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Curral é um bom filme sobre as engrenagens políticas, mas se perde no didatismo exagerado


Um país dividido entre dois lados políticos. Eleições movimentadas por mentiras, compras de votos, ameaças e acordos inescrupulosos. Candidatos anti-establishment que prometem mudança por não serem políticos de carreira. Candidatos eloquentes e carismáticos cheios de promessas vazias.

Clichês que fazem parte da política mundial desde sempre, apesar de parecerem estar ainda mais em voga, no Brasil, durante os últimos anos. Curral pega tudo isso e encapsula dentro de um microcosmo: uma cidade do sertão do nordeste onde a água é a principal moeda de troca na luta para conquistar votos em prol dos partidos Azul e Vermelho.

Esse é o primeiro passo pra construir um filme muito pé no chão sobre os bastidores da política. Possui algumas alegorias que pegam impulso nesse momento político muito propício a críticas, mas, no geral, é um filme muito sólido sobre as engrenagens de uma eleição. Incluindo as peças citadas na introdução e muitas outras.

Curral

Foto: Divulgação

No entanto, Curral é centrado de verdade em Chico Caixa (Thomás Aquino), um homem pobre que trabalha ilegalmente distribuindo água na zona rural da cidade. Após perder esse “subemprego” quase voluntário, ele é obrigado – de certa forma – a trabalhar para um candidato a vereador que promete ser o porta-voz das mudanças, adicionando uma nova cor à cidade. Um amarelo forte que representa aquele típico partido sem amarras que vem pra “mudar tudo isso aí”.

Caixa não é necessariamente um sujeito ingênuo, afinal conhece boa parte das maquinações políticas. Tanto que defende diversas vezes pra Joel que é impossível ganhar sem comprar votos. Porém, ao mesmo tempo, isso é contrabalanceado por uma crença cega (e, ironicamente, ingênua) nas promessas desse cara. A esperança de algo bom pode surgir dali, justificando seus meios pelo fim.

Por conta disso, o fio condutor da narrativa de Curral acaba sendo justamente a descoberta de que talvez não exista uma força com fôlego pra enfrentar o establishment. De que a politica tem lados definidos e engrenagens rígidas que não deixam espaço para novas peças ou para mudanças. De que ela vai matar ou engolir qualquer um que se oponha a esse sistema fechado.

Curral

Foto: Divulgação

Esse processo de desacreditação (acho que a palavra não existe, mas quero usar mesmo assim) em si é muito interessante. Só que ele também empurra o longa rumo a uma queda brusca, que transforma o longa de Marcelo Brennand (Politics Unveiled) numa espécie de hipérbole. O que significa, em palavras menos matemáticas, que Curral começa bem, permeado por uma câmera que está sempre se movimentando na busca por votos, mas chega ao fundo do poço antes de terminar a curva se recuperando nos minutos finais.

É um filme eloquente e bem construído até certo ponto, porém o abrir de olhos do protagonista também abre a máquina política, expondo ainda mais as engrenagens. O problema é que o longa parece confundir a exposição das peças com um didatismo simplório que esvazia as alegorias que já não eram tão sutis assim. Vira um texto bobo e genérico que só tem o objetivo único de explicar política; não de contar a história de Caixa e daquelas eleições.

Curral

Foto: Divulgação

Existem certas vantagens na maneira como o discurso ganha essa abordagem franca e direta, mas a maioria não funciona porque o longa parece tratar o espectador como burro, insistindo em dizer tudo ao invés de incitar reflexões. E nem estamos falando de um filme complexo, já que essas mesmas engrenagens fazem parte do nosso dia-a-dia.

Ao decidir colocar tudo na bandeja e servir sem nenhum requinte, Curral perde a força. Com isso, o espectador precisa ficar esperando, pacientemente, o final chegar com tudo, através de uma montagem que mostra de forma belíssima (e rica visualmente) que política é establishment e establishment é dinheiro. Palavras óbvias, mas que precisam ser ditas de tempos m tempos pra abrir os olhos de homens como Chico Caixa.


Curral foi conferido na Mostra de São Paulo 2020


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Curral (2021)

6.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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