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Critica: X-Men – Dias de um Futuro Esquecido


24 de maio de 2014 - 13:00 - Flávio Pizzol

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Claro que a franquia dos X-Men seria diferente e provavelmente melhor, se estivesse nas mãos da Marvel Studios. Entretanto, a Fox mostra mais coesão e responsabilidade com os personagens, fazendo aquele que talvez seja o melhor da franquia até o momento.

O filme, que usa a HQ de mesmo nome como base, leva o Wolverine para o passado com a missão de impedir, ao lado de outros mutantes que apareceram no Primeira Classe, que um assassinato gere uma cadeia de eventos que irá culminar na destruição do mundo e na quase extinção dos mutantes.

O fato do filme se basear em um único arco dos quadrinhos é válido e ajuda muito a dar uma unidade interessante ao longa, até por que isso é inusitado nesse tipo de adaptação. A maioria dos filmes de super-herói não usa uma única história, misturando arcos, universos e tudo o que estiver à disposição para criar histórias cada vez mais mirabolantes. Logo, ponto para a Fox.

A história utilizada é um dos clássicos do grupo de mutantes e da própria Marvel. Dias de um Futuro Esquecido foi escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne e revolucionou as histórias dos mutantes, que passaram a ser uma das sagas mais vendidas da editora a partir desse ponto. Mesmo com muitas mudanças, pode se dizer que a adaptação é bem feita, por que a maioria dos elementos é aproveitado, ainda que sejam feitas algumas trocas.

A principal mudança é o protagonista da história, já que, no filme, Wolverine substitui a Kitty Pride, que volta ao passado na HQ. Por mais que todos saibamos que a troca foi feita em virtude do sucesso que o Wolverine tem com o público, ela é bem explicada e faz sentido, usando a própria Kitty para enviar o herói para 1973 através de poderes adaptados de outra personagem da HQ.

Ainda temos outras alterações, como o aumento da importância de alguns personagens ou a inclusão outros mutantes que não existem na HQ original, mas, no geral, essas mudanças funcionam e não incomodam. Posso garantir que o roteirista Simon Kinberg é extremamente feliz em adaptar a história, acrescentando ainda um algo a mais em alguns pontos, como no nível de destruição do mundo no futuro, que é muito mais drástico do que o da HQ.

Também não posso deixar de comentar que a adaptação desse arco especificamente foi uma grande sacada dos produtores. Além da história ser muito boa, ser marcante para a editora e ser uma oportunidade quase única de unir duas gerações de mutantes no cinema, a viagem no tempo é o elemento perfeito para consertar pelo menos uma parte do universo cinematográfico criado para os mutantes. Mesmo que reclamem de Homem-Aranha, Quarteto Fantástico ou qualquer outro filme de herói, é difícil achar um universo tão furado quanto o dos X-Men.

E sim, o roteiro desse conserta boa parte das cagadas anteriores, assumindo que tudo o que feito deve ser esquecido. A partir de agora, os X-Men do passado são única franquia dos mutantes no cinema e uma nova linha temporal, onde X-Men, X-Men 2, X-Men 3 e Wolverine Origins são basicamente ignorados, vai ser construída a partir desse universo. Funciona e é interessante, mas, por outro lado, fica parecendo que esse filme é a muleta da franquia.

Todavia, mesmo tendo muito mais acertos, o roteiro tem suas escorregadas, mas elas não incomodam tanto quanto em Espetacular Homem-Aranha 2 e Godzilla. Talvez o que mais me incomodou foi a grande quantidade de mutantes sub-desenvolvidos e desnecessários, onde só a Blink me deixou uma boa impressão, e o desfecho que pode – ou não – deixar alguns problemas para os próximos filmes.

Mas o roteiro tem outro problema maior, que, provavelmente, só vai te incomodar após o mesmo. O roteiro é bom, mas faz algo muito ruim, que é evitar algumas questões ou situações complicadas. É um fato que o Xavier andar é inútil e é só uma muleta pra ação ou para acrescentar um drama desnecessário para o personagem. Outra coisa que eles não explicam é como DIABOS o Patrick Stewart pode estar interpretando o Xavier, sendo que ele foi desintegrado no final do terceiro filme. Esse filme só foi deletado no fim desse longa, ou seja, no inicio, ele deveria explicar o que aconteceu com o corpo do personagem.

A direção também é acertada. Gosto mais de Matthew Vaughn, que dirigiu o Primeira Classe e só produziu esse, mas Bryan Singer faz um trabalho digno para o filme, usando bem a maioria dos personagens e criando boas cenas de ação.

O problema que a maioria dos nerds tem com Bryan está relacionado ao vexame cometido por ele Superman – O Retorno, mas, no geral, ele é um bom diretor. Seu primeiro filme, Os Suspeitos, é um dos meus suspenses favoritos, tendo um dos melhores finais de todos os tempos. Seu trabalho nos primeiros também é louvável, já que foram estes filmes que iniciaram essa mania em torno de filmes de heróis.

Ele volta a cadeira de diretor da saga e faz um bom trabalho. O clima da história é muito bom, as cenas de ação são divertidas e gigantescas, os efeitos especiais não passam do limite, entre outros acertos. No fim, ele só fez bem ao filme.

Inclusive, ele é responsável por manter o clima pé no chão que o Primeira Classe tinha. Muito suspense e referências a outros gêneros, como os filmes de assalto, marcam essa sequência que não tem tanta cara de filme de super herói. A comédia e a própria ação são pontuais, dando um clima de seriedade e urgência ao filme. Por conta disso, considero que esse seja um ótimo filme, mas, assim como o seu antecessor direto, não pode ser considerado o filme definitivo dos X-Men.

Quanto ao elenco, não tem muito o que dizer. São muitos mutantes, mas o destaque fica com Wolverine, Xavier, Magneto, Mística e Fera. Todos estão muito bem representados por Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence e Nicholas Hoult. Todos são ótimos atores, mas, na minha opinião, o destaque merece ficar com McAvoy e Fassbender, que criam personas diferentes para os heróis do passado e evoluem esses em um grau que nenhum mutante conseguiu, com exceção do Wolverine, que tem seus próprios filmes.

Além deles, outro mutante – que aparece pouco, mas tem sua devida importância – é o Mercúrio, interpretado por Evan Peters. O visual não agradou a maioria dos fãs (inclusive eu) e isso criou uma certa desconfiança com relação ao personagem. No entanto, ele é um dos melhores coadjuvantes do filme e sua cena, onde ele invade o Pentágono, é uma das melhores cenas da franquia cinematográfica. Sem contar que ele tem a melhor piada do filme, principalmente por fazer referência a paternidade de Magneto, que não deve ser usada nos filmes.

Do restante do elenco (que é gigante, logo quem quiser conferir todos os nomes pode olhar aqui), o destaque deve ir para Patrick Stewart, Ian McKellen, Ellen Page e Peter Dinklage. Os três primeiros são os mutantes do futuro que mais tem importância, assim como Bolivar Trask, o personagem de Peter, que ganha uma participação maior que a da HQ. Eles não acrescentam muito ao filme, mas pelo menos não são renegados, como a atriz Halle Berry e sua Tempestade.

Assim como Primeira Classe, esse é um filme muito bom, que tem capacidade para entrar em listas de melhores do ano com facilidade. Redondo e bem adaptado, Dias de um Futuro Esquecido é um grande filme, mas não é um filme de super-herói. Ainda falta algo para que a Fox faça um filme definitivo para os X-Men, mas, no fim das contas, não acho que isso seja um problema para esse filme.

OBS: Eu citei algumas mudanças mais consideráveis em relação ao original, mas quem quiser saber mais, desde que não tenha problemas com spoilers, pode ler aqui a matéria especial que o site Omelete fez sobre as diferenças entre a HQ e a adaptação.