Se você tem o desejo de publicar um livro, o primeiro passo, querendo ou não, é escrever.

Falando como alguém que escreve muito, mas, apesar da vontade, nunca publicou suas histórias efetivamente: deixe a preocupação com os outros passo pro futuro e escreva.

Escreva pra você em primeiro lugar. Mesmo que ninguém veja, você está escrevendo. Está se aprimorando, se desenvolvendo.

Quando se sentir confortável, peça para os amigos darem suas opiniões e reescreva. Melhore o seu texto cada vez mais. Com calma, sem desespero.

Se sentiu ainda melhor em relação a qualidade dele, faça a publicação amadora e espere os próximos feedbacks. Esse momento pode ser assustador (falando por experiência própria), mas não vai ser tão doloroso se vier na hora certa. No seu tempo.

O meu momento de avançar para as próximas etapas vai chegar. E o seu também. Tenho certeza disso!


Conheça mais sobre os livros das entrevistadas

Dia do Escritor

Larissa Andrade (22 anos) – Amor Emprestado, Atração Virtual e Ódio nas Alturas

Mari Guimarães (26 anos)E se fosse verdade?

Renata Pardim (30 anos)Esqueça o Que Eu Disse


Ah… e antes que eu me esqueça: Feliz Dia do Escritor!


Gostou desse conteúdo? Então nos ajude a manter o site vivo entrando para o Odisseia Club. Seja um apoiador da Odisseia e acompanhe tudo sobre filmes, séries, games, músicas e muito mais.

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

Aprenda 13 Dicas de Como Posar Para Fotos de Celular

Previous article

Oferenda à Tempestade | 7 curiosidades sobre a Trilogia Baztán

Next article

You may also like

1 Comment

  1. Que texto incrível! Ameiii

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Livros e HQs