0

Mesmo com uma boa ideia por trás da trama, Cursed se perde entre clichês repetidos, romances vazios e jornadas que demoram pra chegar em algum lugar


Arthur Pendragon, Cavaleiros da Távola Redonda, Merlin e Excalibur. Personagens e objetos que todo mundo conhece graças as inúmeras adaptações que essa lenda – criada no século XII – já ganhou em diversas mídias.

Indo além, eu diria que essa talvez seja uma das fontes mais acessadas da história. Existem curtas da década de 20, peças de teatro, histórias em quadrinhos, games, animações (quem nunca viu A Espada era a Lei?), paródias do Monty Python, filmes de guerra, filmes de assalto, versões infanto-juvenis e por aí vai.

No entanto, todas as últimas tentativas de levar o Rei Arthur para as telonas foram completamente decepcionantes. Mesmo assim, a série Cursed, da Netflix aposta na mesma lenda para criar uma mistura de prequel com reinvenção que mostra a jornada de Nimue – a futura Dama do Lago – depois que sua mãe lhe dá uma missão importante: levar a Excalibur até Merlin.

Cursed

+++ Saiba planos para a 2ª temporada de Cursed – A Lenda do Lago
+++ Encontro Fatal – Conheça o novo suspense da Netflix

Crítica de Cursed – A Lenda do Lago

Digo sem medo que, em termos de reinvenção, a série cumpre sua proposta até certo ponto. Afinal, apresenta uma história conhecida por pontos de vista diferentes, focando em uma personagem que não chega a ser nem mesmo coadjuvante na maioria das adaptações. Quase sempre, a Dama do Lago é tratada como um mero ser mitológico e só.

E isso, no papel, abre espaço para ótimas possibilidades. O problema está na execução dessas ideias.

A começar pelo tom adolescente que preenche Cursed. Uma proposta narrativa que carrega junto consigo doses exageradas de didatismo, romances sem graça que fazem os mais velhos revirarem os olhos e, acima de tudo, a mania permitir que decisões inconsequentes se tornem a força motriz da trama. Algumas dessas ações podem ser perdoáveis (com muito esforço) sob a ótica de que são jovens fazendo burrices, mas outras – como a espada jogada no poço, por exemplo – são só forçação de barra mesmo.

Só que eu não vou usar esse aspecto pra condenar a série, porque o trailer já deixava claro que a pegada seria essa. Eu não dei play esperando um novo Senhor dos Anéis (e espero que você também não faça isso), então, por mais que todos esses elementos assumam a forma de pedras no caminho para o trono, seria injusto penalizar a série por escolher um tom e manter-se fiel a ele na alegria ou na tristeza.

Até porque isso a série realmente faz bem. Não tem escolas de ensino médio, mas é uma série adolescente em todos os seus arcos e temas. A única coisa que me pareceu destoar foi a quantidade de sangue exageradamente caricata que tomava a tela em momentos muito pontuais. Como algumas dessas sequências apelam pro gore sem função narrativa, admito que fiquei com a impressão de elas estavam ali só pra atestar o envolvimento de Frank Miller em Cursed.

Cursed

Ou quem sabe comprovar que a série podia ter balanceado a violência e fugido de elementos que sempre soam problemáticos em obras teen. Em outras palavras: ter tomado mais cuidado na construção desse tom.

“Mas, se mesmo com as cenas forçadas e destoantes você não vai criticar a série por esse ponto de vista, quais são os principais problemas dela?” – perguntou um jovem fã de Katherine Langford.

O que me incomoda mesmo é o fato de Cursed não apresentar nada novo. É uma grande reunião de clichês, repetições e acontecimentos vazios que não conseguiu me conquistar. Pode ser uma questão de expectativa, mas eu fiquei com a impressão de que toda a criatividade foi gasta na reinvenção da protagonista e da pegada. Depois que isso foi apresentado, os roteiristas sentiram preguiça, sentaram na beira do lago e decidiram apenas reutilizar elementos conhecidos.

Temos a protagonista cheia de poderes sobrenaturais que machuca seus inimigos após sobre o bullying em uma cena quase idêntica ao famoso baile de Carrie. Temos um Arthur cuja a subtrama parece copiada de Coração de Cavaleiro (aquele filme medieval com o Heath Ledger). E temos um Merlin extremamente parecido com o Floki em todos os aspectos (culpa tanto da direção sem identidade, quanto da atuação automática de Gustaf Skarsgård).

Cursed

Cursed – A Lenda do Lago vale a pena?

No fim das contas, o resultado é uma série sem graça. Cursed acaba sendo um produto que tinha potencial pra ser novo e diferente, mas prefere ser uma mera repetição enfadonha de qualquer outra história fantástica. Seja por preguiça ou por vontade de se encaixar no grupinho.

“Quer mais algum motivo?” – perguntou o crítico odioso, olhando para a jovem fã que ansiava por defender todo e qualquer projeto de sua ídola sem se preocupar com a qualidade.

Pra completar, além disso tudo, a organização narrativa se resume a personagens que andam de um ponto ao outro, cumprindo pequenas missões. Um formato que e aproximaria do épicos de viagem, caso acontecesse alguma coisa relevante que realmente marcasse a experiência do público.

Como boa parte do tempo é ocupado por aprendizados adolescentes, sequências repetitivas e flashbacks que não apresentam nada novo, Cursed se transforma em um game de baixa qualidade que não segue as propostas cinematográficas dos jogos atuais. Fato comprovado tanto pela deficiência do desenvolvimento da história, quanto pela computação gráfica digna dos anos 90.

Tô pra te dizer que aqueles lobos dos primeiros episódios quebram a imersão de uma maneira tão bizarra que tira a força de qualquer cenário bem construído. Não tem fotografia bonita que sobreviva aquilo.

Cursed

É um processo de desequilíbrio que também acontece com a trama. Eu preciso dizer com sinceridade que as coisas melhoram bastante a partir do sexto episódio, mas o estrago já estava feito há algum tempo. A balança já estava pendendo pro lado ruim.

Algo que só me deixou com uma certeza: Cursed – A Lenda do Lago, assim como boa parte das séries da Netflix, deveria ser menor.

Talvez dez episódios mais curtos e enxutos. Talvez menos episódios. Talvez até mesmo um filme. Não vou cravar qual seria a melhor opção, porém é impossível ignorar o fato de que a série demora demais pra engatar. Uma versão enxuta que cortasse repetições e encheções de linguiça poderia mudar o jogo. Poderia ressaltar as partes boas e virar a balança, transformando uma ideia promissora em uma ótima fantasia infanto-juvenil.


Gostou desse conteúdo? Então nos ajude a manter o site vivo entrando para o Odisseia Club. Seja um apoiador da Odisseia e acompanhe tudo sobre filmes, séries, games, músicas e muito mais.

product-image

Cursed - A Lenda do Lago (1ª Temporada)

4.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

San Diego Comic Con | Como assistir os painéis do evento online

Previous article

Nova York Contra a Máfia | Conheça a nova série documental da Netflix

Next article

You may also like

Comments

Leave a reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

More in Séries