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Carregado pelo carisma de Emma Stone e Emma Thompson, Cruella escorrega em escolhas genéricas na esperança de humanizar mais uma vilã icônica


Lá vou eu falar – pela milésima vez – sobre as produções live action da Disney e suas propostas questionáveis, fingindo que os filmes são produzidos com um único objetivo: apresentar histórias clássicas para a nova geração.

No entanto, isso é apenas uma farsa digna dos grandes estúdios. Nós acreditamos que seus objetivos são dignos, enquanto as criações saem do papel graças à falta de criatividade ou à bizarra necessidade de ressuscitar franquia para ganhar dinheiro em cima de algo que fez sucesso no passado.

Duas motivações que geralmente conduzem aos famosos “filmes de algoritmo”. Produções que, assim como Cruella, flertam com escolhas modernas na esperança de disfarçar uma mistura de ingredientes escolhidos a dedo para conquistar a audiência.

Cruella

Foto: Divulgação

Isso significa que o filme vai ser ruim? Claro que não!

Mas o deixa bem próximo de uma zona marcada por produções genéricas que escolhem percorrer os caminhos menos arriscados e impactantes.


A História de Cruella

Seguindo a fórmula dos filmes que transformam vilões clássicos em protagonistas humanizados, Cruella acompanha a origem da personagem que dá nome ao longa.

Acompanhada pela narração da própria personagem, vemos sua infância cheia de confusões, as perdas que deixaram cicatrizes e outros momentos que moldaram sua personalidade. Um caminho que, obviamente, vai desaguar no nascimento de uma versão da estilista rica que não poupa esforços para sequestrar os 101 dálmatas.


O que achamos de Cruella?

Por mais que seja dada uma explicação “lógica” no decorrer do filme, a cena da morte da mãe de Cruella deixa claro que precisaremos ativar todos os níveis de descrença para suportar os absurdos visuais e narrativos que preenchem o novo live action da Disney. Portanto, pode anotar: se aquilo não te incomodar, talvez você consiga mergulhar na trama desde o início.

Cruella

Foto: Divulgação

Mas vamos ignorar esse detalhe, afinal ninguém pode cobrar que o cinema seja realista. O que temos aqui é um filme que bebe em fontes fantasiosas e justifica, mesmo que parcialmente, suas escolhas estilísticas.

Entretanto, esse esquema de enganações e desculpas não se encaixa em tudo…

Eu vou adiantar que poderia ficar horas falando sobre as soluções simplórias, ou sobre a humanização da personagem e como tal processo a transforma em uma figura genérica, mas fazer isso seria injusto com a minha experiência.

Para o bem ou para o mal, esse pacote se encaixava nas minhas expectativas, assim como a ideia genial de diminuir a vilania da protagonista através da apresentação de alguém que consegue ser pior. Uma solução batida que, entre desvios de caráter e justificativas vazias, o filme abraça sem nenhuma vergonha com o intuito de se enquadrar nos moldes da Disney.

Não… O que me acertou primeiro foi a sensação de que já tinha visto aquilo. Afinal, a narração espertinha que quebra a quarta parede, os cortes rápidos, as sacadinhas que referenciam o material original e a releitura de canções icônicas formam uma lista de ingredientes que parecem ser obrigatórios em todos os blockbusters modernos.

Cruella

Foto: Divulgação / Everett Collection

É verdade que Craig Gillespie tenta fugir disso em diversos momentos, flertando pontualmente com a possibilidade de transformar Cruella no live action mais diferente e curioso dessa última leva. Só não consegue porque tenta fazer isso através de uma série de escolhas que se tornaram batidas há alguns anos.

Consegue chegar mais perto do que outros exemplares por saber como injetar carisma no todo. A recriação dos anos 70, os duelos entre Emma Stone e Emma Thompson, a guerra entre estilistas, a interação entre os capangas fazem parte dos elementos que, de vez em quando, arrancam uma risada ou qualquer outro sentimento agradável. Mas a verdade é que eles só tem força para enganar.

No fundo, Cruella não passa de uma mistura entre O Diabo Veste Prada e Cinderela que restringe sua identidade aos aspectos visuais. Parece que construíram o filme mais padrão possível em relação ao texto e a linguagem pra investir seu dinheiro (e tempo) na criação de um figurino de cair o queixo.

Cruella

Foto: Divulgação

E é verdade que as peças são decisivas. Elas realmente ajudam contar a história e tem um papel fundamental nessa proposta de entregar algo que pareça diferente ou autoral. Um papel que cumpre sempre que as rivais estão protagonizando os duelos fashionistas.

Entretanto, quando isso é deixado de lado e os outros elementos surgem em primeiro plano, o filme volta a ser uma produção genérica que deseja se destacar como Cruella, mas não consegue fazer mais do que um estilista demitido por causa de suas criações repetitivas.


Cruella está disponível no Premier Access do Disney+


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Cruella (2021)

5.5

Flavio Pizzol
Nascido em uma galáxia muito distante, sou o construtor original dessa nave. Aquele que chegou aqui quando tudo era mato. Além disso, nas horas vagas, publicitário, crítico de cinema, aprendiz de escritor e músico de fundo de quintal. PS: Não sabe trocar a sua imagem do perfil...

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