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Até onde estamos dispostos a chegar para manter uma idealização de alguém ou de algo? O que precisamos sacrificar para confirmar uma história contada na própria cabeça? Essa projeção que fazemos de alguém para o que é de fato transforma heróis em vilões e desbancam um imaginário criado por anos sobre aquela situação.

White Lines, a nova série original Netflix, bate nessa tecla até a exaustão.

Buscar a verdade sobre uma pessoa pode ser doloroso, pois aquilo que permeia a ideia de alguém é cercado de outras histórias que um outro indivíduo não tem contato e é exatamente por essa ausência de informação que são capazes de ver apenas o lado bom, o lado carinhoso e especialmente construído para se tornar um herói.

Quando tudo isso é destruído, sobram as decepções, as tristezas e um processo de aceitação de que tudo aquilo criado no campo das ideias, era fruto de uma construção de alguém que, de fato, nunca existiu.

Axel, o DJ herói pelos olhos da irmã, estava longe de se tornar essa figura. Mas ela assim o fez e quando tudo foi destruído, sobraram apenas as cinzas de um imaginário de 20 anos mal contados.

A história de White Lines

A Ilha de Ibiza é amplamente conhecida por suas festas que se perdem pelas horas, com música eletrônica nas alturas e drogas como item de consumo local. Um lugar que serve como escapismo e idealização de sonhos, de aventuras e coisas que, numa vida normal, pouca gente teria coragem de fazer.

É nesse contexto que White Lines se aplica. Uma série com todos esses elementos e um tempero inglês para seu mistério.

Criada por Alex Piña, o mesmo responsável por La Casa de Papel, White Lines conta a história de Zoe, uma mulher que deixou uma pacata vida para trás em busca de respostas sobre o assassinato do seu irmão Axel, revelado 20 anos após o seu desaparecimento.

Zoe é uma bibliotecária de Manchester, casada, com uma filha adolescente e vítima de um trauma familiar. Após o desaparecimento de Axel a lembrança que a caçula criou era de um irmão alegre, com suas vontades e desejo de realizar seus sonhos e que toma a iniciativa para alcançá-los. O que ela não sabia era que todos naquela ilha espanhola tinham motivos para odiar o DJ.


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Existe na psicologia o chamado mito do herói, quando o indivíduo transita em suas fases da vida, amadurecendo e se tornando o adulto que precisa ser. O que acontece em Ibiza é completamente o contrário do tal mito. As pessoas ignoram seus amadurecimentos e tocam suas vidas à liberdade, com completa falta de compromisso ou senso de responsabilidade.

Toda essa intensidade, essa vontade de viver uma utopia de uma vida sem problemas, regada à drogas, sexo e música alta, permeia os habitantes dali, que simplesmente empurram as adversidades com a barriga, pelo tempo que for necessário.

Axel, Marcus, Anna, Oriol e David são claros exemplos disso e numa jornada incessante pelo desejo, são capazes de matar alguém para continuar nessa utopia. O problema é que não rola manter uma mentira pra sempre, muito menos esquecer dos problemas que se acumulam. Uma hora tudo isso bate na porta e não tem outra saída a não ser abrir e confrontar tudo que foi deixado de lado.

zoe white lines netflix ibiza

Mas vale a pena?

White Lines mostra como as pessoas são distorcidas e querem apenas um motivo para largar tudo e viverem suas fantasias. Ibiza é um paraíso que esconde os próprios problemas mas deixa escancarado seus desejos e aí cada um decide qual lado deixa falar mais alto.

A série tem umas comodidades narrativas que incomodam um tanto, como Zoe largando marido e filha para investigar a morte do irmão sem ser questionada sobre sua sanidade. Ou fugas da polícia com carros antigos e pilotagem extremamente precisa.

Esses pontos são muito característicos de La Casa de Papel, por exemplo. A famosa série de Piña é recheada desses elementos que transformam tudo num novelão pop quando lhe é conveniente. Em White Lines existe exatamente isso, porém com uma nudez explicita e consumo de drogas que passam bem longe dessa pegada descolada que La Cassa possui.

Outro ponto de desgaste em White Lines é por uma montagem confusa, com recortes do passado e do futuro para parecer mais inteligente. Isso só faz conturbar uma história que é recheada de subtramas e que, no fim, não influenciam na jornada de Zoe para achar o assassino do irmão.

Mas, fora isso, White Lines tem história pra contar e sabe explorar muito bem o drama de cada personagem. Todos esses problemas que a ilha quer esconder, acabam transbordando de uma forma ou de outra e vamos entendendo todos os pontos até chegar ali.

Em seus 10 episódios de quase uma hora, White Lines passeia pelo drama familiar, por histórias do passado que assombram o presente, por muito sexo, muita droga, muita música e por personagens que não sabem muito bem o que fazer com seus sentimentos.

Em White Lines, Ibiza é um personagem dos mais cruéis, capazes de destruir o imaginário mais sublime de uma pessoa. E que bom que é assim. No meio de tanto devaneio, um pouco de pé no chão mostra que fugir dos problemas é muito pior do que confrontar e saber resolvê-los. Aceitar tudo isso é duro, mas necessário. E isso, nenhuma fantasia pode esconder.


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White Lines - 1ª temporada

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